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quinta-feira, 28 de julho de 2016

tinta permanente - João Pires - "Visita ao Oceanário de Lisboa"

tinta permanente - João Pires - "Visita ao Oceanário de Lisboa"

Finalmente chegou o dia para revisitar o Oceanário de Lisboa na companhia dos pais e da Mary a sua irmã mais nova. Depois de algumas voltas pela zona da EXPO’98 lá  encontraram um lugar ao sol para estacionar o carro. Estava calor. Devia estar cerca de trinta graus à sombra. Não corria uma brisa sequer. Esta zona de prédios modernos, que é como quem diz, pois já têm quase vinte anos, e uma zona de ruas traçadas a esquadro. Rectilíneas, ruas largas, com árvores dos dois lados mas ainda assim, não o conseguem eliminar o calor abafado corre em jeito de baforada.

tinta permanente - João Pires - "Visita ao Oceanário de Lisboa"
tinta permanente - João Pires - "Visita ao Oceanário de Lisboa"


Chapéus, óculos de sol, garrafa de água e seguem em direção ao rio para se orientarem melhor.
Atravessam avenidas, passam por rotundas e ate pelo famoso cone gigante de cerâmica ladrilhada de cor laranja, donde escorre água pelo topo, criando uma sensação de frescura passageira com os seus salpicos. Desta vez não imita por completo o vulcão, pois era costume expelir água como uma baleia, do topo, de minuto a minuto, mas desta vez esta sem atividade.

Mais à frente, encontram de queda de água em forma de cascata. Param para tirar uma foto e para aproveitar aquele movimento de água que cria mais um momento de alívio ao calor.
Por trás da queda de água, está um lago ladeado por duas paredes revestidas a cerâmica e com umas frases de escritores portugueses famosos.
- Mary, vamos por aqui, sugeriu Tigas, apontando para o pequeno caminho de pedras dispostas por cima do lago.
No baixo fundo do lago, estão dispostas pequenas pedras de granito, sendo facilmente visíveis da superfície. Tigas salta para uma abertura em forma de janela gigante numa das paredes.
- Tira uma foto, pediu.
- Vamos comprar os bilhetes para entrar no Oceanário, sugeriu Gabriela.
Ao dar a volta à parede do lago, depararam com uma fila mais ou menos grande para comprar bilhetes. Eram onze e meia da manhã. Felizmente a fila faz-se debaixo de uma cobertura criando uma zona de sombra compactadamente fresca.

Passa uma grávida à frente de toda a fila, para comprar os bilhetes.
- Porque é que ela passou à frente de todos?, perguntou a Mary.
- As grávidas têm prioridade sobre as outras pessoas. Carregam um bebé no ventre.
Finalmente chegou a vez de Mary e Tigas.
- Permanente ou permanente e temporária? perguntou a moça da caixa.
- Eu quero a permanente e a temporária, pediu Tigas.
- Permanente e temporária para quatro, sendo dois adultos e duas crianças.
- Então sugiro o bilhete familiar, disse a rapariga algo forte, de cabelos compridos, óculos a escorregar pelo nariz, mas de mãos delicadas, sem qualquer embelezamento extra.
"Multibanco ou VISA", pergunta o terminal de pagamento.
- Ainda não percebi a diferença, se o meu cartão é de débito, mas um dias destes vai fazer-se luz. Estas alterações de pagamento não foram devidamente divulgadas, diz o pai.
Por cima do balcão de atendimento, está um cartaz publicitário. "Venha passar a noite com os tubarões". Tigas fitou pensativamente o cartaz.
- Vamos entrar, pede o Tigas já impaciente.
Mary segue o rasto do irmão mais velho.
- Por onde vamos começar? pergunta Gabriela.
- Vamos primeiro ver a exposição temporária.
Antes de entrarem, deixaram as mochilas nos cacifos no piso zero do Edifício do Mar. Mary colocou uma moeda de um euro, marcou o código secreto e fechou a porta.
- Não te esqueças do código, pediu Tigas.

Logo à entrada são pedidos os bilhetes para validação. De seguida passam por um corredor escuro e começam a ouvir uma música suave, como se viesse das profundezas do mar. Mais ao fundo, deparam com um aquário gigante, em forma de "U", com uma base de areia clara, vegetação constituída por plantas aquáticas distribuída pontualmente, troncos em madeira de árvores provenientes da Escócia e da Malásia, rocha vulcânica dos Açores e pequeninos coloridos peixes tropicais de água doce.

A música continuava a espalhar-se pela atmosfera fresca, com uma certa brisa marítima a percorrer o espaço. Tudo o que não fosse o aquário, era negro: paredes, chão e degraus para observar o aquário. A parte de trás e a zona superior do aquário estão fortemente iluminadas, criando um detalhe e cores únicas das plantas submersas. Esta exposição também pretende chamar a atenção quanto à captura e comercialização de peixes ornamentais, bem como promover a sustentabilidade ambiental.
A beleza da imperfeição, através da recriação de florestas tropicais submersas, leva Tigas e Mary a viver uma experiência única. São mágicos e enigmáticos ecossistemas, oferecendo contemplação, relaxamento e simplicidade, convidando a descobrir a natureza moldada pelo tempo, décadas, centenas de anos, envelhecidos de forma natural, orgânica e bela.
Já passava da uma da tarde e Mary começava a sentir um ronco no estômago. Provavelmente do vazio.
- Tenho fome, reclamou Mary.
- Vamos fazer uma pausa, sugeriu a mãe.
Vieram até cá fora, para uma zona de sombras proporcionada pelos pinheiros mansos, plantados à beira-rio.
Sentaram-se nos bancos coloridos dispostos ao longo do rio. Sumos de fruta, sanduíches de frango e de queijo fresco e beterraba. Massa chinesa com vegetais e algas marinhas com molho de soja.
O ar estava abafado, mesmo à sombra das árvores. Não corria brisa. A água do rio batia ritmadamente na margem de pedra. Mais ao longe vê-se a ponte Vasco da Gama que parece nascer na margem norte e desaparece no horizonte. A margem sul não se consegue avistar daquele ponto, dando a ideia que o mar começa ali e só termina noutro continente. Lá em cima, vão passeando lentamente as cabines do teleférico, mostrando uma perspectiva aérea da zona da EXPO'98.

