Seguir por email

quinta-feira, 26 de maio de 2016

tinta permanente - João Pires - “O peso da determinação”

Em pequeno, Paulo era um menino gordinho, tão obeso que não cabia dentro do seu sonho. Ir para a pista de São Caetano e acelerar no karting do seu amigo. A comida falava mais alto. As batatas fritas, os hambúrgueres com carne picada, temperada com cebola, salsa e mostarda, tudo ligado com ovo, moldados em formato circular, toda aquela comida deliciosa e estaladiça que entra pelos olhos dentro desde os anúncios na TV, os cartazes na rua e, claro, os hábitos alimentares lá de casa. Se toda a turma vai comer um hambúrguer e beber um refrigerante, porque é que Paulo tem que ficar de fora? Assim foram 110 quilos difíceis de tratar. Depois, começou a perder massa muscular e aumentou a flacidez do corpo com a barriga a escorrer.
Assim não era nada fácil mudar de vida. Na turma, ficava sempre para trás nas aulas de educação física, principalmente nos exercícios e agilidade e velocidade. Procurava vingar-nos exercícios que exigiam mais força, ficava a suar que nem uma besta e a arfar como vento.


Paulo colocou a banda gástrica, fez um plano nutricional e começou a correr à beira-rio, conseguindo encaixar-se normalmente numa cadeira de cinema aos dezasseis anos. Até encontrou a miúda dos seus sonhos, talvez por que tivesse recuperado a sua auto-estima. Assim a falta de motivação que reinava lá em casa, encontrou-a em Florência, a professora de ginástica e sua namorada. Esbelta, com tom de pele moreno e corpo tonificado. Ajudou-o a recuperar a forma física, com motivação, um plano alimentar adequado e exercício físico.


Mas havia um sonho que continuava por concretizar. Entrar no desporto automóvel. Se os automóveis são aligeirados no seu peso por forma a se tornarem mais ágeis, velozes e competitivos, o peso de Paulo continuava a ser um obstáculo.
Tenho de ultrapassar de vez esta barreira, pensou. Mas como? Voltou à mesa das operações no Hospital de São João do Porto para colocar um bypass gástrico.


Hoje, com vinte e nove anos, Paulo está a concretizar o sonho da sua vida. É piloto profissional de ralis e está no palco mais fantástico do momento. O rali da Invicta, o Porto Street Stage. Devem estar lá fora cerca de cem mil pessoas a assistir, cogitou. E eu dentro deste carro para fazer a prova especial de classificação com quase dois quilómetros na minha cidade.
Paulo, com setenta quilos e um metro e setenta e cinco de altura, cabelo negro, pele clara, envergava o fato integral azul de competição, decorado com diversos e coloridos anúncios dos patrocinadores. Os sapatos de camurça castanha com emblemas azuis, completavam o equipamento.

2016_Porto-Street-Stage_tinta-permanente_desenho-aguarela_Joao-Pires_.jpg
tinta permanente - João Pires - “O peso da determinação”



Gente a assistir nas árvores, topo superior das paragens de autocarro e até quem tivesse trazido o escadote para não perder pitada, com a Câmara Municipal do Porto como pano de fundo.


