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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

tinta permanente - João Pires - "Dá-me o teu sorriso"

Dá-me o teu sorriso - poesia


Dá-me o teu sorriso
Ilumino-te o coração
Vestidos de princesa
Mas é o sorriso
A minha perdição
Enche a alma
Dá-me o teu sorriso
E dedico-te a minha poesia
És alegria e simpatia
Mas é o teu sorriso que me enche de emoção
Aqui vai um chi-coração
Estende a tua mão
Quero um abraço
Ofereço-te um beijo no regaço
És alento com o teu sorriso
Alegria com um movimento de lábios
Princesa formosa
És fada da alegria
Abriste o meu coração com um sorriso
Dá-me o teu sorriso
Cantarei para ti
Queres dançar comigo debaixo das estrelas?
És sorriso aberto, olhos redondos
Sabes ser sorriso ousado
As tuas emoções brilham nos olhos
É a tua felicidade que me contagia
A tua boca diz palavras bonitas
Mas o teu sorriso, encanta
Quando sorris, os teus olhos acompanham
Caminha lentamente, se tiver de ser
Mas por favor: não pares.
Conquistas com um simples sorriso
E vens na minha direcção
Abro os braços para ti
Abraço-te até ser dia.
És flor, és perfume.
Pétala a pétala, descubro o teu sorriso
Mulher ancorada
Solto as tuas amarras


Dou-te um sorriso
Devolves um beijo.


14-02-2017

João Pires



terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

tinta permanente - João Pires - "Ilumina-me"

Dá-me a tua mão!
Dou-te a minha mão!
Abraça-me até esborratar o batom
Até desaparecer o vermelho
Se eu conseguir beijar a tua alma
Então meu corpo seguirá o caminho!
Já esqueci as palavras perdidas no nevoeiro
De noite


Ilumina-me
Ilumina-me e abraço-te
Palavras perdidas em estrada de motel
O céu azul começa a despontar
Procurei a felicidade no dinheiro
Procurei a ambição do poder
Procurei emoção no prazer
Não encontrei alegria
Marquei encontro comigo mesmo, mais logo.
Afasto-me da estrada da solidão
Da minha solidão


Ilumina-me
Ilumina-me e eu abraço-te
Num aconchego doce
Beijo-te, já sem o vermelho do batom
Sonho
Caminho no sonho, sem luz

tinta permanente - João Pires - "Ilumina-me"
tinta permanente - João Pires - "Ilumina-me"



Ilumina-me
Vou para o sonho às escuras
Encontro-te por lá. No sonho
Abraço-te e beijas-me com tempo
Abraços e beijos
Danças comigo? Esta noite?
O sonho continua sem parar
Tenho quase a certeza que pertenço ao sonho de onde vim!
O sol já mergulha no mar
Abraça-me e ilumino-te


Iluminas-me com o teu sorriso
Ilumino-te com o meu abraço
Abraços de luz
Beijos, abraços e carinhos
Será sonho?
Dá-me a tua mão!




07-02-2017

João Pires

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

tinta permanente - João Pires - "Abraça-me"

Abraça-me


Vem voar comigo. Amizade sincera de raiz profunda, que nenhuma tempestade te consiga arrancar da terra. Quando irei saber como consolar alguém ou oferecer abrigo? Liberto-me do sofrimento, sem escapar à dor.


Dá-me um abraço.
A melhor pessoa para aliviar as minhas dores, males e angústias, sou eu mesmo.


Dá-me um abraço.
Onde estão os beijos que agora preciso?


tinta permanente - João Pires - "Abraça-me"
tinta permanente - João Pires - "Abraça-me"



Abraça-me.
Olho para o céu azul e vejo o sol brilhante. Não estou lá para voar contigo.
Sei que a Lua brilhará para mim, mas só mais tarde.
Luz morna e brilhante numa tarde fria. Sou rei sol, sou espírito de diversão numa estrada deserta sem fim. O caminho é belo, mesmo assim. Aprecio tudo à minha volta. A natureza está quase despida. Vegetação pardacenta.
Sigo em frente, mas a geografia dos afectos atrapalha-me a viagem.


Abraça-me.
Noite de luzes rolantes, caminhos sem destino. E a Lua lá em cima já brilha. Imaginei ter visto um rosto conhecido. Mas depressa descobri que afinal não eras tu. Desencontros.