De súbito, começa a arrefecer, o céu fica carregado de nuvens, ameaçando uma tempestade em pleno Verão. Estranhamente, Mary e Tigas começam a flutuar e a viajar para o interior do Oceanário. Escureceu definitivamente. O sol não voltou. Começaram a explorar o interior do Oceanário, sós. O último visitante tinha acabado de passar por eles, mas não tinha dado conta da sua presença. A luz começou a diminuir. Os tubarões destacam-se no aquário principal, através da parca luz vinda do alto. Mary e Tigas não conseguiam encontrar a saída. Quem sabe se os tubarões são boa companhia para dormir? Com aquele olhar intimidante?
- Nem pensar, diz Mary. Quero sair daqui para fora e já!
- Se não encontrarmos uma saída, vamos ter que arranjar outra solução, sugere Tigas.
- Aquela pele áspera, os dentes enormes, a velocidade estonteante e o olhar intenso dos tubarões, provoca-me arrepios na espinha.
- Tem calma, tudo há-de correr bem.
Envia uma SMS aos pais. Eles hão-de saber como nos tirar daqui para fora.
- Ups. Não trouxe o telemóvel.
- Não quero passar aqui a noite.
- Vamos ter com a Micas e a Maré.
- E qual é o caminho?
- Basta seguir a direcção do Oceano Pacífico, para encontrar as lontras marinhas.
Mais uma vez passam junto ao aquário principal e cruzam com um tubarão gigantesco, com os olhos postos nas crianças. Afastaram-se imediato do vidro.
- Parece que vamos ter que passar a noite por aqui, diz Tigas, olhando em volta à procura de uma saída.
- Brrr. Não queria nada, treme Mary.
- Tigas olha para o interior do aquário principal, enquanto se dirigem para a ala do Oceano Pacífico.
- Para onde estás a olhar, Tigas?
- Parece que os peixes estão a diminuir a sua actividade. Parece que se estão a preparar para dormir.
Entretanto chegam ao Oceano Pacífico e encontram a Micas e a Maré de mãos dadas enquanto dormem. Eles acharam a situação enternecedora.
- Na verdade, as lontras marinhas dão as mãos no alto-mar em pequenos grupos do mesmo sexo, para não se perderem e não por questões afectivas.
- Não deixa de ser ternurento, diz Mary, ao apreciá-las.
Arranjaram um lugar com vista para o aquário principal, mas a uma distância segura, pois os tubarões ameaçavam partir o vidro para vir buscá-los. Sentaram-se, pousaram a cabeça entre os joelhos e deram as mãos, tal como a Micas e a Mare. Talvez para não se perderem neste sonho.
Esta é uma experiência que estimulou os sentidos da Mary e do Tigas até ao limite, através da visão de um cenário submerso e misterioso. De vez em quando, ouvem-se uns ruídos, como que ruídos abafados vindos do aquário principal. Uns lamentos do fundo do Oceano. Qual seria a espécie capaz de produzir aqueles sons profundos? Finalmente chegaram os primeiros raios de luz. Para além da noite, de manhã o Oceanário também foi só da Mary e do Tigas, pois passaram invisíveis ao lado dos tratadores e aquaristas. Quem diria que os tubarões podem ser uma boa companhia para dormir? Os 8.000 animais e plantas tornaram-se na melhor companhia para passar uma noite fora de casa, proporcionando uma experiência única. Como é que se alimentam tantas criaturas marinhas, como é que se mantém a temperatura de um aquário com cinco milhões de litros de água, tudo isto são questões que deixam Tigas fascinado. Mary deixou-se encantar pela ternura de Micas e Maré.
- Acorda, pediu o pai com um beijo na testa de Tigas.

A mãe beijou Mary no doce pescoço. Tudo não passou de um sonho nocturno. Mas não esquecem que o Oceanário é o espaço ideal para envolver e sensibilizar para a conservação da natureza.

tinta permanente - João Pires - "Visita ao Oceanário de Lisboa"
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sábado, 2 de julho de 2016

tinta permanente - João Pires - "Partiram cedo rumo ao Sul do país"



Partiram cedo rumo ao sul do país, onde é costume fazer sol e calor nesta altura do ano. Estamos no início de junho. Com três GPS ligados, o astrolábio das autoestradas, e uma consulta prévia em casa ao Via Michelin, lá partiram mais seguros do seu destino. Nunca se sabe quando é que fecha uma estrada para manutenção ou para inclusão de novas portagens ou até quando abre um novo túnel em direção ao Algarve. A viagem mais curta contabiliza cerca de seis horas com entrada na A1 na portagem dos Carvalhos e saída em Santarém.


Logo nessa saída, o primeiro GPS foi desligado, pois não reconheceu a estrada. Provavelmente tinha os mapas desatualizados.
- Não sei para que queres esse GPS, está sempre com os mapas desatualizados.
- Tenho que o atualizar um dia destes.
- Mas a viagem é agora, exclamou ela.
Calou-se e seguiu viagem, concentrado no asfalto que cada vez ganhava mais calor. Era quase meio-dia. Decidiu ligar o mapa GPS no telemóvel e reforçar o ar condicionado.
- Estás maluco? A conduzir e a ligar o GPS do telemóvel? Pára já com isso, ordenou.
- Mas só vamos a 80 km, respondeu candidamente, como se nada de especial estivesse a acontecer.
- É extremamente perigoso estar a definir a rota do GPS durante a condução, disse numa voz irritada.
Desistiu e ligou o rádio. As crianças continuam lá atrás a jogar nos tablets.
- Falta muito para chegar ao Algarve?, pergunta Mary.

Passado mais um pouco de tempo ficam entediadas, fecham os olhos e entram num sono leve, embaladas pelo rolamento no asfalto.
A paisagem estava a modificar-se à medida que rumavam a sul. O campo de regadio, os campos alagados em água na zona do Sado, provavelmente com cultura de arroz. Mas à frente estende-se uma bela paisagem de pinheiros mansos a nascente, com um magnifico recorte na paisagem.
O depósito de combustível tinha saído de casa a 75%. Mais à frente, já na ligação para a A2, a autoestrada que leva até ao Algarve, decidiu parar para reabastecer. E para comer uma sandes de queijo e fiambre. Assim, a seco.
Viajar a 120 km/h parece uma eternidade, mas na verdade habituamo-nos. Ela falava de um texto qualquer publicado no Facebook. É preciso saber esperar. Saber esperar pelo bebé que vai nascer, saber esperar pelas férias grandes, saber esperar por um belo dia de sol, uma tarde na praia sem vento. Saber esperar uma vida inteira, por tudo aquilo que vier a seguir. Quem não souber esperar, não sabe viver!