Hoje, a partir das 19h, todos os segundos vão contar, meditou Paulo.
Mas ainda havia tempo para levar a passear no seu Mitsubishi Evolution a dona Sara, uma idosa de 83 anos, mas com todos os sentidos apurados, embora com a audição diminuída, que nunca havia entrado num automóvel, exceto daquela vez que foi conduzida na ambulância do INEM com máscara de oxigénio na cara até ao hospital com uma crise de falta e ar.
Mas hoje, a experiência é diferente e a velocidade ainda superior à da ambulância. Paulo vai levar a dona Sara a dar uma voltinha pelo circuito da Invicta, sonho proporcionado pela Realizar dos Sonhos. Depois de a irem buscar ao lar da terceira idade, Sara vinha toda aperaltada, com um chapéu cor de salmão com umas pequenas flores a enfeitar ao longo da aba.
Isto é tudo novidade para mim. Mas a cor viva dos carros, o barulho dos motores, a multidão de pessoas, até é bem curioso. Afinal o barulho dos motores não incomoda nada. Sara havia esquecido que tinha deixado o aparelho auditivo no Lar. Assim, o barulho dos motores soava baixinho como o miar dos gatinhos.
- Bom dia Sara. Como vai ? Perguntou alguém da organização.
Sara não ouviu. Cara com marcas do tempo, olhos pequeninos e estatura mediana. Cabelos brancos como a neve.
- Como vai? Repetiu Paulo em tom de voz elevado.
- Muito bem. Respondi de forma animada. Estou curiosa para entrar nesse caros cheio de cores.
- Vamos trocar o chapéu das flores por este capacete da moda, pediram.
Sara mostrou-se ansiosa. Vamos lá.
Paulo enfiou o capacete e colocou os óculos escuros. Realizei o meu sonho, mas na verdade também é bom ajudar a concretizar o sonho de Sara. Na verdade, faz-me sentir igualmente feliz.
- Sara, entra no carro, ordenou. Está na hora de levantares vôo. Respondeu divertidamente.
- Estou pronta, afirmou Sara.
O motor do Evolution começa a roncar e surge o cheiro a gasolina. Sara começa a sentir uma sensação estranha. Como quando viajou na ambulância com destino ao hospital. Uma espécie de frio na barriga, mas curiosamente parecia que desta vez, não tinha perdido a sua força. Pelo contrário havia um crescendo de adrenalina a circular, porque além do barulho, o funcionamento do motor a carburar a todo o gás, fazia-se sentir pelo corpo.
Mais duas bombadas no acelerador e Sara reage:
- Estou pronta, responde.
Paulo olha de soslaio pela última vez para o capacete de Sara que practicamente escondia o seu rosto. Um último teste ao cinto cruzado, batem as portas e Paulo fixa os olhos nos paralelos da rua que tem pela frente.
- Segura-te.
Acelera a fundo e o Mitsubishi dispara em frente. Lá para trás ficou um intenso cheiro a borracha queimada, enxofre e papel queimado.
Isto é melhor do que eu pensava. É uma sensação muito forte cá dentro. Não praticamente nada lá fora. Não consigo fixar um único prédio ou pessoa. A velocidade é de arrepiar. Mas o que é isso para a minha idade. Começou a sentir-se tonta, depois da segunda curva. Respirou a fundo, tal como lhe pediram na ambulância e a partir desse momento tudo ficou mais claro.
Paulo, concentrado nas ruas da Invicta, fez um passeio pelo circuito, aproveitando para testar a máquina que iria prestar mais uma prova depois das 19h.
No final do passeio e depois de abrirem a porta, encontraram uma Sara nova, com.os olhos marejados e emoção pura.
Sara agarrou Paulo e beijou-o na testa como se do seu neto se tratasse.
Paulo tirou o capacete e despediu-se daquela jovem senhora. Agora tinha que relaxar um pouco para enfrentar as duas classificativas do Rali de Portugal que tinha pela frente mais logo.
O entusiasmo e a alegria dos fãs do automobilismo começa a crescer, à medida que se começam a juntar espectadores não só da cidade, mas também oriundos de outros pontos do país, mas sobretudo os turistas que são apanhados de surpresa e se deixam encantar pela modalidade.
Haviam também quem não dispensasse o farnel composto por rissóis, panados, sandes de presunto em pão-carcaça, fatias de pizza, pastéis de Chaves ou até frango assado com arroz branco. As minis acompanham estes pequenos lanches, ora montados em cima de paragens de autocarros, ora distribuídos por passeios.
Quando chegou a sua vez e partir para a prova de quase dois quilómetros, um turbilhão de ideias invadiu o seu pensamento. A sua infância atribulada, as discriminações de que foi alvo, as batalhas que travou para perder peso e a concretização do sonho que sempre perseguiu. O desporto automóvel. E até a realização do sonho de Sara.
Mas esse tornado de pensamentos não durou mais que uns breves segundos. Agora tinha a classificativa da Porto Street Stage para cumprir. Andar a fundo mas com as devidas cautelas para evitar toques desnecessários, que pudessem comprometer a classificação geral.
Paulo durante a prova não conseguiu perceber que a Estação de São Bento estava a rebentar pelas costuras. Árvores e telhados também serviram para ver os carros a passar a toda a velocidade. A zona VIP esteve sempre com muita gente ao longo de toda a tarde. O horário de expediente foi encurtado para encher as varandas dos escritórios que tinham uma vista privilegiada para o circuito.

