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terça-feira, 23 de agosto de 2005

A suspeita

Já não é apenas sobre as opções da política fiscal que se colocam dúvidas sistemáticas. A suspeita inquinou todas as áreas da governação.

Sempre que o ministro das Finanças do Governo PS repetir que não vai haver aumento de impostos, a comunicação social não hesitará em esquecer as declarações anteriores e fazer da promessa uma notícia nova. A fatalidade existe, porque nesta, como em muitas outras matérias, a suspeição introduziu-se como um furúnculo na imagem que o Governo projecta para os cidadãos. Como na história de Pedro e do lobo, instalou-se a suspeita de que quem falta uma vez aos seus compromissos e à palavra dada está eternamente condenado a dar o dito por não dito, sempre que haja uma surpresa, algo de novo no enquadramento, ou uma simples tentativa de correcção de trajectória política. À semelhança do que tinha acontecido com Durão Barroso, o PS em campanha prometeu, apesar de haverem vozes discordantes dentro do partido, que não aumentaria impostos, mas não passou da promessa quando chegou ao Governo. Esse pecado original está a contribuir para que a mais sincera das propostas se transforme numa dúvida e logo depois numa suposta mentira.

Nos próximos meses, a capacidade de desfazer este elo entre a percepção e a realidade vai ser um dos mais urgentes desafios da governação. Porque já não é apenas sobre as opções da política fiscal que se colocam dúvidas sistemáticas. A suspeita alastrou a todas as áreas da governação. Os cidadãos duvidam da transparência com que se anuncia a OTA e o TGV, aliás estes dois temas não podiam vir em hora mais inoportuna da vida da nação, duvidam do avanço das reformas na administração pública, duvidam da capacidade de se cortar despesas do Estado, duvidam da independência dos ministros em relação aos interesses privados... Duvidam até que um Governo eleito com ampla maioria há apenas meio ano seja capaz de levar a legislatura até ao seu termo.

Não é possível mobilizar um país para os desafios que se perfilam no horizonte com tantas dúvidas e tantas suspeitas. José Sócrates e seus pares sabem-no convictamente. Não apenas pela experiência dos seus antecessores, mas também pela sensação de que, com este clima que aos poucos vai abafando a vida pública, se confunde a intriga com os factos reais, o essencial com o acessório.
Mas nem Sócrates nem os seus ministros tiveram até à data clarividência suficiente para corrigir a trajectória descendente. Pelo contrário, o Plano de Investimentos Prioritários (PIIP) destinado a injectar confiança através da veiculação da ideia de que, afinal, ainda há nervo (nervos...) para se fazer obra, transformou-se num desastre por falta de consistência e preparação. Depois, o PS continua incapaz de dar provas de garantir uma governação coerente, ponderada e com claro sentido de responsabilidade.

É neste enquadramento que se desenrola o episódio de Armando Vara, cuja nomeação o ministro das Finanças justificou estes dias ao Diário Económico com o seu perfil. Fernando Teixeira dos Santos "tinha a consciência de que a escolha de Vara seria polémica", mas nem isso o demoveu. Como se um governo com um duríssimo caderno de encargos não devesse contornar as polémicas estéreis e concentrar-se no essencial. Como se Vara fosse o homem providencial capaz de fazer milagres na Caixa Geral de Depósitos. A opção do ministro e de José Sócrates não revela coragem nem sentido de dever. Revela indiferença e sobranceria. Em vez de limpar as suspeitas que inquinam o ar, só as legitima.