As crianças no banco de trás adormeceram por volta das duas da tarde. Ainda faltavam mais cento e oitenta quilómetros. Estão em Alcácer do Sal. Atravessar o Alentejo, região que ocupa um terço da área do território continental. Ao início da tarde é uma aventura da savana africana. É o calor que se abate na estrada. Os milhafres pairam no ar aproveitando as correntes de ar quente, desenhando sombras enigmáticas sobre a estrada.
As cegonhas regressam aos ninhos montados em cima das torres dos cabos de alta tensão, apesar dos equipamentos destinados a dissuadi-las de tal intenção. Apesar disso, a população das cegonhas aumentou cerca de 50% nos últimos dez anos. O lixo e a praga dos lagostins vermelhos, continuam a convencer a cegonha branca a nidificar em Portugal.
Regressam ao ninho para levar comida às crias. E os quilómetros vão desfilando.
Último posto de abastecimento antes de chegar ao Algarve. Assim se pode ler na placa azul informativa colocada à beira da autoestrada.

Estamos quase a chegar, pensou. As crianças continuam a dormir. De súbito toca o telemóvel do Tigas, que acordou ligeiramente sobressaltado.
- Está lá? responde com uma voz a despertar do pequeno sono. Acordaste-me!
Do lado de lá ouve-se uma foz feminina. Era a Shelby. Voz de menina em corpo de quase adolescente.
- Sim Shelby. Vamos aqui à frente. Acabamos de passar em Aljustrel. Até já. Desligou e pousou a cabeça na janela.
Mary continua com o tronco deitado no banco do carro, cabeça para a frente e pernas levantadas lá para trás, no sentido da mala. O telemóvel da mãe calou-se há muito. Tinha tocado D.A.M.A. e a mãe tinha dito que é uma das suas bandas preferidas.
Desta vez vai a família toda para o Algarve. Mary, Tigas e as suas primas Shelby e Fifin.


Finalmente chegaram ao aldeamento turístico de arquitetura tipicamente algarvia, a qual tem forte influência árabe. Todas as casas estão pintadas de branco, com os característicos telhados de telha mourisca, as açoteias, os platibandas coloridos, com decorações geométricas e as famosas chaminés rendilhadas.
Depois de uma breve paragem na recepção para receber instruções, a localização do apartamento e pulseiras azuis de identificação, foram a pé para fazer um reconhecimento da área.
Rapidamente concluíram que se trata de posição muito próxima do apartamento onde haviam ficado no ano anterior. A situação é fantástica. De frente para a piscina e no piso do rés-do-chão, pois é mais fresco. De manhã é preciso fazer ginástica para chegar até ao clubhouse onde é servido o pequeno almoço. Virado para os campos de golfe, com um percurso de 9 buracos, par 3, e um circuito de fairways único, tem uma vista panorâmica privilegiada. Este campo foi desenhado para se andar a pé, pois não é nada cansativo, apesar do relevo. Informaram na recepção que só com certificado médico é que alugam buggies.


De manhã bem cedo, chega o primeiro hóspede, ainda não são oito da manhã e a sala está fechada. De frente para os campos relvados, abre um livro sob o ar fresco da manhã.
Passado uns minutos correu uma imagem inspiradora, fechou as páginas do romance e tirou um pequeno bloco de notas preto. De imediato assentou a ideia.
Hoje o dia está fresco e o céu azul sem nuvens, os campos de golfe estão a ser regados e libertam pequenos salpicos que se espalham pelo ar.
Portugal tem dos melhores campos de golfe da Europa, mas este ano há pouca água e a rega dos campos está dificultada. A rega dos jardins e campos de golfe consome uma quantidade de água oceânica.

Entre sobreiros e pinheiros mansos, os jardins são marcados por coloridas mimosas e buganvílias.
As chaminés algarvias, presentes em todo o aldeamento, além da utilidade normal desempenham também um papel ornamental, e tomam as formas mais variadas, desde as que apresentam simples ranhuras, às que ostentam complicados e belos rendilhados. Muitas delas assemelham-se a miniaturas de torres ou minaretes árabes. Podem ter secção circular, quadrada ou rectangular, mais simples ou mais elaboradas, mas têm sempre uma forma bastante artística .


Os pássaros da manhã atrevem-se com as migalhas do dia anterior caídas na varanda em madeira do clubhouse onde são servidos os pequenos-almoços. Corria uma ligeira brisa.
Logo pela manhã surgem os primeiros jogadores de golfe. Todos devidamente equipados com sapato de golfe, calção e polo.
Naquele dia surgiram dois jogadores ingleses logo por volta das 8h30 min, dirigiram-se ao ponto de saída e ensaiaram a primeira tacada em movimentos suaves e repetidos à procura do swing perfeito.
Este ano o sortido de turistas era diferente, devido à crise que se faz sentir noutros destinos turísticos.
A vista a partir do clubhouse é magnífica. O ondulado do campo de golfe em relva fina e acabada de cortar, com os pinheiros mansos distribuídos por pequenos vales e um lago redondo na parte baixa, decorado por nenúfares, onde as garças reais têm por hábito pousar. Corre o cheiro de erva fresca, acabada de cortar, emanando para para o ar o aroma a verde.


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tinta permanente - João Pires - "Partiram cedo rumo ao Sul do país"



Por volta das nove, surge um novo par de jogadores britânicos. Os dois de estatura alta, embora um deles mais barrigudo, provavelmente fruto da cerveja dos bares londrinos, Tom e Smith o outro jogador, assim batizados para melhor entendimento daqui para a frente.


Smith apresentava alguns tiques nervosos, embora os tentasse corrigir a cada momento. Quase de forma imperceptível, antes de dar a tacada, rodava os olhos a sua volta e só depois se concentrava na trajetória da bola. Diriam os entendidos do golfe que está a certificar-se das condições do circuito e do vento.


Tom, ligeiramente mais baixo, de barriga proeminente, apresentava um ar aristocrático. De faces vermelhas, olhos azuis e cabelo curto e claro.


Na pequena varanda das mesas, viradas para o golfe, ouve-se falar em francês e inglês.


Mais tarde já por volta da hora do almoço, a temperatura continua a subir. No apartamento com saída directa para a piscina depois de atravessar um tapete de relva, podem avistar-se pinheiros mansos e cupressos distribuídos de forma aleatória em torno da piscina e dos apartamentos. Fazem uma sombra imprescindível para dar frescura a alguns apartamentos. A piscina em forma de baleia alberga a criançada em cima de bóias a chapinar na água. À volta da piscina estão distribuídas cadeiras e guarda-sóis de forma ordenada, que foram sendo ocupadas gradualmente durante a manhã.
- Passas-me o creme? alguém pediu.
- Vou passar-te o creme nas costas, respondeu o rapaz dos calções vermelhos.