tinta permanente - João Pires - “O peso da determinação”


tinta permanente João Pires





quinta-feira, 19 de maio de 2016

tinta permanente - João Pires - "Pintar as cercas em madeira do jardim"

A Primavera tinha chegado. A casa estava a precisar de uma reforma. As cercas em madeira do jardim perderam o verniz ao longo dos anos. Alberto foi o responsável pela sua manutenção durante as últimas Primaveras. As crianças foram crescendo, mas a mais velha tinha apenas dez anos.
Helena não percebia nada de reformas. A última experiência aconteceu com a pintura do quarto do filho, que começou no tecto, passou pelas paredes e acabou no chão e nas portas. Enfim, uma desgraça.
Tiveram que chamar alguém para finalizar a obra.
Mas agora aquela tarefa estava entregue a si mesma. Como é que vou resolver este problema?, pensou.


tinta permanente João Pires Pintar as cercas em madeira do jardim
tinta permanente - João Pires - "Pintar as cercas em madeira do jardim"

Naquela Sexta-Feira, depois de levar as crianças à escola, passou pela loja de tintas da vila.
- Bom dia. Estamos na Primavera não é verdade?
- Sim. É verdade. Em que posso ajudar?
- Preciso de pintar as cercas em madeira do meu jardim.
- Temos tudo o que vai precisar, respondeu o empregado.
O empregado é um homem dos seus trinta, alto, bem constituído, cabelo negro, pele morena, um sorriso alvo. Demasiado à vontade para ser empregado.
- Com a chegada do bom tempo, quero aproveitar o ar livre e usufruir do espaço confortável na minha varanda e do meu jardim, confessou.
- Claro, respondeu, mostrando-se interessado em ajudar. Quer as cercas do seu jardim, bem como o mobiliário em madeira devem receber um tratamento especial para estar sempre no seu melhor.
Pois então, convém não deixar de seguir algumas dicas importantes para conseguir um ambiente agradável nos dias quentes em sua casa, respondeu o empregado, mostrando-se disponível em ajudar.
Helena, uma mulher na casa dos quarenta, sentia-se só. Tinha sido mãe pela primeira vez aos trinta. E tudo tinha passado muito rápido até chegar aquela fase de solidão.
Pele clara, cabelo comprido escuro, alguns sinais do tempo espalhados pelo rosto, mas mantinha uma silhueta pouco habitual na sua idade, capaz de fazer inveja a muitas mulheres.
- Primeiro vai ser necessário lixar as madeiras, em toda a superfície, para remover os restos de tinta. Mas lembre-se, declarou aquele simpático empregado, sempre no sentido dos veios da madeira. No caso de madeiras com vernizes ou esmaltes deve remover-se todo o revestimento lixagem e/ou decapagem.
- Decapagem? perguntou como que surpreendida.
- Bem, na verdade, o processo de decapagem, aplica-se aos metais ferrosos. Neste caso é mesmo um processo de lixagem, corrigiu o empregado.
- Nesse caso, sr…
- Tiago, ao seu dispor.
- Sr Tiago, vou levar em primeiro lugar as lixas e ver como vai decorrer o processo.
- Aqui tem, duas lixas para madeira nr 80 e duas lixas nr 220, para começar.
- Porquê a numeração diferente? Helena começava a achar que o melhor seria encomendar o trabalho a alguém, mas ainda assim estava determinada em tentar por sua conta.
Pagou, depois de perceber que as lixas com numeração diferente têm as suas próprias finalidades e recebeu em troca o saco com o material.
Saiu da loja, eram cerca das onze da manhã, o tempo primaveril ameaçava alguns chuviscos.
Ainda assim decidiu arriscar naquele mesmo dia. Chegou a casa, e decidiu experimentar desde logo as lixas na madeira. Começou por usar a lixa mais grossa que serve para descascar os restos de tinta que ainda perduram nas madeiras da cerca. Começou a soltar um pó fino dos restos de tinta e logo depressa descobriu que tinha pó no cabelo e na roupa.
Foi a casa trocar de roupa e enfiou uma touca de plástico no cabelo, daquelas que os hotéis costumam oferecer, e calçou umas luvas de plástico que se recolhem nos postos de abastecimento de combustíveis. Retomou a tarefa.
