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quinta-feira, 23 de junho de 2016

tinta permanente - João Pires - "Noite de São João do Porto"

Para a noite de 23 de junho, a cidade do Porto prepara-se com vários dias de antecedência. Para além de longa, até aos primeiros raios de sol, a agitação mantém-se mais ou menos constante. As sardinhadas no meio da rua, os enfeites em papel enchem de cor as varandas e ligam pelo ar os vizinhos, as cascatas construídas nas ruas, com o musgo fresco a enfeitar e a largada de garridos balões de papel dão o mote para a festa. Os martelos de São João marcam presença assídua desde a década de sessenta. Além de espalharem cor, fazem um barulho permanente nas ruas do Porto.
As crianças e os turistas sentem-se especiais ao dar uma martelada na cabeça de estranhos, produzindo um som curto de apito das quatro linhas.


tinta permanente - João Pires - "Noite de São João do Porto"
tinta permanente - João Pires - "Noite de São João do Porto"


Ao final do dia, as pessoas apressam-se para regressar a casa e se recomporem para a noite longa. Quem vive no centro da cidade, já esta preparado para a maratona, sem tempo para respirar.


Os pontos de venda das ervas-de-cheiro como a cidreira ou o limonete, alho-porro, um símbolo fálico da fertilidade masculina, martelos de São João e bebidas frescas frente à Estação de São Bento, Rotunda da Boavista, Ribeira ou outros tantos locais situados em zonas estratégicas são ocupados com vários dias antes com vista a garantir o sucesso do negócio. Os vasos de manjericos com versos populares estão espalhados pela cidade.


Inês e Henrique desceram a Ribeira, naquele final de tarde, para petiscar umas sardinhas assadas em cima de fatia da broa de Avintes, caldo verde com rodela de chouriço e vinho verde tinto servido em malga branca. A cidade começa a ficar agitada à medida que o sol desaparece do céu.


Já no muro dos bacalhoeiros e enquanto esperavam pela sua vez de sentar numa mesa minúscula encostada ao muro que sustenta aquele passeio, os foliões apreciam o momento. De um lado o crepitar do carvão onde são assadas sardinhas e pimento verde.


Mais longe, podem observar o Rio Douro, que se mostra calmo e mais distante ainda, na outra margem também já se adivinha muita movimentação. O teleférico mais acima, continua no seu ritmo pachorrento, transportando passageiros. Uma cabine em cada cinco há-de transportar turistas, talvez.
Os edifícios das caves de vinho do Porto começam a ficar iluminados. A ponte Luís I também já está engalanada. 
- O que são aquelas pequenas barcaças no meio do rio?, perguntou Inês
- Suponho que seja para o fogo-de-artifício, responde Henrique.
O tempo está quente, sem nuvens e de um azul forte espalhado pelo céu, a condizer com o vestido de Inês. Trazia um perfume floral intenso que se espalhava à sua volta, sempre que fazia um movimento. cabelo comprido, pele branca, lisa, olhos suaves, redondos, lábios carnudos e voz aguda, quase a arranhar o ar.
Henrique pega na mão de Inês e admira-a. Faz-lhe uma carícia com os dedos na maçã do rosto. Inês fecha os olhos para interiorizar aquele momento.
Desperta com uma martelada na cabeça, aplicada por um miúdo de cinco ou seis anos, que subiu a um banco para concretizar o seu objectivo.
Henrique que tinha observado o miúdo a trepar para o banco não tinha conseguido adivinhar o seu intento até que viu o martelo assentar na cabeça de Inês com grande estrondo, pelo menos no interior da cabeça de Inês.
Deu um salto de espanto, causando ela mesmo um pequeno susto ao miúdo que tentava surpreendê-la.
O ritmo das marteladas fazia-se ouvir por todo o lado e parecia aumentar de intensidade à medida que a noite crescia.


