A greve geral de 24 de novembro foi inconsequente
Não é bem verdade porque ajudou a encolher o PIB
A sensação de inutilidade das greves e protestos sindicais nasce do irrealismo das reivindicações e da ausência de soluções viáveis bem como da imagem totalmente desactualizada dos sindicatos que ainda funcionam com base em pressupostos dos anos 70.
A "precariedade das condições de trabalho" e "aumento salarial" são argumentos desde sempre defendidos pelos sindicatos mas que são apenas parte do quebra-cabeças. E a população portuguesa já percebeu.
O delírio da CGTP e da UGT sobre o número de grevistas de 24 de novembro de 2010, os inacreditáveis 3 milhões, denota o estado de negação da realidade do movimento sindical em Portugal. As reivindicações feitas a um Estado a escassas semanas de admitir falência, completam o retrato de negação, que arrisca atirar as centrais sindicais para a total irrelevância. O problema é que os sindicatos são de facto precisos. A sua ineficácia prejudica sobretudo as pessoas que dizem representar.
O enorme desafio - para sindicatos, empresas e políticas públicas - é encontrar o equilíbrio possível entre a necessidade incontornável de conter custos e a correcção da cada vez maior desigualdade de rendimentos. Portugal parte para esta era de austeridade económica como a segunda sociedade mais desigual do mundo desenvolvido, só atrás dos Estados Unidos. Esta desigualdade - com impacto na qualidade de vida de todos e na prosperidade da economia - torna mais exigente o afinamento das políticas duras que terão de ser adoptadas. O mais grave é que esta tendência está para ficar: refiro-me à tendência para agravar o fosso entre os pobres e o ricos, sinal que a economia portuguesa não está a funcionar correctamente, pois o governo de José Sócrates não tem tempo para afinar políticas. Ao mesmo tempo, no sector privado começa a delinear-se uma pressão grande para cortar salários, uma tendência que ganhará peso com o apoio certo do FMI a Portugal.
Assim, se o FMI intervir em Portugal, teremos a posição dos sindicatos ainda mais reduzida.
A credibilização dos sindicatos poderia ser grande, aumentando a sua influência quer na concertação social, quer a um nível mais micro, junto das empresas e do Estado.
Porém, as centrais sindicais - com destaque para a maior, a CGTP - não estão interessadas na realidade, fazendo lembrar o animal que prefere enterrar a cabeça dentro da areia. Preferem concentrar esforços na defesa dos "direitos adquiridos", mas quais direitos ??, incompatíveis com a situação financeira do país. De notar que os direitos adquiridos também evoluem de acordo com a economia do pais. Valorizam a retórica vazia dos "patrões exploradores" e "das trabalhadoras e dos trabalhadores". Apostam na luta de classes, à boa maneira dos anos 70, um jogo de soma nula em que uns perdem e outros ganham. A sensação de inutilidade das greves e dos protestos nasce antes de mais aqui: no irrealismo das reivindicações e na ausência de propostas viáveis.
Perante esta incapacidade, não espanta que a influência dos sindicatos esteja em queda (de 25% de sindicalizados em 1995 para os actuais 17%) e que viva acantonada no sector público. Até agora o Estado era o único terreno onde a incompetência sindical ainda passava. Os funcionários públicos não só podem fazer greve - porque têm o emprego protegido por lei e não concorrem com os chineses -, como quando o fazem conseguem perturbar o país, parando escolas, hospitais e outros serviços. É por isso que a alegada greve geral histórica desta semana foi apenas uma greve da função pública. Os 3 milhões de grevistas moram apenas nas cabeças dos líderes sindicais, bem ao lado da influência que ainda julgam ter.
Por estas razões deixei de estar sindicalizado há alguns anos.
Entendo que os sindicatos devem urgente mente evoluir e libertarem-se definitivamente do espírito dos anos 70.
Gostaria que os sindicatos portugueses mudassem o discurso:
Precariedade no trabalho: Não
Aumento salarial: Sim
...
O que propõem os sindicatos para que tal aconteça ???