Já passava da uma da tarde. Decidiu fazer uma pausa para comer qualquer coisa. O céu continuava a ameaçar e de súbito começaram a cair uns pingos de chuva. Quando terminou a sua breve refeição, espreitou lá para fora e o céu estava a desanuviar.
Voltou à tarefa a que se tinha proposto. Começava a ficar cansada daqueles movimentos repetitivos. As dores surgiam nos músculos dos braços. O que seria de si sem os braços? Sem a capacidade de movimento e de força? Não seria capaz de executar tarefas tão básicas como comer e beber, pensou.
Noutros tempos, queixava-me por estar longas horas frente ao computador, nomeadamente com dores ao nível do pulso, pelo facto de manusear o rato.
Já passava das quatro. Foi tomar um duche para depois ir buscar as crianças à escola. Helena não trabalha. Havia decidido tomar conta das crianças a tempo inteiro, vivendo apenas da pensão de viuvez de Alberto. Mas começava a sentir necessidade de fazer algo de produtivo. Talvez por isso, tivesse decidido levar por diante aquela empresa. Talvez venha um dia a fazer algo mais, como escrever um livro de poesias.
O perfume das flores andava no ar. A cor azul próxima de um tom índigo, é oferecida pela flor Ásia Douro. A pacata vila junto ao Douro é um lugar bom para viver, com uma paisagem própria do Éden, a tranquilidade espalhada pelas águas calmas do rio em tons de verde azeitona e os santuários distribuídos pelos montes e vales. Havias as festas e romarias. Um piquenique com as crianças à beira-rio e algumas histórias engraçadas. Helena estudou História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, mas nunca deu aulas, pois havia decidido mudar-se com Alberto para aquele simpático lugarejo perto do Pinhão. Agora está entregue a si própria e tem as crianças para educar.
Na segunda-feira dirigiu-se novamente à loja de tintas, à espera de encontrar aquele simpático empregado. Tinha sido bem tratada por ele e isso criou alguma expectativa. 
- Bom dia, atirou para o balcão.
- Bom dia, respondeu um homem de baixa estatura e bigodinho.
- O Sr Tiago, o vosso empregado, está?
- Ele é o sócio desta empresa. Tiago Silva. Vou chamá-lo.
- Ahh, exclamou Helena.
De súbito, surge Tiago, de camisa branca, calças de ganga, pele morena e cabelo liso curto. Dirige um simpático sorriso a Helena e cumprimenta-a percorrendo o seu corpo com um olhar discreto.
- Bom dia. Como vai?
- Muito cansada. Passei o fim de semana sozinha a tratar das grades. Se ao menos tivesse alguém para me ajudar…
- O próximo passo, será aplicar uma demão de tratamento preventivo com xylophene. Terei muito gosto em mostrar como se aplica e até dar uma ajuda.
- O sorriso desenhou-se no rosto de Helena, com um ligeiro rubor nas faces.
- Amanhã por volta as dez passarei por sua casa para lhe mostrar como se aplica o produto.
- Combinado respondeu Helena, levantando os sacos com as latas de xylophene.
- Até amanhã.
No dia seguinte, por volta das dez, chegou uma carrinha cinza prata. Aproximou-se do portão principal num verde musgo desbotado, faltando pedaços de tinta, onde criara ferrugem. Apitou duas vezes.
Helena espreitou pela janela da sala. Logo de seguida veio até cá fora e acenou em sinal para entrar.
Cumprimentou-a fixando-a nos olhos. Helena tentou relaxar. Inalou o seu perfume a madeiras exóticas, sentindo-se inebriada, fixando-se por breves instantes nos seus lábios, desviando de seguido o olhar para as cercas em madeira.
- Estavam mesmo a precisar de uma pintura, disse.
- Sim, vamos lá dar uma ajuda.
- Obrigado, não sei como lhe agradecer.
- Com um café e uma boa conversa, fazendo novo contacto visual, com os olhos azuis de Helena, como se procurasse o seu assentimento.
Levaram as latas de xylophene para o exterior e Tiago perguntou pelos pincéis.
- Não comprei. E agora? perguntou com ar de aborrecida.