Mais à frente no Largo do Terreiro estava um grupo reunido de cócoras. Quando se aproximaram, descobriram que estavam a esticar muito bem o papel de um balão de São João para depois o poderem lançar. Bastava apreciar a dedicação com que alisavam o papel de seda para se adivinhar a vontade em elevar aquele balão até aos céus. Henrique envolveu Inês abraçando-a por trás enquanto apreciavam a delicada empresa em fazer subir aquele balão apenas com ar quente.


Henrique, mais alto um palmo e meio, de cabelo liso e preto, segura Inês com as suas mãos grandes e fortes. Pele morena e tronco magro, conseguia envolver Inês de forma apaixonada.


Aquela noite não tinha relógio. Estavam ali para saborear a festa do São João do Porto. Uma festa popular que para além de celebrar o nascimento de São João Batista, já foi uma festa pagã e celebrava o solstício de Junho. Celebrava-se a fertilidade associada à alegria das colheitas e da abundância.


Os saltos por cima da fogueira ainda acontecem, sobretudo nos bairros mais antigos.
Vários arraiais populares por toda a cidade do Porto especialmente nos bairros das Fontainhas, Miragaia, Massarelos. Nos arraiais, normalmente, existem concertos com diversos cantores populares acompanhados, quase sempre, por comida, em especial, as sardinhas assadas, o cabrito assado e também grelhados de carnes. A festa dura até às quatro ou cinco horas da madrugada, quando a maior parte das pessoas regressa a casa, tal como as Rusgas de São João.

Os mais resistentes, normalmente os mais jovens, percorrem toda a marginal desde a Ribeira até à Foz do Douro onde terminam a noite na praia, aguardando pelo nascer do sol.


tinta permanente João Pires

quinta-feira, 9 de junho de 2016

tinta permanente - João Pires - "EURO 2016 - Quem vê futebol"

Em pé, mão direita ao peito, cachecol ao pescoço, cara levantada, gel no cabelo, peito e goelas abertas prontas para entoar o hino de Portugal. A completar calças jeans, camiseta vermelha com verde à volta do pescoço, sapatilha de pano colorida e sola de borracha branca. Assim estão o João, o Joaquim e o Paulo frente a TV de ultima geração, tecnologia 4K, com o som do estádio a invadir toda a casa. O tapete da sala foi substituído por relvado sintético, para causar a vibração de estar dentro dos quatro cantos.


Quando Portugal joga, as cores dos clubes do João, do Joaquim e do Paulo ficam cada uma em sua casa. O azul, o verde e o vermelho isoladamente não jogam. Está na hora de trazer o vermelho em conjunto com o verde para cima da camisola. É Portugal que vai jogar e nada mais interessa. Tremoços e minis em cima da pequena mesa de apoio. A bandeira nacional está pendurada à janela exatamente como o presidente da república pediu. Os amigos já estão reunidos lá em casa e começam a cantar o hino acompanhando assim a emissão pela TV. O sistema de som surround 2.1 com uma potência de 300W ajuda a simular o som do Estádio de Futebol. Ligado por bluetooth para evitar tropeções em cima de fios traiçoeiros, principalmente depois de nove ou dez minis. Parece que os jogadores estão mesmo naquela sala e os adeptos sentados ao meu lado.