Mais atrás, tem um pequeno bar de apoio à piscina onde servem gelados e bebidas frescas.
No apartamento ao lado, ouve-se falar inglês em voz moderada. Passado uns momentos vem uma criancinha invadir o espaço.
- No problem, respondeu Tigas, provavelmente ao pai que veio buscar o miúdo.
No final da tarde foram jogar uma partida de ténis. Durante o dia faz muito calor e ao final da tarde levanta vento. Aquela tarde estava de feição para a modalidade. Corria pouco vento.
Tigas posicionou-se com ambos os pés em repouso, atrás da linha de base, mais propriamente entre as linhas imaginárias de centro e laterais. Depois atirou a bola ao ar e golpeou-a com a raqueta. e subitamente, Mary reparou em duas silhuetas a espreitar através da rede. Eram Tom e Smith. Porque estariam a olhar? Quando pararam o jogo para ir buscar uma bola, aproveitaram para ver se ainda lá estavam. Sentiram-se observados e seguiram o seu caminho. Tigas ficou a pensar no sucedido, mas deram seguimento ao jogo.
No final da tarde aproveitaram para dar um passeio na areia molhada da praia. Apanharam uma concha brilhante como nunca vista. No dia seguinte foram devolver a concha ao mar, porque havia perdido todo o brilho.
- Reparaste naqueles ingleses? perguntou Tigas, enquanto passeava enterrando os pés na areia.
- Sim. Estavam a olhar para nós.
O sol ia baixo, mas a temperatura do ar era ideal e a água ainda melhor. A maré atingiu a baixa-mar, ideal para dar uma corrida à beira da água.
Já de regresso ao apartamento, cruzaram-se com aquelas duas figuras peculiares, como se tivessem estado a jogar golfe durante todo o dia, pois mantinha o equipamento vestido à excepção dos sapatos que foram trocados.


O equipamento mantinha-se à exceção dos sapatos de golfe que foram trocados por um calçado mais confortável foram dos relvados. Desta vez foi o Tigas quem os viu e desviou o caminho pelo lado interior dos courts de ténis. Passaram do lado de lá da estrada numa conversa animada, como se estivessem a contar alguma história ou a planear alguma coisa. Mas sempre com algum cuidado, olhando em volta, pois por ali passam muitos falantes da língua inglesa. O jantar servido à beira da piscina decorreria como habitualmente, não fosse o espetáculo dos répteis. Três bonitas iguanas desfilaram pelas mesas pelas mãos de duas jovens apresentadoras, de calções vermelhos curtos e chapéus em pele à cowboy.
Os animais exóticos passeavam-se lentamente em troca de uma folha de alface ou de um tomate maduro, debaixo de luz forte. Mais uma noite de glória para aqueles bichos que viajaram desde as florestas tropicais.
Tom e Smith surgiram de súbito para se encostarem ao balcão. Foram-lhes servidas duas cervejas, enquanto apreciavam o espetáculo a uma certa distância.
- Recebeste o telefonema? perguntou Tom.
- Negativo, respondeu Smith. Nada no email ou SMS, completou.
Smith, pensativo foi bebendo a cerveja enquanto apreciava o espetáculo proporcionado por aquelas beldades portuguesas.
De súbito desapareceram, que nem D. Sebastião. O espetáculo está prestes a terminar. Os grupos de ingleses terminavam as suas bebidas e falavam de forma animada de temas como futebol, o tempo em Portugal e outras trivialidades.
A noite terminou com o casal do apartamento ao lado em conversa animada no pequeno terraço virado para o relvado e piscina. À luz da vela, pousavam dois copos de vinho tinto em cima da mesa branca de jardim. Falavam pausadamente e em tom mais baixo, pois já passava da meia-noite.
- Já reparaste sweetie, o céu está cheio de estrelas.
- Sim, meu amor, escolhemos bem o destino para passar a lua-de-mel.
- Lory, a vida é feita de coincidências. Se não tivesses sido recolhida pela ambulância onde eu estava de serviço, provavelmente não estaríamos aqui.
- Martin, proponho um brinde ao nosso amor.
Elevaram os copos, olharam-se nos olhos e encostaram levemente o cristal em jeito de celebração.
- Reparaste hoje de manhã naquela dupla de jogadores de golfe?
- Não.
- Aqueles dois altos, um deles com as faces rosadas e olhos azuis e ligeiramente barrigudo.
- Não me lembro se os vi.
- Têm um aspeto sinistro. Estão sempre a olhar em seu redor. E parece que têm tiques.
- Tiques?
- Sim. O mais barrigudo está sempre a fungar.
- Provavelmente está constipado.
- E o outro está volta e meia a consultar o telemóvel. Como se estivessem à espera de notícias, apesar de ser proibido usar telemóvel no campo de golfe.
- Podem estar a aguardar alguma novidade das terras de Sua Majestade, respondeu Martin.
- Quando eles passam frente à TV no clube parece que procuram notícias.
- Bom, vamos dormir que já é tarde, sugere Martin.
- Espera mais um pouco, o céu está estrelado e a temperatura está agradável. Gostava que o céu estivesse estrelado todas as noites.
No dia seguinte, por volta das oito horas, lá estava Tom e Smith a ensaiar as primeiras tacadas da manhã. Não parecia tratarem-se de grandes jogadores de golfe. As saídas eram fracas, o swing não era próprio de jogador regular, os sapatos pareciam novos, a estrear. Tom começava a corar as faces ainda mais. De seguida puxa de um lenço do bolso para limpar o suor da testa.
Smith começava a ficar impaciente, enquanto esperava pela sua vez. Coçava o nariz, rodava os olhos em sua volta e espreitava o telemóvel, entretanto colocado no silêncio, para não despertar atenções alheias.
À medida que avançavam nos buracos e se distanciavam do club, volta a conversa.
- Soubeste de alguma novidade ?
- Não. Respondeu secamente Smith.
Entretanto, lá em cima, no clube, passavam as notícias da BBC, que abrem com um assalto a uma lavandaria no Reino Unido.
- Os assaltantes levaram um saco de notas. Cinco milhões de libras é o valor estimado do assalto, dizia a apresentadora. Ainda não há suspeitos. E agora passamos à política.
Os frequentadores do clubhouse, pararam por segundos e continuaram o seu ritual matinal. Comentário daqui, comentário dali e seguiram em frente.
Do outro lado do aldeamento turístico, o sol já iluminava fortemente a piscina em forma de baleia, o relvado e as casinhas baixas. O cheiro a relva húmida e acabada de cortar, o chilrear dos pássaros e até o barulho em surdina do motor da piscina e do corta-relvas compõem um quadro de férias, embora com alguns ruídos de fundo.
Eram nove da manhã e já havia quem estendesse a toalha numa espreguiçadeira à beira da piscina. As crianças levantavam-se lentamente para rumarem ao pequeno almoço lá no clube. Por volta das nove e meia já estavam todos a saborear o sumo de laranja e as torradas com compota de morango.
A dupla dos ingleses havia desaparecido. Já estavam outros jogadores a iniciar o circuito tendo como ponto de partida o clube. Nas outras mesas havia um certo burburinho fora do habitual. Não era a conversa do costume, sobre o estado do tempo ou as marés. O ritmo e a entoação das palavras eram diferentes.
Terminado o pequeno almoço e depois da escovagem dos dentes, Tigas foi jogar uma partida de ténis com Mary, a sua irmã mais nova. Cabelo comprido e escuro, olhos verdes, pele clara e nariz perfeito.
- Vamos lá maninho.
- Agora vai ser a sério, responde Tigas.
Encaminharam-se para o court de ténis, cada um com a sua própria raqueta. Depois de baterem algumas bolas, Mary vê aquelas duas estranhas personagens a passar pelo lado de fora do court em direção ao exterior do aldeamento. Continuou o jogo durante mais meia hora, tendo terminado por volta das dez da manhã. O calor começou aumentar. Depois seguiram para a praia com as pranchas de bodyboard à cabeça.