Abraça-me, sem fazeres perguntas.
O teu rosto que me iluminou tantas vezes, que me deixou o coração sempre mais feliz deixou agora marcas dentro de mim.
O sol foi desaparecendo suavemente, com a promessa de voltar a amanhã. Chegou o tempo das folhas caídas e do vento frio. Foram-se os dias longos. Tornam-se aborrecidos e efémeros. E tu teimas em não chegar.


Por favor, abraça-me agora.
Passou a reinar a noite escura, dos cobertores e das mantas. Das lareiras e aconchegos. E os sons agudos apitam lá fora, ao longe. Serão vozes humanas a suplicar clemência? Desfilam ainda notas musicais em catadupa desordenada, marteladas num piano qualquer de cauda preta. Mas tu já estás ao meu lado.


Abraça-me aqui e agora.
Como se não houvesse mais estrada para percorrer. Ilumina-me com o brilho dos teus olhos. Procuro guardá-lo dentro de mim. A candura do teu sorriso faz despertar em mim a Primavera dos sentidos. Afinal tu és a minha Lua. Agora já vejo estrelas no céu escuro.


Abraça-me até ser de manhã.


19-01-2017

João Pires

sábado, 7 de janeiro de 2017

tinta permanente - João Pires - "Árvore Desnuda"

Árvore Desnuda

Árvores que correm desnudas pela relva verde dos campos. Erguem os seus braços aos céus, agora sem folhas. Braços molhados pela chuva de Inverno. Exalam o cheiro da chuva debaixo dos seus ramos.De súbito surge o sol tímido na tarde fria. E a paisagem estende-se por vales a perder de vista. Árvores esvaziadas de folhas que já não balançam ao vento. Soltaram-se e voaram. Árvores de corpo nu como um homem sem camisa. Ao frio gélido de Dezembro. Galhos emaranhados e secos de árvores adultas. Ramos mortos. Perigosamente entrelaçados. À espera da poda de Janeiro. Cicatrizes de cortes do ano anterior. O mesmo vento que levou as folhas no Outono passado, alisa agora os cabelos da mulher seminua.
Árvores desnudas pela cidade deserta esperam pela Primavera. Pequenas pedras rolam pela calçada até ao rio, empurradas pelo vento. Pátios desertos que prendem folhas secas aos cantos.

tinta permanente - João Pires - "Árvore Desnuda"
tinta permanente - João Pires - "Árvore Desnuda"


O sol acabado de nascer ilumina em tons índigos, os troncos das árvores. Mas elas lançam os seus galhos esqueléticos ao céu ainda escuro.

Sete ramos desencontrados erguem-se mais alto. De costas voltadas para o tronco principal. São as árvores que contam histórias através das suas folhas que agora não estão lá. São elas que ligam o céu à terra. São elas que estão em oração permanente de braços erguidos ao céu, como quem canta Fado. Sem descanso. Dia e noite. Porque não vais repousar um pouco? Árvores despidas, aparentemente envelhecidas pelo tempo, numa calvície de casca lisa. Com manchas. Todos os anos se libertam das folhas mortas. Tornam-se vazias para renascer. Livram-se do seu significado. Árvores da vida e que dão sombra mas que agora estão nuas, expostas. São o símbolo sagrado da criação, da fecundidade e da imortalidade. Mais tarde, no reflorescimento, as suas folhas voltarão a nascer em direcção ao céu. Quando o Inverno for embora.

7-1-2017

João Pires

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "Quero voar para 2017"

Quero voar para 2017, agora que ganhei asas. Mover-me no céu azul, observando tudo à minha volta com olhos de cristal. Sobrevôo. Estou a planar e olho lá para baixo. Estradas que parecem linhas de coser. Lagos como pequenos charcos e pessoas como cabeças de alfinete.
Mantenho-me no ar a flutuar, sem pensar em nada mais. O ano está findar. Pairar e sentir o ar puro. Explodir de felicidade por mais um vôo. Abro bem as asas para aproveitar ao máximo o ar rarefeito e encher o peito de céu azul, aplainando o ar.
Todos os dias vôo para aperfeiçoar.
Depois, com grande rapidez, mergulho em vôo picado, como se não houvesse 2017. As minhas penas resistem à velocidade extrema. Talvez se tenha desprendido uma. Vôo como se estivesse a atravessar a barreira que me transportará ao Ano Novo. Dessa forma consigo propagar a minha felicidade, deixando um rasto no ar, uma linha branca, como fazem os aviões quando cruzam os céus.
Elevo-me em pensamentos sublimes. Fecho os olhos, em pleno vôo e respiro fundo.