Desta vez estou com Portugal para viver todas as emoções de perto e ao vivo, que é como quem diz, pela TV de alta definição.
No entanto se Portugal chegar até à final, então vou comprar os bilhetes de avião e para o jogo e voar até Saint-Denis no próximo dia 10 de Julho. João pergunta aos seus amigos se se lembram qual foi a primeira edição do Campeonato Europeu de Futebol.
- Foi em Inglaterra nos anos setenta, arrisca Joaquim.
- Não. Foi em França em 1960 e teve e União Soviética como primeira vencedora.
- Duvido, questiona Paulo. Ainda não éramos nascidos.
As equipas entram em campo e o clima de tensão aumenta. Cumprimentam o árbitro e depois os respectivos capitães de equipa aproximam-se do árbitro para decidir o lado a ocupar. Moeda ao ar. Portugal joga do lado direito na primeira parte. Mais dois tremoços e uma mini abaixo para acalmar os nervos. Paulo coloca o som mais alto. O apito do árbitro espalha-se por toda a sala.
Joana, Mafalda e Rute até agora na cozinha, entretidas a falar de futilidades, começaram a ficar fartas de estar por ali. Ainda por cima faltam, pelo menos noventa minutos, fora os descontos e desempate do jogo se tal vier a acontecer.
- Vamos jantar fora, atira Joana.
- Isso, vamos arejar. Estou farta de estar aqui presa, responde Mafalda.
- Boa. E se fossemos até um bar com música ao vivo, depois do jantar? pergunta a Rute.
Foram arranjar-se para sair. Entretanto os treinadores de bancada, lá embaixo, na sala, arriscavam palpites.
- Foge com a bola.
- Corre para a frente.
- Cuidado com o carrinho.
Desta vez o torneio vai ser disputado por 24 seleções, o que vai aumentar a competitividade mas também vai introduzir um maior grau de aleatoriedade nos resultados.
De repente, o super ecrã da TV mostra uma imagem potencialmente ameaçadora. O camisola número um está de costas do lado direito do ecrã, braço esquerdo esticado e luva bem aberta. Um pouco mais ao lado esquerdo, mas enquadrado no ecrã, está um jogador em perfeita suspensão, deitado sobre o seu lado direito, pronto para fazer um golo de bicicleta. A bola está perfeitamente ao centro do ecrã a espreitar as malhas da rede. Perna esquerda esticada prestes a tocar a bola e perna direita flectida. A sua mão direita quase que toca o relvado. Como eu gostaria de ver a cara do guarda-redes. Mas a avaliar pelo cabelo encrespado, pois a definição 4K e o sistema HDR permitem observar cada fio de cabelo, a sua expressão deve revelar alta concentração no esférico.
Chutou a bola em cheio e vem disparada a baliza de Portugal. João, Joaquim e Paulo tremem fruto do clima de grande tensão que se vive naquela fração de segundo. Logo de seguida, dois dedos da luva do guarda-redes tocam na bola com a força necessária para a desviar por cima da trave.


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tinta permanente - João Pires - "EURO 2016 - Quem vê futebol"