- Não se preocupe. Eu trago sempre um kit com amostras de pincéis.
- Já me salvou o dia, respondeu num tom amigável, tocando ao de leve no seu ombro.
Tiago aplicou o produto nas cercas em madeira, exemplificando com movimentos suaves e contínuos. Helena, observou a aplicação do produto, mas também apreciou os seus ombros largos, dando um sinal de força e masculinidade. As suas mãos grandes, grossas e limpas vão passeando pelas tábuas de madeira da cerca, enquanto aplicam o produto.
Depois de terminar a cerca, Helena perguntou se ele poderia aplicar o produto no móvel antigo em madeira.
Respondeu afirmativamente, embora sugerindo que ela deveria tentar passar o xylophene na madeira do móvel. Segurou-lhe suavemente na mão com o pincel, molhando na lata e espremendo ligeiramente contra o rebordo da lata, criando uma proximidade tal que sentia o perfume de citrinos que emanava do seu pescoço, sentindo-se tentado a encostar os lábios.
Helena estava a gostar daquela ajuda. Também sentia o seu peito firme encostar à sua pele.
Pousaram os materiais e olharam fixamente nos olhos, aproximando-se de uma forma quase magnética culminando num toque entre os seus lábios, mordiscando até acontecer o beijo, num acto de entrega e intimidade provocando um certo nervosismo em ambos. Helena sentiu as suas mãos fortes percorrer os seus cabelos, nuca, costas e cintura, descaindo até às coxas.
- Ficamos por aqui, respondeu de forma atrapalhada, sentindo ainda o sabor almiscarado do beijo.
- Até amanhã, respondeu. Qual vai ser a cor da tinta? Branco ou verde-musgo.
- Vou mudar para branco. Preciso de ir lá buscar as tintas?
- Não. Eu trago amanhã tudo o que é preciso.
Estava na hora de ir buscar as crianças. Enquanto conduzia, cantarolava uma canção de infância, sem saber porque é que se tinha lembrado naquele momento.
Estava ansiosa pela chegada do dia seguinte, como uma criança espera pelo dia 25 para abrir as prendas de Natal.
Passava das dez e meia e nada. Será que aconteceu algo? Será que ainda vem? pensou. Calma, estás a exagerar, denotando alguma ansiedade. Dá mais um tempo, falou com os seus botões.
Ao fundo da estrada ouve-se o barulho de um carro. Já está a chegar. Depois verificou que se tratava de um carro vermelho, tendo ficado desiludida. O carro parou junto ao portão e saiu um homem de fato macaco e de óculos escuros e boné.
- Bom dia, disse, acenando com a mão.
- Bom dia, respondeu ainda meio incrédula.
Era Tiago, que vinha equipado para pintar a cerca.
- Por uns momentos não te reconheci.
- Sou mesmo eu, respondeu com uma gargalhada, realçando o seu sentido de humor.
Tirou as latas de tinta branca para pintar as cercas do jardim que também pedia alguns cuidados.
- Preparada para começar?
- Um minuto. Vou vestir uma camisa velha.
- Queres ajuda?
- Não. Obrigada.
Em dois minutos desceu preparada para começar a tarefa. O dia estava solarengo, correndo uma ligeira brisa. Os trabalhos de pintura decorreram sem sobressaltos. No final a cerca ficou branca como a neve, melhorando todo o seu aspecto.
Helena convidou Tiago para tomar uma bebida fresco, que aceitou prontamente. Foram lavar as mãos, deslocaram-se à cozinha e sem dar tempo de abrir o frigorífico, Tiago rodou-a para si e segurou o seu rosto de modo a fixá-la com os seus olhos negros e grandes. Beijou-a longamente, numa manifestação de muito carinho e paixão, num abraço envolvente até à alma.
- Amanhã venho dar a segunda demão.
- O que é isso? perguntou ainda sem ar.
- Necessita de uma segunda camada de tinta a fim de tornar a pintura mais uniforme.
No dia seguinte, lá apareceu por volta das onze para terminar o trabalho em casa de Helena. Pintou com uma segunda demão as cercas e com alguma ajuda de Helena que ainda sentia os braços doridos. No final da pintura, perguntou-lhe, com um sorriso nos lábios:
- Queres água fresca?
- Sim, respondeu sem quebrar o contacto visual com Helena.

