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domingo, 27 de novembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "A noite caiu"

A noite caiu. 

Cá em cima. A luz sobra por cima das muralhas. A escuridão reina à volta. Sei que estás lá no alto, dentro do campanário dos sinos da concatedral. Eu sou o sonho da noite que vem fazer-te companhia. Fico à espera na tua mesinha de cabeceira, à espera que embales os olhos nas páginas de um livro qualquer. As pálpebras começam a forçar a chegada do sono e eu preparo-me. 


tinta permanente - João Pires - "A noite caiu"
tinta permanente - João Pires - "A noite caiu"


Entro dentro de ti, sorrateiramente e acendi duas velas. E tu que vês? A luz tênue ao fundo do corredor. E vens ao meu encontro. De mansinho. Deixas que eu me infiltre dentro de ti para te mostrar coisas imaginárias. E o deslumbre começa. 

#JoaoPires #TintaPermanente

Espero por ti todos os dias - João Pires

domingo, 20 de novembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "Chove lá fora"

Chove lá fora. 
A noite caiu fechando o céu cinzento. Ao som da música. Violinos e piano ajudam a chegar a noite. Serena. Agora são as luzes dos candeeiros da rua que entram pelos vidros das janelas, salpicados por fora com gotas de chuva. Parecem pequenas pérolas brilhantes de chuva. Como tu. E a lua nunca mais chega. Talvez não venha esta noite. Afinal não é garantido que apareças esta noite. Porquê Lua? Vejo-te nos meus sonhos. Dá-me a tua mão e vem comigo passear pelas nuvens dos meus sonhos. 


tinta permanente - João Pires - "Chove lá fora"
tinta permanente - João Pires - "Chove lá fora"

Insano ou sensível?
Isso é viver!
Canção de amor ao piano. Velas em cima da mesa. Luz ténue vinda do exterior. E sonho que estás ali, ao meu lado.
E debaixo da tua luz de prata, dou-te um beijo molhado. Chove lá fora e não te vejo. Beijo-te nos meus delírios.
Como é viver depois de ti?
Viver na luz. Engraçado. Sempre me disseram isso. Vives no mundo da lua. Afinal eles têm razão. Estás na lua
Vejo amor em ti, com todo o meu coração.
Mas o amor de uma mulher é poderoso. É mais forte que um ataque na guerra.
Só os sábios cometem loucuras de amor. E como chove lá fora. As pérolas de luz continuam coladas ao vidro.
Quero ser sábio!

domingo, 6 de novembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "Silêncio"

tinta permanente - João Pires - "Silêncio"
tinta permanente - João Pires - "Silêncio"
Viver o silêncio dentro da minha alma. Quando escorrega o mutismo das palavras sobre mim. E eu quero respirar profundamente. Em silêncio! Quem sou eu? Quero aprender a conhecer-me. A mapear de cor a alma. Em silêncio. No silêncio da escrita sufocante e atrevida. Cai a noite taciturna, com a bruma a emergir do rio e invadir as margens. Em total silêncio. E eu olho-me ao espelho, fecho os olhos e escuto o sangue a correr nas veias. Em silêncio. Descobri a riqueza que esse momento encerra. Em silêncio. Como posso transportar os segredos em silêncio? As palmas das mãos denunciam suor. O suor do silêncio que me invade os meus pensamentos mais preciosos. Já não sinto arestas na profundeza dos meus sentimentos. Tenho-me amarrado ao silêncio, que me  desafia a viver! A sentir a vida, contemplando-a em silêncio. Esvaziei o coração de ruídos. Preenchi-o com o silêncio mais puro. Melancólico quando cai a noite e o torpor vem resgatar para embalar no sonho. O silêncio também sabe acariciar o peito, livrando-o do aperto. E entra na alma. Carrego o silêncio de ser teu.

João Pires

5-11-2016

sábado, 5 de novembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "Para trás ficou uma pradaria verde de esperança"

Para trás ficou uma pradaria verde de esperança, de braços abertos para o regresso. 