tinta permanente - João Pires - "Quero voar para 2017"
tinta permanente - João Pires - "Quero voar para 2017"


Desligo-me da realidade. Sinto-me ainda mais leve. Regresso à infância de época feliz onde não era preciso assumir responsabilidades nem viver preocupações. Que bom. Um sorriso, naquela época, valia ouro. Era puro, genuíno!
Depois cruzo uma nuvem perdida e desapareço rapidamente, como num passe de mágica.


Desço à terra. Bebo um pouco de água da fonte. O 2017 está a chegar. Passeio pelas ruas movimentadas da cidade. Vejo rostos com ar apressado. Correm em todos os sentidos. Tento samicar, mas sem sucesso. Movo-me na rua de maneira hesitante, ao lado das pessoas que caminham na mesma direcção, tentando dificultar a sua passagem. Mas não consigo chamar a sua atenção. Ninguém repara em mim. Será que não me vêem?


Ontem sonhei com felicidade. Sorrisos doces. Abraços puros. Talvez para fugir às amarguras do dia a dia.


Mas a noite da passagem de ano está a chegar. Aproxima-se a passos irreversíveis. O caminho é para diante. Não olhes para trás. Olha por onde andas. O dia de ontem já passou. Tenho a estrada pela frente. Uma casa. Uma porta que se abre. Uma lareira, um copo de vinho na mesa.


Quero brindar a 2017. Que venha com energias renovadas. Que me faça sorrir sem limites. Quero dançar na rua até cair o fogo de artifício, até saltar fora de mim, em jeito de êxtase colorido. Sensações intensas. Quero cair no enlevo de 2017. Desejo que esse fogo salpicante se transforme em chuva batizante e me inunde de paz, esperança, felicidade e muito amor.


Na verdade esses sentimentos partem de mim. Vêm de dentro.


2017 está a chegar. A contagem já começou. Preparam-se as garrafas de vinhos comemorativos, contam-se as uvas passas e uns segundos depois, entro no Novo Ano. Tudo volta ao início. Mas… parece tudo igual. Nada mudou!
Decidi que irei ser eu a fazer a mudança. Dentro de mim. Bom 2017.


30-12-2016


João Pires




domingo, 25 de dezembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "Menina doce e meiga"

Menina doce e meiga que atravessas a noite de xaile ao peito. Vais a caminho do Natal. Para te sentares à mesa na ceia com os familiares mais próximos. Caminhas à beira do rio e as águas brilham com a luzes laranja que se vão derramando pela noite fora. Levas o bolo para a mesa da consoada. Atravessas ruas e sobes um deserto de escadarias de granito escuro. As sombras da roupa estendida às janelas, projectam figuras estranhas no chão. Luzes que vêm das janelas denunciam gentes que se reencontram. Se abraçam. Se beijam. Trocam presentes ou afectos. Provavelmente já se encontram sentados à mesa. 

tinta permanente - João Pires - "Menina doce e meiga"
tinta permanente - João Pires - "Menina doce e meiga"