Havia alguns turistas a fazer a sua corrida matinal, embora o calor continuasse a apertar. Escorrem suor pelo rosto abaixo. Pele vermelha, própria de quem vem do frio e passada ritmada.
Desceram à praia. A maré está cheia, com ondas favoráveis ao bodyboard. Ora vem onda baixa, ora vem onda alta, capaz de transportar Mary até à areia seca. Estiveram naquele jogo durante uma hora incessante de brincadeira com o mar. Estava bandeira verde. Já era quase uma da tarde. Decidiram regressar ao apartamento, passando pelo minimercado para comprar alguma fruta, pão, uma pizza congelada e umas latas de refrigerantes e água.
Cruzaram também os campos de ténis. Estavam desertos, dado o calor que agora se faz sentir. Atravessaram a piscina da baleia e entraram pelas traseiras do apartamento, situado no rés-do-chão. A portada de alumínio castanho estava apenas encostada. Ligaram o rádio e ouviram o noticiário da uma. Havia um alvoroço por causa de umas buscas policiais em Portugal, mas não se conseguiu perceber em pormenor, pois apenas se tratava de um resumo informativo e a qualidade do som era fraca e com interferências.

Depois de uma salada de alface, tomate-cereja e uma sopa de espinafres, sumo para as crianças e vinho tinto de cor rubi com aroma a frutos maduros e um toque abaunilhado para os pais, foram apanhar sol para a imensa zona relvada virada para a piscina.
Os mais velhos e os pais das crianças tomavam banhos de sol à beira da piscina, enquanto vigiavam os mais pequenos entretidos a brincar e a molhar os pés na água.
Aqueles que não tem esse tipo de preocupação, entregam-se a descontraídas leituras de verão. Outros jogam com raquetas de ténis de praia e outros ainda lêm o jornal perto do bar da piscina. Corre uma ligeira brisa e o céu anuncia descida de temperatura com a chegada de algumas nuvens densas. Lá ao longe ouve-se o som de uma sirene. Poderia ser de uma ambulância ou até da Policia. Não se podia distinguir muito bem pelo barulho causado pelo vento e do marujar das folhas nas arvores.

A tarde passou-se e chegou a hora do jantar. Foram arranjar-se para o jantar no restaurante/bar “A Varanda” situado à beira da piscina principal, complementada com uma piscina aquecida. O serviço de buffet permite uma variedade de escolhas, começando por um creme de alho francês e depois com bifes de espadarte grelhado, bifes de peru e cubos de carne de vaca. Como acompanhamentos, estão disponíveis os legumes cozidos, milho, alface, beterraba e outros acompanhamentos e ainda molho vinagrete e molho branco, provavelmente de iogurte. Para rematar está uma mesa de salada de frutas, fruta laminada e doces.
A mesa já está reservada para toda a temporada e a bebida escolhida é água lisa. Da dupla dos ingleses, nem vê-los. O jantar decorreu com normalidade, mas as notícias da BBC voltaram ao tema do grande assalto em Inglaterra. Pararam para dar mais atenção  à cobertura do assunto. Ficaram a saber que a lavandaria mais próxima do Banco de Inglaterra havia sido assaltada por uma quadrilha bem sucedida. As pistas ainda eram muito reduzidas, dado que as câmaras instaladas no interior da loja recolheram imagens de fraca qualidade. No entanto as câmaras colocadas na via pública permitiram perceber que se tratava de um grupo de quatro elementos que desaparecera sem deixar qualquer rasto. As notícias prosseguiram com o referendo do BREXIT no próximo dia 23.
Lory e Martin, sentados na mesa ao lado, olhavam estupefactos para a TV, reagindo à notícia do assalto.
- Que se passa em Londres, querido?
- Não sei, mas algo de grave aconteceu, para toda esta cobertura mediática, respondeu Martin.
No dia seguinte, encaminharam-se para a clubhouse. Desta vez decidiram aceder à sala pela entrada principal. Após cruzar a porta, avista-se um corredor comprido que passa pelo salão principal e deixa ver um cenário magnífico lá para fora com árvores e o campo de golfe, como se de um cenário de cinema se tratasse.
Passaram pela loja do clube e dirigiram-se ao salão principal, passando por um corredor, onde na parede esquerda estão afixados os melhores jogadores no quadro de honra. A dupla dos ingleses obscuros, Tom e Smith, estava a terminar o prato de bacon frito, com tomate assado, ovos mexidos e feijões. Rapidamente se precipitaram para o exterior, onde tinham deixado os seus sacos de golfe, novinhos em folha.