Suores frios atravessaram os rostos dos rapazes. Mais uma mini para acalmar. Os tremoços não passam pela garganta, devido ao sufoco do momento. Joana, Mafalda e Rute não se apercebendo do instante, chegaram logo depois para anunciar que iriam jantar fora, o que colheu o assentimento dos três com um simples abanar de cabeça.
As cores mais definidas e contrastes realistas continuam a trazer o relvado para dentro da sala.
O João chamou a Rute mas não obteve resposta. 
- Rute, chamou. Traz os salgadinhos amor, insistiu.
- Elas saíram, respondeu o Paulo.
- Saíram? Como? Não dei por nada.
- Pois não. Estamos tão concentradíssimos no relvado, que as nossas mulheres saíram e nem demos por ela.
João levantou-se e foi à cozinha buscar os rissois, pasteis de bacalhau e chamuças que a Rute havia comprado para esta ocasião. As batatas fritas e os tremoços estavam quase no fim à custa de um quase golo!
Ficou com uma estranha sensação de desconforto por não ter recebido qualquer resposta de Rute, mesmo sabendo que elas tinha saído para ir jantar fora.
Joaquim olhava para o telemóvel de vez em quando.
- Estás à espera de alguma chamada? perguntou o João, em tom de brincadeira.
- Não. Instalei uma app que me dá todas as estatísticas em tempo real do jogo e algumas curiosidades.
- Boa, assentiu o Paulo. Como se chama?
- Pé-na-bola, respondeu Joaquim
- Relata uma curiosidade dos Europeus, pediu Paulo.
- Em 1984, Portugal apurou-se pela primeira vez para um Campeonato Europeu. Além de alcançar as meias-finais, tem dois jogadores eleitos para a equipa ideal do torneio: João Pinto e Fernando Chalana.
- Ninguém fala das cotoveladas que o Jordão apanhou às escondidas das poucas câmaras de TV, queixou-se o João.
O jogo começava a aquecer, mesmo antes de a bola ter entrado nas malhas da baliza. Paulo foi buscar o mini barril de cerveja, pois o corre-corre para a cozinha para ir buscar mais uma mini, poderia ser um mau prenúncio. Há que dar apoio à equipa portuguesa em todos os segundos do jogo. Depois do barril instalado na mesa de apoio, toda a atenção se voltou para o ecrã.
O Euro 2016 marca a estreia de mais cinco seleções em Campeonatos Europeus de Futebol: Albânia, Islândia, Irlanda do Norte, Eslováquia e País de Gales.
Entretanto, a Joana, a Mafalda e a Rute apanharam pelo caminho a irmã mais velha da primeira.
- Entra no carro. Vamos para a festa, ordenou Joana.
- Olá a todas, respondeu Inês.
Rumaram ao restaurante passavam das 21,45m. Quando entraram, deparam-se com um ambiente de festa, com um público quase exclusivamente feminino. Nada de TVs com fundos verdes ou bolas a girar no ar. Apenas uma banda de música ao vivo e uns aperitivos servidos à entrada com a entrega em simultâneo de uma flor como prova de boas-vindas.
As mesas estavam decoradas com velas e flores como se de encontros românticos a dois se tratassem, mas o cenário era outro. Grupos de belas mulheres que estavam por ali para fugir ao futebol e para se divertirem um pouco.
- O jogo já começou há meia hora, anunciou Rute.
- Esquece o jogo, respondeu Inês. 
- Isso. Estamos aqui para nos divertirmos, assentiu Mafalda.
Depois de instaladas na mesa, olharam para a ementa. Não tinham grande apetite, pois já tinham petiscado em casa. Pediram um vinho branco João Pires bem fresquinho para iniciar.
A música tornou-se mais animada quase a convidar para dançar, mas o jantar ainda estava prestes a iniciar. Olharam em volta e o ambiente apesar de exclusivamente feminino, estava animado.


Lá por casa, o jogo mantinha os três ligados ao ecrã. E um pouco por todo o país, nas casas, nos cafés, nos telemóveis, nos tablets e ainda nos pequenos rádios de bolso, tudo serve para acompanhar o jogo de Portugal contra a Croácia. O trânsito reduz-se significativamente naqueles noventa minutos, mas também as entradas de urgência nos hospitais ou até no regresso a casa. Parece uma espécie de paragem temporária em toda a Europa. Muitas unhas roídas pelos nervos. Eles desligaram de tudo o que os rodeia habitualmente. Mesmo tudo. E fica sempre a esperança de festejar a vitória no final de cada jogo. De vitória em vitória até à conquista final. Está tudo em aberto. Para celebrar cada vitória com um sabor especial.
E a vitória final vai acontecer em Saint-Denis, Estádio de Franca, com lugar para 81.338 espectadores, sendo o quinto maior Estádio da Europa. Foi o palco da final do Mundial de 1988, onde a França se tornou campeã.
- Se Portugal for à final, eu vou lá estar, promete João
- Conta comigo, responde Joaquim
- E tu Paulo?
- Claro que sim, contem comigo. É uma oportunidade única.
De súbito surge um alerta na app pé-na-bola. Registaram-se 34 golos nos 15 jogos disputados no Euro de 1988. Todos os jogos tiveram golos. Com cinco, o holandês Marco van Basten sagrou-se o melhor marcador.
O jogo estava próximo do final do primeiro tempo e não havia forma de a bola entrar nas malhas do adversário. Geralmente nos primeiros minutos de jogo ou a sorte vem ter connosco de forma gratuita e o golo entra sem ninguém dar por ela, ou apenas serve para dar a conhecer as estratégias de cada equipa, havendo assim um processo de ajustamento até descobrir o calcanhar de aquiles do adversário.
Entramos no período dos descontos. Três minutos.
Tudo pode acontecer em quatro minutos. A 26 de junho de 1992, a Dinamarca protagonizou uma das maiores surpresas do futebol ao derrotar a Alemanha no final do Europeu, isto depois de nem sequer se ter qualificado para o torneio, pois substituiu a última hora a Jugoslávia, que entrou em guerra civil.
Portugal ainda não está entre os países que conquistaram o Campeonato Europeu. Até à data foram a Alemanha e Espanha, três vezes cada, Franca, duas vitórias, União Soviética, no primeiro campeonato, República Checa, Holanda, Dinamarca e Grécia.
No Euro 2004, disputado em Portugal, o jogo que arrancou o torneio foi também o que o fechou. Em ambos os casos, Portugal foi derrotado pela Grécia.
João tinha dado tudo por tudo para que este campeonato se desenrole a favor de Portugal. Tem mesmo fé que a nossa seleção siga em frente, no futebol. A um canto, está arrumada a mesa de Subbuteo, o clássico jogo de futebol de mesa, não para jogar, mas para desenvolver as táticas de jogo. Posicionamento dos jogadores, estratégias, trajetória da bola. Tudo foi pensado ao pormenor para cada jogo.
A esta altura os cabelos alinhados e com gel, perderam a sua postura, porque o jogo não estava a ter a evolução desejada. Mais uma coxinha de frango acompanhada de uma mini.
Paulo tem mais de cem histórias de futebol para contar. Desde os tempos que ia ao Estádio com o pai e os amigos dele, pelas experiências vividas e contadas na primeira pessoa, por jogadores, treinadores e árbitros, mas também por personalidades da sociedade portuguesa que se distinguiram nas mais diversas áreas, desde a música até à escrita.