E eu subo a rua já deserta, cheia de luzes de Natal e das montras das lojas agora vazias. Anúncios que ficam para trás, que perderam a sua razão de ser. O Natal fechou. O comércio encerrou há algumas horas. 
Lá ao fundo ainda vislumbro, na noite escura, um saco de compras colorido de tons dourados e vermelhos, com um anúncio qualquer que não consigo distinguir, a atravessar, em passo apressado a rua. 
O frio cai. Está na altura de encontrar um abrigo para passar a noite. Uma soleira de porta que me irá abrigar nesta noite de Natal. Só. Quero estar comigo! Viver esta noite com os meus pensamentos. As memórias ficaram lá atrás. Desvaneceram com o passar dos anos. Como aquelas fotos antigas que perderam quase toda a côr e têm um pequeno rasgo no canto, fruto do manuseamento. 
O futuro, nada me diz. Não existe esperança dentro de mim. Procurei, mas não a encontro. 
Agora, nesta noite do Deus menino, é o que importa. É o que conta. Só, nesta cidade iluminada mas fria. Fria de um abraço, de um aperto de mão. Fria de um sorriso.
Não há canto de pássaros. Recolheram com as suas famílias para longe. Para terras quentes, onde abunda sol. As flores fecharam-se nas suas pétalas e reservam-se em sementes para a próxima Primavera. Não há sol nem lua que possa guiar os três Reis Magos.
Aqui estou eu. Só. Olho agora para a palma das minhas mãos. Estão encardidas. Unhas sujas. Enrugadas pelo frio e com cicatrizes. Marcas do tempo. Algumas feridas estão abertas. Custam a fechar por causa do frio. Como no meu coração. O corte profundo na mão esquerda provoca dor constante. Já se tornou quase inconsciente. Está sempre cá dentro e não fecha.
Sento-me na entrada do Centro Comercial que agora está fechado.Estendo uma manta gasta no chão e abro e pouso a embalagem do bolo que me foi oferecido dos restos da confeitaria que agora está fechada.
Abro o pacote de vinho comprado no supermercado à última da hora, com os trocos suplicados à porta das lojas. Bebo o primeiro gole directamente da embalagem. Sinto um calor encher-me por dentro. Será que o Natal já chegou? Não consigo distinguir com nitidez os enfeites de Natal. Arranco um pedaço de bolo, fecho os olhos e agradeço a quem estiver a velar por mim. Momentaneamente reconfortado, encosto a cabeça à parede, embalada pelo álcool. Passa um cão na rua. Volta atrás e olha para mim. Com os seus olhos, implora por um pouco de calor. Aproxima-se e não encontra resistência. Enrosca-se nas minhas pernas. Adormeço, sem voltar a acordar!
João Pires 
25-12-2016

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "Corre água no regato"

Corre água no regato em direcção ao lago, deixando um burburinho no ar. Os pássaros chilreiam, sem parar, no alto das árvores. O lago situado à frente da casa em madeira, permanece calmo, como sempre. Eu contemplo a paisagem em longas vistas. Chegas perto de mim. 

tinta permanente - João Pires - "Corre água no regato"
tinta permanente - João Pires - "Corre água no regato"

Sussurras-me ao ouvido palavras de amor. Abraças-me com o teu doce calor. Beijos orvalhados escorrem pelo pescoço. Subitamente, sinto um íntimo arrepio na alma. Os teus cabelos roçam a minha pele excitada. 

Não sei como aquela estrada feita de luz me trouxe até junto de ti. O céu está carregado de azul de fim de dia, sem nuvens. E os sabores do vento correm sem parar. E a luz das velas chegou, pois entretanto caiu a noite. Estou preso ao meu destino e tu estás no meu caminho. Sinto-me renascer. Encostas os teus lábios à minha orelha e cai um tremor para percorrer todo o corpo como um pequeno choque eléctrico. Momentos inesquecíveis. Arrepios em todo o corpo, fruto da ansiedade em te amar. 

Provocas-me essa energia indomável. Visões de janela aberta. Alerta de um novo corpo cheio de calor nas minhas proximidades. Toca-me. Sente-me. Abraça-me. A sensibilidade passeia à flor da pele. Nas costas, nos braços e nas coxas. Já não sei quem sou. Não sei de cor esse caminho!


João Pires

16-Dez-2016

domingo, 4 de dezembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "O meu primeiro beijo"

O meu primeiro beijo aconteceu ontem. Ao som das ondas do mar. Com os pés enfiados na areia. Ondas de paixão? Ondas de puro prazer sentido. Cada minuto, cada olhar. Profundo. Doce. Rejuvenescer. 


tinta permanente - João Pires - "O meu primeiro beijo"
tinta permanente - João Pires - "O meu primeiro beijo"


Com um simples olhar. Como será possível segurar aquele momento nas minhas mãos? Segurar-te-ei nos meus braços. Olhar de veludo com um mar inteiro dentro. O perfume da tua pele invadiu-me, misturado com o almiscarado de sonhos leves em forma de beijos. Suaves. Beijos de olhos abertos. 