Subiram para se refrescarem. Ele abriu-lhe a porta para lhe dar passagem e no corredor, segurou-a por um braço e apertou contra si. Beijaram-se demoradamente, colados entre si como se estivessem na fábrica do amor.

tinta permanente - João Pires - "Pintar as cercas em madeira do jardim"


tinta permanente João Pires

quinta-feira, 12 de maio de 2016

tinta permanente - João Pires - "Fotografar as Estrelas"

tinta permanente - João Pires - 2016


“Fotografar as estrelas”


Humberto, na casa dos quarenta, de óculos de massa preta e lentes garrafais é um verdadeiro apaixonado por estrelas. Não, não são estrelas do cinema nem da música mas sim aquelas estrelas que estão  lá em cima e todas as noites fazem vigília. Por volta dos vinte teve outra paixão. A Julita, mas esta emigrou.
Foi trabalhar para a Suíça como criada de quarto num hotel de luxo. Lá pelo aniversário ou pelo Natal ou quando calha, recebe um postal, daqueles pré-preenchidos, pois escrever não é o seu forte e os erros de português abundam. Nada que incomode Humberto, pois o que lhe interessa é saber se ela está bem e admirar um pouco o postal por ela escolhido. No fim vem sempre a mesma assinatura em letra tremida, própria de quem não está habituada a escrever. Júlia Monteiro é a sua assinatura.
Julita brincava com Humberto e caminhavam descalços no riacho. De cabelo negro comprido, usava-o quase sempre apanhado, pelo facto de ser mais prático.
Agora Humberto estava entregue às suas estrelas. Suas é como quem diz. Às estrelas do Universo. Vive em casa da sua mãe, que conta com idade própria para pedir a reforma. Do pai nunca teve notícias. Talvez essa seja uma das razões para procurar respostas nas estrelas, uma vez que da mãe também nada conseguiu retirar.


Humberto tem uma dificuldade acrescida para apreciar as estrelas. As lentes garrafais de quinze e dezoito dioptrias impediam-no de conseguir a focagem ideal. Se encostava os óculos ao telescópio a focagem fugia e as lentes embaciavam. Se retirava os óculos, tinha que reajustar o ocular do telescópio.


tinta permanente João Pires Fotografar as Estrelas
tinta permanente - João Pires - "Fotografar as Estrelas"