Depois de consultarem os seus telemóveis, tomaram posição no ponto de partida para iniciar mais um circuito. De repente surgem dois agentes da policia devidamente fardados e identificados na varanda da clubhouse como se estivessem à procura de alguém. Por coincidência, Tom e Smith haviam desaparecido. Não era possível que já tivessem percorrido aquela parte do circuito até que deixassem de ser avistados. Os agentes permaneceram mais uns minutos no local e depois abandonaram o aldeamento. A maioria das pessoas foi alheia aquela visita inesperada, mas Tigas ficou curioso por aquelas estranhas movimentações. Decidiu deslocar-se até ao Driving Range e depressa avistou a dupla de ingleses. Desta vez com chapéus quase a cobrir o rosto e óculos de sol que até então não tinham usado. Ensaiavam saídas, como se estivessem a aperfeiçoar a posição dos pés e o swing. O telemóvel tocou e Smith atendeu.
- Sim? Sou eu. Estiveram cá, mas foram embora, respondeu Smith.
O tempo começou a piorar, as nuvens a engrossar e caíram alguns pingos de água. As pessoas desapareceram num ápice. Tom e Smith ficaram num dos abrigos do Driving Range à espera que o tempo melhorasse.
- O que vamos fazer a seguir? perguntou Tom.
- Vamos aguardar.
- Aguardar até quando?
- Até que a coisa arrefeça.
- Isso vai ser quando?
- Nunca se sabe.
- E se não arrefecer nunca?
- Vamos ate ao Brasil dançar samba e beber caipirinhas.
- Vá lá. Não brinques, pediu Tom.
- Já parou de chover. Vamos desaparecer.
De repente desenhou-se no céu ainda cinzento o arco-íris completo. Estavam lá as sete cores bem vivas. Dizem que na extremidade do arco-íris está um pote de ouro. Pois bem essa fortuna aponta para o mar.
Atravessavam em direção ao mar, todo o aldeamento, em telha mourisca ou de canudo, são telhas que é como quem diz em forma de meia cana, ligeiramente cónicas. Este tipo de telhas foi utilizado em quase todos os telhados algarvios, mas ainda se podem ver em aldeamentos turísticos mais típicos ou casas particulares.


Do outro lado do apartamento, está o pequeno Manuel, um bebé de dois anos que ainda agora está a dar os primeiros passos pela relva fora. De saco na mão, com um ou dois brinquedos, aventura-se pelo relvado ainda húmido, em direção à piscina. Laurinha, a sua tia, acompanha os passinhos do Manelinho. Rosa, mãe de Manuel, está a estender a roupa do bebé, enquanto olha pontualmente para o seu filho distraído com o mundo que o rodeia. Teresa, a avó, está sentada numa espreguiçadeira a ler um livro. Pontualmente levanta-se para ajudar a filha no que for necessário. Do regresso do seu curto passeio, Manuel aproxima-se do nosso apartamento, como que para cumprimentar os presentes. Esboça um olá, dá um sorriso e fica à espera de ser retribuído. Laurinha, a tia, pega delicadamente na sua mão minúscula e pede a Manuel para se despedir, para de seguida se dirigirem ao apartamento do lado. Mas Manuel insiste em partilhar o brinquedo com os vizinhos, na tentativa de fazer amigos.
- Queres brincar comigo? pergunta Manuel.
- Deixa em paz os senhores, pediu a tia Laurinha.
- Tenho uma bola para brincar, insiste.
Laurinha, cabelo comprido, na casa dos trinta, firmemente, pega na mão de Manuel e conduz até à entrada do lado.

O estendal da roupa do bebé fazia quase uma barreira à passagem, obrigando Manuel a circular por baixo da roupa e Laurinha a contornar o obstáculo. Laurinha, de cabelo comprido, formas generosas, mas sem exageros, estava ali para tirar uns dias de férias na companhia de sua mãe, da irmã e do pequeno Manuel. O sol estava a despontar ao final da tarde, após um período de nevoeiro. Do outro lado, Martin arranjava a mesa para mais um jantar romântico com Lory, que estava na cozinha a preparar o frango assado com piripiri que tinham comprado no supermercado, um pacote de batatas fritas e uma garrafa de vinho tinto do Alentejo de forte exuberância aromática. As bases estavam a postos para receber os pratos já com as porções distribuídas e um pouco de molho picante por cima. A acompanhar, estão as batatas fritas às rodelas finas.
- Já acendeste as velas, querido?
- Já vou acender, meu amor.

A luz do dia começou a desaparecer lentamente. Martin colocou uma música suave em tom baixo, apenas para criar uma atmosfera de romance.
Na manhã seguinte, fizeram a caminhada matinal até à clubhouse. Durante o caminho, Tigas brincava com uma moeda nas mãos. Rodava a moeda no ar apenas com um toque do polegar e apanhava-a com a mão esquerda. Tudo isto sempre em andamento. Depois de escolherem um lugar no alpendre em madeira virado para o início do circuito de golfe, rodopiou a moeda em cima da mesa mais uma vez e esta numa dança frenética rodou, rodou até cair no chão e escolher uma frincha nas tábuas corridas da madeira para se escapulir sem nunca mais voltar a ser vista. Ficou muito desiludido mas nem por isso serviu de lição. Foi lavar as mãos e encaminhou-se para ir buscar uma tigela de leite com cereais de chocolate.

- Pai, não sei como é que consegues comer isso ao pequeno-almoço, pergunta ela com um ar enjoado.
- Sabe-me bem, mas só por aqui, durante as férias. Esta é a refeição da manhã dos ingleses.
Serviu-se de um prato com ovos mexidos e feijões. Dispensou o bacon frito. Acompanhou com um fatia de pão escuro com sementes. Os passaritos vinham à mesa debicar as migalhas. De súbito surgem Tom e Smith com os panamás a fazer sombra no rosto e óculos de sol. Tigas ficou de olho neles. Analisou o seu comportamento e na verdade eram bem diferente dos outros jogadores. Mas havia mais olhos a observar Tom e Smith. Numa das mesas do outro lado da varanda em madeira, estava um casal mais interessado nos passos daquela dupla de ingleses do que propriamente no seu pequeno almoço. Mais tarde chegaram Lory e Martin com um ar apaixonado e para quem a noite foi curta. Serviram-se de um sumo de laranja e um prato com um ovo cozido, bacon frito e feijões.
Do outro lado chegavam o Manuel, Laurinha, Rosa e a sua avo. Sentaram Manuel numa cadeirinha que se fixa à mesa e puseram a papa à sua frente. De imediato, colher a colher, a papa foi entrando na boca, que distraído com os pássaros que pousavam na mesa, ia comendo sem qualquer tipo de resistência.
- Achas que são eles? perguntou a mulher sentada na ponta da varanda.
- Não sei. Temos que ter a certeza.
- Os dados fornecidos pela Interpol, coincidem na sua maioria.
- Só não coincidem nos cabelos compridos e no ligeiro coxear relatado, diz o homem.
- Provavelmente cortaram o cabelo.
- E o coxear de um deles?
- Não te esqueças que são quatro e aqui estão apenas dois, afirma a mulher.
Tom e Smith ensaiavam o swing para dar as primeiras tacadas, sem se aperceberem que estão a ser observados. Tigas levantou-se para ir buscar mais um pouco de cereais de chocolate com leite, olhando uma última vez para aqueles ingleses, antes de entrar no salão.
- Vamos deixá-los por agora, diz o homem.
- Combinado. Mas vamos manter debaixo de olho.
Terminado o pequeno almoço, Lory e Martin foram dar um passeio de barco pelas mais belas praias portuguesas.
Tigas e sua irmã foram até à praia Maria Luísa, cada um com a sua prancha  de  bodyboard para aproveitar as ondas fortes.