Espontâneo é o teu sorriso. Aberto como o Oceano. E queres voar mais alto. Sempre mais. E desenho-te um poema na pele do teu pescoço. Selo-o com um beijo prolongado. E o bálsamo da tua intuição transforma-se em oásis para mim. Um abraço terno mas cheio de calor sela uma amizade inquebrável. Sinto-me a voar de novo. Vou voltar ao mar. Planar até atingir a perfeição. 

Dá-me a tua mão. Vens?

tinta permanente - João Pires - "Quando eu era pequenino"


tinta permanente - João Pires - "Quando eu era pequenino"

Quando eu era pequenino

Tinha mesmo acabado de nascer. Ainda não abria os olhos mas já reconhecia o perfume de uma mulher. Foi amor ao primeiro contacto, logo depois de nascer. E tudo era novo. O dia e a noite. Dormir e permanecer acordado. Nasci com o sono trocado. E sempre sono leve. Atento ao que se passava à minha volta. Mas precisava de sentir o perfume da tua pele a todo o momento. Esse era o meu sinal de que tudo estava bem. A minha segurança. O meu porto de abrigo.
Depois vieram as primeiras visitas. A do meu pai que logo sorriu para mim. Depois outros olhos curiosos e bem abertos. A do meu tio que quase enjoou para cima de mim. Deve ter sido da emoção de ver um ser acabado de nascer.

tinta permanente - João Pires - "Quando eu era pequenino"
tinta permanente - João Pires - "Quando eu era pequenino"


Quando eu começava a chorar, vinha logo a mama. Mesmo que não tivesse fome e fossem apenas dores de barriga, servia para acalmar. Trazia-me o conforto que ainda hoje guardo no meu coração. Eu aprendi que se chorasse , tu me davas a mama e isso era reconfortante. Ou vinha o pai e pegava em mim ao colo. Também sabia bem. Quase que não tive tempo para aprender a dormir sozinho. Vocês embalavam-me no berço ou seguiam de carro para dar um passeio, à noite, à beira-rio e eu acabava por adormecer ao som do motor do carocha e das ruas feitas de paralelos. Ficavam para companhia, apenas as luzes laranja reflectidas na água calma do rio. Até adormecer.

Naquele dia cinzento e chuvoso de Inverno. Foi o dia que escolhi para nascer. Depois percebi que me aguardava a doce Primavera de 66. Os perfumes da natureza misturavam-se com os teus. O perfume de mãe e as essências florais que nunca esquecerei.

Pudera eu segurar nas minhas mãos nem que fosse por um dia, por uma hora, por um minuto, todas as coisas boas que me proporcionaram durante esta caminhada. A beleza das coisas, de uma simples flor, um sorriso, uma carícia, uma brincadeira, uma malandrice, o céu azul, as ondas do mar, ah, essas ondas do Oceano Atlântico, subir à montanha, uma música, uma palavra. Sabes? Sentimentos dos bons.

Os teus cuidados, a tua sopa.
Mas não é sempre assim. Percebi que ao fim de todos este caminho, a vida nem sempre é assim. Tenho a solução.
Primeiro tenho que esvaziar o meu coração como quem arruma uma gaveta. Depois volto a preenchê-lo, cuidadosamente. Um por um. Só com coisas que quero guardar para sempre!

Por cima ficará o sonho!

3-Dez-2016

João Pires

domingo, 27 de novembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "A noite caiu"

A noite caiu. 

Cá em cima. A luz sobra por cima das muralhas. A escuridão reina à volta. Sei que estás lá no alto, dentro do campanário dos sinos da concatedral. Eu sou o sonho da noite que vem fazer-te companhia. Fico à espera na tua mesinha de cabeceira, à espera que embales os olhos nas páginas de um livro qualquer. As pálpebras começam a forçar a chegada do sono e eu preparo-me. 


tinta permanente - João Pires - "A noite caiu"
tinta permanente - João Pires - "A noite caiu"


Entro dentro de ti, sorrateiramente e acendi duas velas. E tu que vês? A luz tênue ao fundo do corredor. E vens ao meu encontro. De mansinho. Deixas que eu me infiltre dentro de ti para te mostrar coisas imaginárias. E o deslumbre começa. 