Aliás, a única possibilidade de focar a imagem na retina, sem óculos, é aproximar o olho da lente e focar a uma distância proporcional ao valor da miopia.
Já passou por privações para assistir a espectáculos de luz e estrelas. Uma vez começou na noite de 3 de Maio e só terminou passado uma semana. Uma verdadeira maratona sem ir à cama ou a dormir como calha durante o dia. Humberto faz entregas rápidas durante o dia para seu sustento e para ajudar lá em casa. Por vezes as entregas não são assim tão rápidas quanto o prometido pelo transportador e os clientes queixam-se.
Na semana passada tinha sido agendado uma entrega urgente de um equipamento de diagnóstico médico proveniente do Japão, para as nove horas da manhã no consultório médico. Já lá tinha pacientes à espera de serem diagnosticados com aquela máquina. Atrasou-se. Tinha adormecido e não havia despertador ou telemóvel que o acordasse. Os pacientes esperaram uma hora e mais outra sem que fossem informados do motivo do atraso da consulta. Nem a sua mãe lhe podia valer porque tinha ido a uma sessão de fisioterapia e iria chegar mais tarde. Como mais ninguém podia substituir Humberto porque este tinha ido levantar, de véspera, a encomenda à Central de Distribuição para que tudo fosse mais fácil no dia seguinte, o Xico, seu colega de trabalho, foi lá acordá-lo, a pedido, porque é seu vizinho. Bate furiosamente à porta da casa geminada de piso térreo.
-Acorda. Acorda Humberto.
-Humm. Quem é? Pergunta, espreguiçando-se à beira da porta.
-O Pai Natal. Quem querias que fosse? Sou eu, o Xico.
Este ainda deve estar na Lua, pensou.
-Liga-te à Terra. Alô Terra. Escuto.
-Já vou, assentiu, abrindo a porta.
-Não tens uma encomenda urgente para entregar? Perguntou.


Esboçou uma cara de espanto. Puxou a camisola perdida no sofá. Enfiou as calças de ganga, calçou os sapatos, pegou na encomenda e zarpou com um sumido “Até logo”, cabendo ao Xico a incumbência de fechar a porta da rua.


De regresso a casa, por volta das três, enfiou uma sandes de couratos e uma mini pelo bucho abaixo e foi esticar-se no sofá, tendo apenas tido tempo para descalçar os sapatos e desapertar o cinto.
Adormeceu contando ovelhas brancas a pular a cerca e a olhar para o céu estrelado com a seguinte pergunta na cabeça: Julita, Julita, por onde andas?
Mais tarde, já noite, acordou com o Salazar a lamber-lhe o nariz. Pára Salazar, empurrando o cão para o chão.
Salazar acedeu à ordem mas olhava insistentemente, pedindo para o levar à rua.
-Está bem. Vamos dar uma voltinha e afagou a cabeça ao cão.
Do parco vocabulário apreendido pelo cão, a palavra voltinha constava e significava uma saída à rua. A cauda não mais parou de abanar. Começou a arfar e fazia o caminho sofá-porta e regressava da porta da rua em direção ao sofá. “Vá lá. Não posso mais, suplicava Salazar com os seus olhos”.


-Já lá vou. Deixa-me calçar os sapatos.
Toca o telefone.
-Sim? És tu mãe?
-Olá filho. Deixei-te frango assado.com batatas no forno beijos. Até logo.
-Obrigado mãe. Até logo. Beijinhos.
Estava a chegar a hora das estrelas. Hoje era dia de tentar conseguir ver a chuva de estrelas Eta Aquaridas, pois estamos em Maio. Até 60 meteoros por segundo, provocados por detritos do famoso cometa Halley. Da sua casa via-se com relativa facilidade, pois estava situada nos arrabaldes da cidade, numa zona maioritariamente agrícola e portanto com pouca luz, produzindo pouca poluição luminosa, principalmente a partir da meia-noite. Fotografar planetas e estrelas sempre foi o seu sonho desde criança. Mesmo que isso implique alguma privação de sono, destinos ermos ou situações inóspitas.
Em pequeno, começou por experimentar uma noite no quintal, com um telescópio antigo, quase artesanal, herança do seu avô.
Depois veio a fotografia astronómica. Adaptou a máquina fotográfica ao telescópio e começou a fotografar. No início apenas conseguia registar pintas de luz. Depois começou a aperfeiçoar a técnica e passou a registar planetas distantes.