A força da coragem para desbravar novos mundos debaixo de torrentes de água, bateladas de ondas gigantes.



Com os meus suspiros, encantei mágoas. Desamarrado das vistas, desprendido dos perfumes da terra, atiro-me sem devaneios ao oceano, na busca da perfeição. 

A ilusão do horizonte.

texto e foto de João Pires

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "O encanto da sereia"

Vou entrar no mar. Deixo o meu coração em terra. Quero surfar até atingir a linha do horizonte. Primeiro vem a espuma das ondas, depois a ondulação forte e por fim um oceano inteiro por explorar. Lá em cima pairam as gaivotas, quando está bom tempo. Hoje o mar está cinzento. Estará de mau humor?

tinta permanente - João Pires - "O encanto da sereia"
tinta permanente - João Pires - "O encanto da sereia"


Eu quero, assim mesmo, trilhar esse caminho marítimo. Quem sabe encontrar a musa inspiradora que me encanta a alma. Ouço para lá do horizonte o belo canto da sereia, que mil perigos encerra! Saberei permanecer atento, lá bem do alto, no cesto da gávea.

Texto e foto
+Joao Pires

terça-feira, 1 de novembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "Ainda faço anos"

Mãe, onde está o meu bolo de aniversário? Aquele que sabias fazer tão bem. Aquele bolo com côco ralado por cima ou com bolacha Maria molhada em café. E os amigos à minha volta e também à volta do bolo dos meus anos. O brilho dos olhos saltava cá para fora no momento em que o bolo entrava na sala já com as velas acesas e todos começavam a cantar os parabéns.
E como eu comia a papa debruçado na varanda, a observar as pombas do vizinho. 
- E vai mais uma colher, dizia a minha mãe. Como se fosse ontem.
- Lembras-te mãe? Foi ontem. Eu não queria comer. Mas tu não desististe de mim.
E mais uma colher. E mais outra. Agora sei bem o que é dar colheres de papa.
Mas hoje faço anos. Primeiro recebi o carro gigante. Um carro vermelho em lata, onde eu cabia lá dentro. O meu primeiro mundo.


tinta permanente - João Pires - "Ainda faço anos"


Um dia fui mordido pelo Piruças. Cão raivoso de passar o dia acorrentado junto às garagens nas traseiras do apartamento. Triste ladrar.
Depois veio a bicicleta usada. Bicicleta verde oferecida pelo meu primo. Já não lhe servia. Mas a partir daquele momento, passou a ser a minha bicicleta. Corremos mundos dia após dia, após as aulas. Voltas sem fim no campo das traseiras de casa. Umas vezes só. Para aperfeiçoar a volta. Melhorar aquela curva e apurar a descida da rampa. Sabes? Uma vez esfacelei os nós da mão direita contra o muro de cimento rugoso e outra bati com o corpo contra a parede. Não doeu nada!

E a vizinha convidou para descer ao seu quintal. Acabou de matar um frango. Não me sai da cabeça a imagem do galináceo a correr pelo quintal fora, sem a cabeça. E o arroz de cabidela estava saboroso.
Como eu gostava de regressar ao prédio onde nasci, para saber se ainda cantam os parabéns. E se a pistola prateada ficou por lá. E saber se o vizinho ainda dispara pequenas batatas com a sua poderosa fisga de elásticos, para acordar o seu amigo do lado de lá da rua.
E eu continuava a equilibrar a minha bicicleta em cima de tábuas, em jeito de concurso com os meus amigos. Por onde anda a minha bicicleta verde?

Já não faço anos. Agora celebro o dia que acabou de nascer. É sublime.
Será que o meu pai me vai trazer uma bicicleta nova no Natal ? 

Quero percorrer estradas sem fim, rasgar horizontes, viver de ar e vento e beber o céu azul.

João Pires


29-10-2016