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sábado, 20 de dezembro de 2014

Amadeo de Souza-Cardoso (PT)

A caricatura que, em 1906, Amadeo de Souza-Cardoso fez de Laranjeira, refastelado à mesa de um café, visto de costas, numa posição repousada e nada cerimoniosa é já um notável desenho. Esta caricatura trouxe alguma fama a Amadeo, entre outras que na mesma altura fez de Laranjeira, acentuado-lhe o rosto peludo e feio, como que para satisfazer pedidos do próprio caricaturado.

Foi pois como caricaturista que Amadeo começou a ser apreciado, não apenas por alguns escritores como por pintores, seja o já conceituado António Carneiro seja, depois, pelos seus companheiros de Paris, também caricaturistas: Emmerico Nunes (1888-1968), Domingos Rebelo (1891-1971), Acácio Lino (1878-1956).

caricatura de Emmerico Nunes (1888-1968)
caricatura de Emmerico Nunes (1888-1968)


Fosse ou não fosse o jovem Amadeo alguém propenso às especulações intelectuais, a verdade é que ele foi um leitor aplicado. Mas os mestres portugueses da palavra escrita não o poderiam ajudar como futuro pintor vanguardista.

As atitudes intelectuais dos escritor realistas oitocentistas influenciaram o jovem e te-lo-ão ajudado a observar a vida quotidiana, mas tornavam-no um solitário quando manejava os pincéis.

Assim, foi surgindo a ideia de que ele não era um intelectual, mas fundamentalmente um pintor instintivo, como o seu futuro amigo Eduardo Viana (1881-1967). E Laranjeira, nas suas cartas, fala-lhe da importância do "temperamento" na personalidade de qualquer artista; e a mesma palavra é utilizada pelo próprio Amadeo, nas cartas ao seu tio Francisco, para lhe explicar as qualidades que verdadeiramente um artista deve possuir.

A intimidade e confiança moral concedidas a um jovem de dezoito anos prolongavam-se por numerosas cartas, longas conversações e também grandes momentos de silêncio partilhado. As respectivas experiências de vida eram muitos diferentes, por idade, origens familiares e condições económicas.



Amadeo de Souza-Cardoso
Amadeo de Souza-Cardoso

De certo modo, Amadeo de Souza-Cardoso encontrou em Laranjeira um mestre na reflexão da condição humana, e lhe incutiu confiança, apesar do seu próprio desespero.

A franqueza de Laranjeira nunca esmoreceu, tecendo elogios aos desenhos de Amadeo, entusiasticamente, quase sempre; mas não deixando também de apontar defeitos.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Os santos e santas da minha devoção

Os santos e santas da minha devoção, em especial ao milagroso Padre Santo Antonio, é padroeiro de namorados, e quando quer fazer um milagre não pergunta quem tem razão.


Não me esqueci de me encomendar também aos Santos Mártires de Marrocos que lhe levam a perna numa dificuldade.

Muitas vezes ouvi dizer a minha mãe: "roga ao santo até passar o barranco".

E medo para trás das costas.

Toque, toque, Britiande lá avultava, apertada às bandas da estrada, com casas caiadas, casas antigas de pedra bruta, mulheres a catar-se às portas, e meninos nús pelos patins a esganiçar-se pelas mães.

Estava tudo em sossego; pelos vistos não era ali que eu quebrava osso.


Ja dava graças a Deus quando, ao desandar da ultima esquina, uma porta se abriu e meu tio Agostinho, os Maçãzeiros, o padre e uma choldra sem cinta me saltaram à frente.

Deitei a mão ao bacamarte, de cara para a patuleia que estarreceu com o meu rompante:


- Olá amigos, o que é isso?

Aquilo lá se lhes afigurou que eu ou havia de segurar a moça ou combater, ou que recobrassem o animo, facto é   que cresceram para mim depois de terem hesitado. Entestei o bacamarte ao peito do mais adiantado, que por sinal era o meu tio:

- Tenha-se, senão morre!
- Hás-de pagá-las, cao!
- Tenha-se, tenha-se, senão morre!

Já eu tinha o dedo no gatilho quando o homem estacou. Estacou, e acobardado com o meu rasgo, vendo os purrios mais irresolutos que ele, pôs-se a gaguejar à distância:

E medo para tras das costas. Toque, toque, Britiande lá avultava, apertada as bandas da estrada, com casas caiadas, casas antigas de pedra bruta, mulheres a catar-se as portas, e meninos nus pelos patins a esganiçar-se pelas mães.


- Ola amigos, que é isso ?

- Tenha-se, senão morre!
- Hás-de pagá-las, cao!
- Tenha-se, tenha-se, senão morre!

- Pula abaixo, Brizida! Pula abaixo!...

A maluquinha ia a mexer-se... Não custou muito tê-la queda e imóvel, pouco menos queda do que se jazesse entre as mãos da Ana que era quem amortalhava os defuntos:

- Ó Brizida, tu pulas abaixo, mas és a primeira a cair. Se não tens amor à vida, faz lá! Agora vossemecês deixem seguir quem vai seu caminho...que eu morrer morrerei, mas a trouxa não a largo...