No final da manhã chegou um casal francês com gémeos que devem ter seis anos. Foram alojados no apartamento de cima, com uma bela varanda branca decorada por buganvílias e uma açoteia, um terraço que também serve de telhado, onde antigamente se secavam os figos, e as amêndoas, mas também servem para apanhar o fresco nas noites quentes de Verão.
O pai dos gémeos é albino tal como se tivesse uma boa camada de pó de talco por cima da pele. O cabelo, as sobrancelhas e as pestanas são absolutamente brancas. Em alguns países, sobretudo de África, um albino é visto como um talismã. Pode trazer boa sorte para a aldeia. O problema de Pierre, talvez associado ao albinismo é que não via bem. Nem ao longe nem ao perto. Assim, encontrava-se impossibilitado de conduzir bem como para ajudar nas tarefas domésticas, o que causava sempre grandes dificuldades. Por vezes socorre-se de uma lupa.


Hoje, quinta-feira pelo final da tarde, dois casais de ingleses de meia idade marcaram jantar no terraço do apartamento, também virado para a piscina, mas na zona sul. Música um pouco alta, uns copos de vinho branco, com coloração profunda de dourado-âmbar, arroz de marisco para todos e uma espécie de karaoke improvisado, mas sem ser necessário levantarem-se da mesa. A batucada embalada pelo vento mais parecia um ritmo africano, pois a melodia das músicas era imperceptível.
- Uma vez, estava tão zonzo de tanto beber que não conseguia encontrar o caminho de volta. Não te lembras Jake?
- Não, responde intrigado.
- A piada é essa mesmo. Não te lembras Jake? e soltou uma gargalhada.
A música continua a correr alto.
- No ano passado descobrimos um lugar aqui no Algarve para comer fish and chips, disse Alicia.
- Vocês repararam nas noticias? perguntou Stanley, que até agora se manteve calado.
- Que notícias?
- O assalto à lavandaria em Londres. Levaram cinco milhões de libras.
- Assaltaram uma lavandaria e levaram essa quantidade de dinheiro? perguntou Marge.
- Sim. Não se sabe ao certo o que estava a fazer todo esse dinheiro na loja.
- E já se sabe quem assaltou a lavandaria?
- Apenas que foram quatro indivíduos encapuzados, conforme o registo das câmaras de vigilância.
A noite desceu por completo e o silêncio regressou ao aldeamento. Dois vultos deambularam pelo aldeamento e os seguranças rapidamente detectaram esses movimentos anormais.

- Boa noite. Podemos ajudar?
- Sorry. We are lost. But right now we go to Albufeira. Thank you.
Os seguranças acompanharam os dois homens até a saída do aldeamento e prosseguiram a ronda.
- Reparaste naqueles indivíduos? perguntou o segurança Filipe.
- Sim. Pareciam desorientados, respondeu Artur.
- Ainda bem que já partiram.
A noite decorreu sem mais novidades.
Na manhã seguinte, Tom e Smith afinavam o seu swing no ponto de saída do circuito. Apresentavam algum sinal de cansaço e desconcentração. Nem os swings nem as tacadas pareciam correr bem.
Shelby foi buscar o seu pequeno almoço. Cereais de chocolate com leite e duas fatias de pão de cereais cobertos de compota de morango. Para satisfazer a gula, trouxe ainda uma pequena taça com uma colher extra de compota de morango.
Fifin, corpo de boneca, cabelos dourados como o trigo e olhos de um azul-mar, já  tinha comido e apenas rondava a mesa para fazer companhia às primas. Mary, de copo de sumo de laranja na mão, exclamou:
- Tanta compota, Shelby?
Tinha acabado de reforçar a compota de morango no pão. Mary, saboreava pão branco com manteiga e ainda tem os cereais com leite para comer.


Entretanto Tigas e Mary foram molhar os pés à piscina da baleia com o Muno e o Xiel. De princípio a água estava fria, mas com a brincadeira, a água parecia mais agradável. Bola pelo ar até cair na água provocando salpicos para todos. Depois a boia em formato de pneu gigante, servia de apoio para todas as crianças. O Xiel enterrava-se no meio do pneu e a Mary rodava-a alegremente como se de um carrossel se tratasse. Shelby afundava-a na piscina. Depois chegou Fifin, que roubou a bola e atirou-a para o meio da piscina.
- Agora vai lá busca-la, respondeu Fifin.

Muno tem pinta de actor de cinema, apesar dos seus nove anos de idade. Alto, simpático, sensível, curioso, mas também se mostra  apreensivo com o desconhecido.
Xiel, de sorriso aberto, olhos vivos e pele morena, tão morena que depois de aplicado o protetor solar, passa a tons de cinza. Meiguinho que dá vontade de o abraçar e encher de beijos.
A brincadeira continuou na água. As crianças corriam pela relva, rodeada de casas brancas proporcionando um ambiente de tranquilidade.
Ora jogavam com raquetas e bola ora davam um mergulho na piscina. Shelby já lá estava. Doze anos de rapariga forte, cabelo comprido e cara redonda, ainda de criança. Gosta de andar à volta dos primos o tempo todo.
Tigas faz um assalto ao frigorífico, no apartamento, e limpou de uma vez só todo o queijo parmesão.
No apartamento vizinho, Martin e Lory haviam terminado o seu jantar.
- Não devia ter comido esta sobremesa, queixa-se Lory.
- Ora deixa estar, afinal estamos em lua-de-mel, respondeu Martin.
- Eu vou começar a ir ao ginásio, já a partir de hoje, sentenciou.
- Quando as coisas não correm bem, é mais importante perceber o que se pode  evitar no futuro, insiste Martin.
- De acordo, confessa Lory.
- Ao dizeres que “não devias” estás a assumir que fizeste algo de errado ou que podias ter feito melhor. Esquece rapidamente os teus erros e segue em frente. Não atribuas as culpas a alguém. O erro foi teu e há que assumir.
- Muito bem.
- Vive de acordo com as tuas expectativas e não as de outra pessoa.
- Eu faço muitas vezes autocrítica mas também sei que é importante poder ouvir-me. A minha vida vai melhorar daqui para a frente.