Agora decidiu entrar no torneio de gaming FIFA 16. É mesmo a sério e João quer provar que é o melhor. Quando o jogo acabar vai ligar a XBOX para começar esse campeonato.
- É preciso encontrar no futebol o alento para que os portugueses voltem a sentir orgulho, diz Paulo durante o intervalo, enquanto mordisca uma chamuça.
- Como estarão as meninas? pergunta João.


A festa estava animada na mesa das quatro. Depois dos enroladinhos de meloa, presunto e mozarela, veio massa com cogumelos selvagens para a Rute, arroz de camarão para a Inês e empadas de peru com maçã e queijo da serra para as restantes. No final saborearam uma espetada de frutas da época com dois chocolates, cheesecake de mirtilos e torta de limão, coco e mascarpone para partilhar por todas.


Ainda não tinham terminado as sobremesas e ouve-se uma voz vinda do escuro.
- Olá meninas e senhoras. Para compensar esta noite de futebol, vimos apresentar um espetáculo de strip masculino.
Ouvem-se gritos de entusiasmo nas outras mesas. Paira um misto de surpresa e admiração no grupo da Rute. Baixam as luzes e principia a musica de Joe Cocker “You can leave your hat on”. Os focos concentram-se num lado da sala, até agora permanecido no escuro e começa a desenhar-se um homem bem esculpido e de pele morena, sentado de frente para o público feminino e apoiado nas costas da cadeira, chapéu de coco na cabeça, camisa branca e laço preto ao pescoço. Óculos em massa preta, mas sem lentes. Apenas para dar um ar intelectual.
- Este é o meu futebol, gritaram da mesa ao lado.
Arranca a camisa, ficando apenas o chapéu preto, o colarinho com o laço e os punhos da camisa, exibindo um tronco trabalhado no ginásio, bronzeado e pele brilhante. Curiosamente sem o registo de uma só tatuagem.
- Muito fraco a dançar, ouviu-se do outro lado.
O stripper foi até lá exibir o seu corpo bem desenhado, mais de perto e os comentários até melhoraram.
As meninas estavam divertidas com o espetáculo. Depois vem a música “No Ordinary Love” da Sade e o clima da sala vai ao rubro.

