Noite Perfeita
Segue no comboio, com o boné enterrado até aos olhos.
Lá fora, o sol brilha sobre a neve. As árvores não tremem de frio.
Sentado só no banco junto à janela, olha para a foto dela.
Aquela foto do tempo em que foram felizes. Manuseia-a com carinho. Segura-a com as duas mãos. Como se a pudesse acariciar. Guarda-a cuidadosamente no bolso do casaco e de seguida pega na mochila.
Prepara-se para sair do comboio. A porta abre-se e desce as escadas, olhando em volta. Paro mais à frente e volta-se para uma janela grande, ainda na zona da gare. Olha com mais atenção para o interior e reencontra o seu sorriso. Ela estava lá à sua espera. Está igual à foto que há momentos acabara de apreciar uma vez mais. Dirige-se para o interior do café e corresponde ao seu sorriso. Depois de um abraço apertado e na companhia de um café quente, recordam outros tempos. Pouco mudaram.
Inesperadamente, ela levanta-se e corre na direcção de um rapaz alto de camisa vermelha aos quadrados. Salta para o seu colo e beija-o. Como se desvaneceu o momento que ele estava a viver. Por fim, reuniram-se todos para subir à montanha. Ele conduzia o carro, com uma expressão de desilusão que rapidamente mudava, quando se cruzava com o olhar dela, através do espelho retrovisor. Cantavam músicas da rádio, ela apoiava-se no seu ombro, quando se chegava à frente para sintonizar outra estação e ele sentia aquele toque no ombro de forma especial. Pelo retrovisor conseguia ver os seus lábios carnudos em movimento, acompanhando as músicas que passavam na rádio. E sonhava, sem perder o tino à estrada. A viagem pareceria demorar eternidades até chegar ao cimo da montanha. Mas depois de instalados na casa de madeira, foram esquiar pela montanha branca de neve. Divertiram-se a fazer piruetas e acrobacias durante todo o dia. Ele puxava-a com delicadeza até ao ponto de saída. Outras vezes subiam na mesma cadeira até ao cume da montanha.
Veio a noite, acenderam foguetes luminosos e começaram a descer a montanha aos pares. Uma descida fantástica, que dependia apenas da luz dos foguetes luminosos. Depois daquela aventura no escuro, regressaram à pequena aldeia e foram jantar em alegre convívio. O grupo brindou à amizade, bebendo em sincronia, a partir de copos fixados numa tabua corrida. Quando se inclina a tábua, todos bebem ou perdem o precioso líquido. Uma verdadeira farra. Veio mais cerveja e a diversão não parava. Depois veio o caraoque com a neve a cair lá fora. Como lhe ficava bem aquele gorro azul e branco e os longos cabelos a dançarem, enquanto segurava o microfone. Os quatro cantavam com alma no pequeno palco. Ele observava o espectáculo a partir da mesa. Acenava batendo palmas como um qualquer espectador. De seguida retirou-se e saiu do bar e foi caminhar pela estrada branca de neve. As luzes do pequeno bar e dos restantes edifícios iluminavam a rua. Fazia um frio seco, agradável até, para uma caminhada. Ela veio de seguida e apanhou um pedaço de neve e fez uma bola que atirou ao gorro negro enfiado na sua cabeça. Ele virou-se e sorriu para ela. Ficaram a contemplar-se. De imediato estavam deitados sobre a neve macia, olhando para o céu estrelados, abrindo e fechando os braços e as pernas, tal como o movimento dos limpa para-brisas e riam alto como duas crianças. Pararam no momento em que as suas mãos e pés se tocaram e olharam ternamente um para o outro. Ele atirou-lhe uma pequena bola de neve, de surpresa. Ela correu para ele e saltou para as suas costas, carregando-a assim, cerca de dez passos. Já no chão, pegou no fecho do casaco e abriu-o, como se procurasse o seu calor e ofereceu-lhe o mais belo sorriso. De regresso ao bar em madeira, percorreram a rua também iluminada por árvores com pequenas luzes, continuando a cair minúsculos flocos de neve. Ele foi buscar a caixa de cartão com comida para cear na cabana. A caminho, foram conversando alegremente até chegar à pequena cabana em madeira iluminada à entrada. Já no seu interior, ele pousou a caixa na pequena mesa de madeira. Ela abriu para tirar um pedaço da piza e viu a seguinte mensagem no interior da caixa:
“Escrevi uma canção para ti.”
Ela sorriu e olhou para ele e ficou à espera, enquanto trincava uma fatia de piza. Ele abocanhou uma fatia de piza e fez caretas, encolhendo os ombros, criando expectativa. Partilharam a comida. Ela calçou umas meias de lã mais confortáveis e vestiu uma camisola mais quente. Ele foi buscar a viola e sentou-se no banco de madeira. Deu os primeiros acordes e olhou para ela. Começou a canção escrita para ela, embalado pelo ritmo, à luz de duas velas. Os olhos dela brilhavam de emoção, tentando adivinhar as palavras que brotavam da sua boca. Olharam uma vez mais para a fota tirada uns anos antes em que ela o beijava na face. De súbito, ele convidou-a para uma noite perfeita. E isso implicava dançar debaixo da neve. Ela aceitou de imediato e no omento seguinte estava lá fora a dançar com os pequenos flocos de neve a cair sobre eles. Dançavam chegados, pois o frio assim convidada, tão chegados que os seus narizes se tocavam. A distância do olhar havia encurtado como nunca. Ela passou a sua mão pelos seus cabelos e aproximou o seu rosto em direcção aos seus lábios. Fechou os olhos e beijou-o numa dança contínua durante a noite perfeita. Até nascer o dia.
24-04-2018