Começaram a aparecer fotos fantásticas do céu nocturno, depois de noite perdidas e percorridos lugares distantes.
Conseguiu captar arrepiantes imagens nocturnas, em agosto desse ano, com a chuva de estrelas Perseidas, a qual irradia da constelação Perseus, mas pode surgir em qualquer parte do céu, pelo que é necessário estar com mil olhos e muita atenção. Por vezes Salazar adormece aos pés de Humberto, nas noites longas de observação das estrelas.


A paixão pelas estrelas é tão grande, que o seu quarto continua decorado no tecto branco com pequenas estrelas que emitem luz no escuro.


Já em Outubro, quando as noites começam a arrefecer, muniu-se de roupa quente contra o frio da noite, voltou a verificar o estado do tempo, despediu-se da mãe com um beijo na testa e enfiou Salazar no carro, o seu companheiro das noites longas. Zarpou em direcção à serra, onde a poluição luminosa causada pela luz excessiva das cidades, é quase nula.


Nessa noite, conseguiu fotografar rastos de estrelas e o mundo a rodar à sua volta.
Fotografou ainda o céu no crepúsculo e os pedaços de lua.


Estava às voltas com a focagem do telescópio com as grossas lentes pelo meio, quando começa a tocar o telemóvel. Raios, quem será a esta hora?
Pousou a máquina fotográfica em cima do capô do carro, procurou o telemóvel no bolso e arrancou-o de uma só vez. Tinha parado de tocar. Quem seria àquela hora?
Número desconhecido. E o céu. Magnífico para desfrutar ali no meio da serra. Parou para fumar um cigarro. Prendeu o cigarro nos lábios e logo veio aquele aroma a tabaco fresco pelas narinas acima, salivando à espera do primeiro trago de fumo, enquanto procurava pelo isqueiro dentro dos bolsos.
Toca de novo. Desta vez demorou cinco segundos a pegar no telemóvel.
-Sim?
-Boa noite. Estou a falar com o Sr Humberto Oliveira?
-Ele mesmo.
-Daqui é da companhia de seguros “Seguro” e está a falar com Tânia Rocha. É oportuno falar consigo agora.
-Agora não é possível, pois acabo de ver uma estrela rara. Boa noite
-Estrela rara? Boa noite, respondeu em voz desiludida.


Um dia destes vou fotografar a via láctea, disse tentando esquecer aquele telefonema inoportuno. O brilho difuso de 300 biliões de estrelas na nossa galáxia, com faixas de poeira escura sobrepostas, é um dos temas mais impressionantes que eu tenho para fotografar, murmurou.


No hemisfério norte, está mais bem posicionado nas noites de Junho a Setembro, mas é possível vê-lo durante todo o ano.


Adormeceu no carro por volta das cinco da manhã, quando céu começou a clarear.


Depois regressou a casa e foi aparar a sua barba de sete dias, despiu a roupa e olhou-se ao espelho.
Não estás mal aos quarenta para quem deita abaixo umas mini e come sandes de couratos, observou, como quem se quer justificar. Mas a barriguinha começava a espreitar.


Entrou no chuveiro e começou a cantarolar uma música que a Julita sabia tão bem.


Tocou a campainha uma vez e parou. Passado um pouco voltou a tocar destas vez com dois toques quase seguidos e determinados.


Humberto saiu do chuveiro, enrolou uma toalha à volta da cintura e colocou os óculos de toupeira que apesar de embaciados eram a sua peça de roupa mais importante. Sem eles era como se estivesse completamente nu.


Aparece uma silhueta de uma rapariga à porta. Talvez fosse uma rapariga mais crescida, observando melhor.
-Sim?
-Humberto? Perguntou a voz feminina rouca.
-Sim sou eu, respondeu quase adivinhando, mostrando um ténue sorriso.
-Sou eu, a Julita.
-Julita? Perguntou, começando a distinguir as suas faces, à medida que as lentes vão desembaciando.
Abraçaram-se num longo beijo, sem pedir licença. Até ver estrelas. E Julita estava lá, no meio delas.

tinta permanente - João Pires - 2016