A noite está quente, o céu está limpo mas não há estrelas! Mas o jogo não está de feição para a Seleção das Cinco Quinas, nem com todos os autocolantes espalhados nos vidros traseiros dos carros de meio mundo, traz a força necessária para resgatar a glória. Teimava na indecisão. Passava dos oitenta e cinco minutos. O João já não tem unhas para roer. Os jogadores, apesar de cansados não desistiam e o público lá no estádio, sempre a puxar pelas Quinas.
As colunas de som estavam quase no máximo, o tempo estava a esgotar-se.
Faltam três minutos e já se preparam para os penaltis, quando a bola sai de Cristiano Ronaldo em direção à baliza da Croácia, encontrando uma barreira no guarda-redes mas Ricardo Quaresma vai ao ressalto da bola e empurra-a com a cabeça para dentro das malhas da baliza.
- Goolooo, ouviu-se por todo o lado. Naquele minuto foi transformado em herói nacional.
Do lado de cá da TV, pode ainda rever-se a jogada em replay, mostrando de costas o guardas-redes em posição de defesa, tentando adivinhar o percurso da bola. O movimento de cabeça foi mais ágil e conseguiu introduzir a bola na baliza sem que o guarda-redes tivesse a oportunidade de a desviar. Um golo de Ricardo Quaresma pôs um país inteiro a gritar por Portugal.
- Goooloooo, voltaram a gritar durante o replay, em jeito de comemoração.
O jogo terminou e a festa começou.
Pouco antes da meia noite, chegavam as meninas, divertidas, tal como se tivessem ido ao Estádio de Futebol assistir ao jogo.

Arrastaram a mesa e todos dançaram para comemorar a vitória das Quinas que permitiu a passagem aos quartos de final.



tinta permanente João Pires

quinta-feira, 2 de junho de 2016

tinta permanente - João Pires - “Botox e Cabelo”

Nas manhãs de Sábado, o Salão de Beleza “BOCA” da união das palavras botox e cabelo, está quase sempre cheio. Localizado numa das ruas mais internacionais de Lisboa, a rua do Benformoso, está ali para os lados do Martim Moniz. A Câmara já tomou posse administrativa de dois prédios na Mouraria, com vista à construção de uma mesquita. Esse local de culto dos seguidores da fé islâmica, vai sem plantado naquela zona, devido à presença de uma crescente comunidade muçulmana, em particular nas ruas do Benformoso e da Palma, em plena comunhão com católicos e hindus. 


tinta permanente - João Pires - “Botox e Cabelo”
tinta permanente - João Pires - “Botox e Cabelo”

Partilham a mesma rua principal numa harmonia singular. As diversidades culturais são gritantes, quase antagónicas e afinal convergem por ali diariamente. O aroma das especiarias das Índias conjugam nas zonas mais frescas com cheiro a terra molhada talvez de África. Os prédios antigos, a pedir reformas há muito, ajudam a criar um ambiente exótico oriundo do Bangladesh, Brasil, Índia, China, Sri Lanka e Paquistão, formando assim um pequeno mapa-mundo com grande riqueza cultural. Olhares que passeiam lentamente pela rua, deixando escapar momentos fugazes de felicidade no seu estado mais puro, enquanto trocam palavras de sonoridade calma em dialectos incompreendidos. Mais à frente funciona o bar do Sr José Moura, onde a principal atracção é o karaoke, mas só até à meia-noite, novas regras impostas pela Câmara Municipal. Vá lá, até às duas da manhã às Sextas e Sábados.

No início, o espaço do salão era exíguo e os cortes de cabelo eram sobretudo afro e rastas. Com o crescimento e maior procura da clientela, os gostos alargaram para outros mundos inexplorados da beleza feminina. Ah, e também masculina. Os cortes à escovinha com um topo de relvado castanho e umas iniciais desenhadas por cima das orelhas, também são procurados. Os rapazes enquanto esperam pelas artes mágicas do BOCA, dão um saltinho ao bar do Sr Moura que já tem parceria com o salão de beleza, para engolir umas minis, enquanto se faz tempo. 
- Próximo, ouve-se lá do interior do salão.
Entra um rapaz alto, magro, cabelo desgrenhado e quebradiço, em forma de rastas mal cuidadas, ainda com a mini na mão. Pede para tirar as dreadlocks, arriscando a ficar careca. 
- Não vai ser necessário rapar o cabelo, responde a moça encarregue da tarefa.
- Não? pergunta o rapaz, aliviando a expressão.