Entretanto, no apartamento dos dois casais ingleses, decorre o jantar acompanhado de vinho tinto do Dão, com um aroma com impacto, bom fruto, tostados e minerais. Salsichas assadas com batata frita, como prato principal.
- Antes de virmos para o Algarve, houve quatro senhoras que foram mordidas ao tentarem separar três cães, um deles um pit bull, envolvidos numa luta, diz Jake.
- A sério? Pergunta Stanley.
- Quando as senhoras viram os cães envolvidos naquela cena, tentaram por fim à briga, simplesmente metendo-se entre eles, mas acabaram por ter que receber tratamentos no hospital.
- Os meus dois cães também se envolvem em lutas de vez em quando. A forma mais fácil de os separar é atirar com um balde de água. A briga termina de imediato. Mesmo que seja dentro de casa, pois é preferível enxugar água que limpar sangue.
- Ou então tentamos separá-los isolando-os com uma toalha e se não resultar então eu e o Jake puxamos suavemente pelas patas traseiras de cada um deles para os separar por completo. Depois fechamos um deles num quarto, até que a crise passe, responde Alicia.
- E atenção que quando um cão abana a cauda não quer dizer que esteja contente, afirma Stanley.
- Então? pergunta Alicia.
- Serve sobretudo para comunicar com outros cães e humanos. O cão não abana a cauda para as paredes, argumenta Stanley.
- Nunca tinha pensado nisso, diz Jake, coçando a cabeça.
- Se o cão tiver a cauda levantada e hirta, pode significar que está a marcar o seu território. Mas se a cauda estiver a meio e a abanar a meio ritmo, pode significar: “Então?  Está tudo bem?” exemplifica Stanley.
Por vezes também aquelas cornetas de ar comprimido que se costumam ouvir no futebol fazem com que os bichos se acalmem. O problema é que a buzina nem sempre está à mão.
Naquela noite levantou uma brisa forte fazendo agitar a água da piscina ao ritmo das ondas do mar.
O barulho das folhas das árvores acompanhavam numa sintonia perfeita tendo o vento como maestro.

Na manhã seguinte, Tom e Smith não foram avistados no ponto de partida do circuito de golfe, como habitualmente. Bastava ter entrado pela porta principal para perceber que tinham decidido por um jogo de petanca no bowling green, em mais um momento de puro divertimento, ao ar livre. No mini court logo ali ao lado decorria uma aula de golfe para crianças, sob a orientação do professor David, um inglês de Cambridge que se apaixonou pelo Algarve.


Naquela manhã chegaram os jornais semanários ao clubhouse. E quase todos eles falavam do assalto à lavandaria em Londres. Uns diziam tratar-se de uma lavandaria explorada por emigrantes, outros falavam em lavagem de dinheiro. Estava confirmado o desvio do dinheiro por quatro indivíduos, bem como foi emitido mandato de busca pela Interpol pois havia a suspeita de terem abandonado o país, embora fosse pouco provável a saída do espaço Schengen. Tom e Smith continuavam o seu jogo de petanca, despreocupadamente, sem terem visto as notícias do dia.
De súbito, toca o telemóvel de Tom. Agarra no telemóvel e consulta o ecrã. A chamada provinha de um número não identificado.
- Yes?
- As coisas estão a aquecer por aqui, ouviu-se uma voz grave e arrastada.
- Continuamos por cá, respondeu Tom, mas não temos mais novidades.
- Mantenham-se contactáveis nas próximas horas, diz a voz.
- Combinado. E desliga.
Os agentes à paisana observavam os passos destes dois ingleses, a partir da varanda do clube, apesar de se situar no extremo oposto à entrada principal. Ainda não tinha sido possível descobrir se estavam alojados no aldeamento dos setecentos apartamentos. Para já não receberam instruções para intervir e interrogar os dois suspeitos. Tinham que aguardar pacientemente ainda que corram o risco de espantar a caça.
No dia seguinte de manhã cedo, ainda deitados, ouvem suspiros de amor no apartamento ao lado.
Ela:
- Ai
Ele:
- Ai
Ao ritmo do marulhar das folhas das árvores, seguem os gritos tímidos de prazer. São portugueses de certeza. Nota-se pela pronúncia. E de repente todo o Universo se renova num espasmo prolongado de amor.
Entretanto naquele aldeamento antigo, de baixa densidade, apesar de 600 apartamentos, era fácil localizar todos os movimentos dos seus habitantes temporários.


De súbito, dois agentes da polícia, interceptaram Tom e Smith que se preparavam para mais um jogo de golfe.
- Bom dia, disse um dos agentes.
- Yes?
- Podem acompanhar-nos?
- What for?
- Para um inquérito.
- Ok
Já num espaço reservado, Tom e Smith foram interrogados sobre um assalto em Londres.
- Não sei de nada, responderam.
- Temos escutas telefónicas e registos das vossas mensagens.
Ficaram lívidos. Os agentes mostraram o mandado de busca, tendo informado que revistaram o apartamento onde se encontravam alojados. Descobriram provas do assalto, incluindo muitas libras esterlinas.
- Queremos saber onde estão os outros dois envolvidos, pediram os agentes.
- Não sabemos.
- Não sabem?
- Sim, tomaram outro avião. Estamos à espera que cheguem ao Algarve.

Os agentes da polícia algemaram Tom e Smith. Mais tarde soube-se que os outros dois elementos da quadrilha foram interceptados à saída do país e foram de imediato detidos, porque haviam sido reconhecidos, no âmbito de uma operação contra o branqueamento de capitais e financiamento ao terrorismo. Tom e Smith foram extraditados, passado quinze dias, a pedido de Londres.

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