A caricatura que, em 1906, Amadeo de Souza-Cardoso fez de Laranjeira, refastelado à mesa de um café, visto de costas, numa posição repousada e nada cerimoniosa é já um notável desenho. Esta caricatura trouxe alguma fama a Amadeo, entre outras que na mesma altura fez de Laranjeira, acentuado-lhe o rosto peludo e feio, como que para satisfazer pedidos do próprio caricaturado.
Foi pois como caricaturista que Amadeo começou a ser apreciado, não apenas por alguns escritores como por pintores, seja o já conceituado António Carneiro seja, depois, pelos seus companheiros de Paris, também caricaturistas: Emmerico Nunes (1888-1968), Domingos Rebelo (1891-1971), Acácio Lino (1878-1956).
| caricatura de Emmerico Nunes (1888-1968) |
Fosse ou não fosse o jovem Amadeo alguém propenso às especulações intelectuais, a verdade é que ele foi um leitor aplicado. Mas os mestres portugueses da palavra escrita não o poderiam ajudar como futuro pintor vanguardista.
As atitudes intelectuais dos escritor realistas oitocentistas influenciaram o jovem e te-lo-ão ajudado a observar a vida quotidiana, mas tornavam-no um solitário quando manejava os pincéis.
Assim, foi surgindo a ideia de que ele não era um intelectual, mas fundamentalmente um pintor instintivo, como o seu futuro amigo Eduardo Viana (1881-1967). E Laranjeira, nas suas cartas, fala-lhe da importância do "temperamento" na personalidade de qualquer artista; e a mesma palavra é utilizada pelo próprio Amadeo, nas cartas ao seu tio Francisco, para lhe explicar as qualidades que verdadeiramente um artista deve possuir.
A intimidade e confiança moral concedidas a um jovem de dezoito anos prolongavam-se por numerosas cartas, longas conversações e também grandes momentos de silêncio partilhado. As respectivas experiências de vida eram muitos diferentes, por idade, origens familiares e condições económicas.
Amadeo de Souza-Cardoso
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De certo modo, Amadeo de Souza-Cardoso encontrou em Laranjeira um mestre na reflexão da condição humana, e lhe incutiu confiança, apesar do seu próprio desespero.
A franqueza de Laranjeira nunca esmoreceu, tecendo elogios aos desenhos de Amadeo, entusiasticamente, quase sempre; mas não deixando também de apontar defeitos.

