Na porta ao lado, para onde o salão cresceu e deslocou a clientela feminina, serve um mundo infinito de raças e culturas. 

Já no andar de cima e para onde o salão de beleza também se expandiu este ano, são feitos verdadeiros tratamentos de beleza ao rosto e corpo, como massagens, epilação, tratamentos corporais, e aplicação de botox no rosto, destinado a preenchimentos faciais e até algumas reconstruções e implantes mamários, verdadeiros actos médicos feitos por profissionais sem formação nem segurança.
A última vez que Lucília foi lá para pentear o cabelo, decidiu fazer um preenchimento ao lábios. Queria levantar a sua auto-estima. Precisava de se animar. Tinha sido vítima recente de maus tratos por parte do seu ex-namorado, tendo ficado com uma nódoa negra a meio do antebraço direito.

Mas ao fim de vinte minutos e algumas picadas de abelha, foi assim que sentiu a agulha entrar na pele, saiu de lá com dois verdadeiros gomos de laranja. Um por cima e outro por baixo da boca.
- Sossegue, isso passa, asseguraram. 
- De certeza ? perguntou assustada, enquanto se via ao espelho
- Claro que sim, responderam. Amanhã começa a diminuir o inchaço.
Domingo, Segunda, Terça-Feira e o inchaço aumentava e diminuía de forma inesperada. O lábio superior passou a gomo de tangerina e o lábio inferior mantinha o gomo de laranja, com um ligeiro desequilíbrio para um dos lados. Lu, como era tratada pelos amigos, já não sabia o que fazer.
- E agora? Para que fui fazer este tratamento? Alguém tem que assumir esta responsabilidade. 
No Sábado seguinte, dia de folga do seu trabalho de escriturária a tempo parcial, apenas para substituir uma colega que tinha sido mãe e depois de passar uma semana a ouvir cochichos nas suas costas acerca dos seus lábios sensuais, foi ao BOCA para resolver de uma vez por todas aquele problema. 
- Bom dia, tenho os lábios numa miséria. Quero que tirem esta porcaria dos meus lábios, disse desesperada.
- Olá. Não é possível.
- Porquê? perguntou assustada.
- Porque os seus lábios apresentam sinais de infecção. 
A Lu tinha passado a semana a desculpar-se perante as colegas do trabalho, dizendo que tinha uma infecção nos lábios e afinal acertou.
- Vai ter que ir ao hospital para confirmarem o diagnóstico e tomar antibiótico.
- Como? Venho ao salão de beleza e encaminham-me para o hospital?
- Algo não correu bem. Lamentamos.

Entretanto entravam e saíam clientes do salão com cortes de cabelo mais arrojados e cores da moda.
Os castanhos com reflexos intensos estão na moda nesta estação, respondia uma cabeleireira à jovem que pedia sugestões para alterar a cor do cabelo, enquanto espreitava disfarçadamente para os lábios de Lu.
Ela não se continha na dor e no arrependimento. Mas certamente que haverá uma solução. Tem fé para isso e muito mais. mesmo assim, sentou-se na cadeira do salão e pediu para pentear o cabelo. Veio um rapaz que ela não conhecia. Moreno, cabelo preto brilhante e liso. Cumprimentou-a com um leve toque no ombro ao qual reagiu. Este rapaz nunca havia passado por aqui, pensou.
- Bom dia. Pentear ou cortar? perguntou num tom de voz educado.
- Pentear, respondeu de forma mais agradada.
- Estou a ver umas pontas quebradas.
- Está bem, pode corrigir esses cabelos.
- Está um dia bonito, não? perguntou o rapaz para fazer conversa.
- Sim. Eu é que não me sinto bem.
- Porquê?
- Sinto os lábios inchados e algumas dores.
- Oh, não se nota, respondeu para agradar.