#JoaoPires #TintaPermanente

Espero por ti todos os dias - João Pires

domingo, 20 de novembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "Chove lá fora"

Chove lá fora. 
A noite caiu fechando o céu cinzento. Ao som da música. Violinos e piano ajudam a chegar a noite. Serena. Agora são as luzes dos candeeiros da rua que entram pelos vidros das janelas, salpicados por fora com gotas de chuva. Parecem pequenas pérolas brilhantes de chuva. Como tu. E a lua nunca mais chega. Talvez não venha esta noite. Afinal não é garantido que apareças esta noite. Porquê Lua? Vejo-te nos meus sonhos. Dá-me a tua mão e vem comigo passear pelas nuvens dos meus sonhos. 


tinta permanente - João Pires - "Chove lá fora"
tinta permanente - João Pires - "Chove lá fora"

Insano ou sensível?
Isso é viver!
Canção de amor ao piano. Velas em cima da mesa. Luz ténue vinda do exterior. E sonho que estás ali, ao meu lado.
E debaixo da tua luz de prata, dou-te um beijo molhado. Chove lá fora e não te vejo. Beijo-te nos meus delírios.
Como é viver depois de ti?
Viver na luz. Engraçado. Sempre me disseram isso. Vives no mundo da lua. Afinal eles têm razão. Estás na lua
Vejo amor em ti, com todo o meu coração.
Mas o amor de uma mulher é poderoso. É mais forte que um ataque na guerra.
Só os sábios cometem loucuras de amor. E como chove lá fora. As pérolas de luz continuam coladas ao vidro.
Quero ser sábio!

domingo, 6 de novembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "Silêncio"

tinta permanente - João Pires - "Silêncio"
tinta permanente - João Pires - "Silêncio"
Viver o silêncio dentro da minha alma. Quando escorrega o mutismo das palavras sobre mim. E eu quero respirar profundamente. Em silêncio! Quem sou eu? Quero aprender a conhecer-me. A mapear de cor a alma. Em silêncio. No silêncio da escrita sufocante e atrevida. Cai a noite taciturna, com a bruma a emergir do rio e invadir as margens. Em total silêncio. E eu olho-me ao espelho, fecho os olhos e escuto o sangue a correr nas veias. Em silêncio. Descobri a riqueza que esse momento encerra. Em silêncio. Como posso transportar os segredos em silêncio? As palmas das mãos denunciam suor. O suor do silêncio que me invade os meus pensamentos mais preciosos. Já não sinto arestas na profundeza dos meus sentimentos. Tenho-me amarrado ao silêncio, que me  desafia a viver! A sentir a vida, contemplando-a em silêncio. Esvaziei o coração de ruídos. Preenchi-o com o silêncio mais puro. Melancólico quando cai a noite e o torpor vem resgatar para embalar no sonho. O silêncio também sabe acariciar o peito, livrando-o do aperto. E entra na alma. Carrego o silêncio de ser teu.

João Pires

5-11-2016

sábado, 5 de novembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "Para trás ficou uma pradaria verde de esperança"

Para trás ficou uma pradaria verde de esperança, de braços abertos para o regresso. 

A força da coragem para desbravar novos mundos debaixo de torrentes de água, bateladas de ondas gigantes.



Com os meus suspiros, encantei mágoas. Desamarrado das vistas, desprendido dos perfumes da terra, atiro-me sem devaneios ao oceano, na busca da perfeição. 

A ilusão do horizonte.

texto e foto de João Pires

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "O encanto da sereia"

Vou entrar no mar. Deixo o meu coração em terra. Quero surfar até atingir a linha do horizonte. Primeiro vem a espuma das ondas, depois a ondulação forte e por fim um oceano inteiro por explorar. Lá em cima pairam as gaivotas, quando está bom tempo. Hoje o mar está cinzento. Estará de mau humor?

tinta permanente - João Pires - "O encanto da sereia"
tinta permanente - João Pires - "O encanto da sereia"


Eu quero, assim mesmo, trilhar esse caminho marítimo. Quem sabe encontrar a musa inspiradora que me encanta a alma. Ouço para lá do horizonte o belo canto da sereia, que mil perigos encerra! Saberei permanecer atento, lá bem do alto, no cesto da gávea.

Texto e foto
+Joao Pires