Lu, é uma rapariga na casa dos vinte e cinco, de estatura mediana e de proporções agradáveis aos olhos da maioria. Cabelos a afagar os ombros e olhos verde-azeitona em forma de amêndoa. Não acredito em cupidos, pensava, enquanto admirava uma foto, certamente do Bangladesh, com um elefante com as pesadas patas enfiadas na água e a tromba levantada aspergindo uns quinze litros de água para o ar. No seu pescoço transporta o guia e mais atrás, um casal de turistas cada um virado para o seu lado. As pequenas cadeiras feitas de bambu, estão assentes por cima do animal de cinco toneladas, num manto às faixas largas de vermelho, amarelo e verde, a lembrar a bandeira da Etiópia. Lá mais ao fundo vê-se uma montanha e em todo o redor uma vegetação de um verde luxuriante, completado por um dia de grandes raios de sol, transmitindo uma boa sensação de liberdade. Que vontade de estar ali, pensei eu, passando os dedos pelos cabelo.
- Vamos passar para aquela cadeira, para lavar o cabelo, pediu gentilmente.
Do outro lado do salão, surge a Índia, com a fotografia do mausoléu Taj Mahal, imponente construção em mármore branco. Mas depressa desceu à realidade com o incómodo dos lábios. Tinha que ir ao hospital o quanto antes para resolver aquele problema. Logo que o rapaz terminou a lavagem, secagem e o pequeno corte, despediu-se de Lu com uma pequena vénia e um sorriso tímido. Pagou e saiu. Subiu a rua, passou pela pintura mural na parede do lado esquerdo, sobressaindo o azul cobalto, na pequena reentrância onde estão fixas duas cadeiras de jardim. Cores desde o lilás, roxo, amarelo e vermelhos onde ilustram em versão moderna de formas arredondadas, gatos empoleirados em árvores, folhas grandes e embelezamento de janelas velhas que rasgam a parede. Mais acima e do lado direito, está um belo edifício do século XIX de fachada decorada com azulejos verde-musgo em relevo, com janelas de sacada, arco de volta perfeita e guardas em ferro.

Lu sentia-se agora mais segura e caminha pela rua de piso irregular tal qual gazela passeia pelo bosque. Lu, Lu, ouviu-se lá de cima. Olhou em volta e subiu o olhar até encontrar Rosa a sua amiga, que estava à janela, atirando-lhe um coração desenhado pelas suas mãos. Lu sorriu e seguiu confiante pela calçada acima. Tinha chegado a hora de cozinhar para o almoço e os cheiros misturavam-se no ar. O açafrão, o colorau, o anis e a canela. Este último traz recordações de infância. Arroz doce decorado com figuras geométricas em carreiros de canela. Também os cheiros a comida portuguesa se espalham rapidamente. O aroma da carne assada, dos bolinhos de bacalhau e até de vinho branco, percorrem a rua.

Ainda se encontravam furgões de transporte de mercadorias à porta de vários de negócios, talvez para descarregar mercadorias.

Um simpático bengali ofereceu-lhe uma rosa vermelha. Lu cheirou-a e sentiu o seu perfume invadir a alma. Sentia-se livre depois de terminar a relação com o seu namorado. Para ajudar, Lu começou a libertar-se com uma simples frase, um mantra que ela repetidamente disse para a si mesma: "Ele pode ser bom para outra pessoa, mas não para mim" Lu começou a visualizar uma máquina de demolição de edifícios enquanto repetia esta frase ou quando quando se lembrava dele.
Agora isso já pertence ao passado. Subiu até ao Miradouro da Senhora do Monte, apoiou as mãos na grade de ferro, inspirou fundo e libertou o ar lentamente enquanto admirava a cidade e uma parte do rio, com o céu preenchido com algumas nuvens altas. Sentiu uma enorme vontade de saltar e voar sobre a cidade, em busca da felicidade!

tinta permanente - João Pires - “Botox e Cabelo”


tinta permanente João Pires