Abraça-me
Vem voar comigo. Amizade sincera de raiz profunda, que nenhuma tempestade te consiga arrancar da terra. Quando irei saber como consolar alguém ou oferecer abrigo? Liberto-me do sofrimento, sem escapar à dor.
Dá-me um abraço.
A melhor pessoa para aliviar as minhas dores, males e angústias, sou eu mesmo.
Dá-me um abraço.
Abraça-me.
Olho para o céu azul e vejo o sol brilhante. Não estou lá para voar contigo.
Sei que a Lua brilhará para mim, mas só mais tarde.
Luz morna e brilhante numa tarde fria. Sou rei sol, sou espírito de diversão numa estrada deserta sem fim. O caminho é belo, mesmo assim. Aprecio tudo à minha volta. A natureza está quase despida. Vegetação pardacenta.
Sigo em frente, mas a geografia dos afectos atrapalha-me a viagem.
Abraça-me.
Noite de luzes rolantes, caminhos sem destino. E a Lua lá em cima já brilha. Imaginei ter visto um rosto conhecido. Mas depressa descobri que afinal não eras tu. Desencontros.
Abraça-me, sem fazeres perguntas.
O teu rosto que me iluminou tantas vezes, que me deixou o coração sempre mais feliz deixou agora marcas dentro de mim.
O sol foi desaparecendo suavemente, com a promessa de voltar a amanhã. Chegou o tempo das folhas caídas e do vento frio. Foram-se os dias longos. Tornam-se aborrecidos e efémeros. E tu teimas em não chegar.
Por favor, abraça-me agora.
Passou a reinar a noite escura, dos cobertores e das mantas. Das lareiras e aconchegos. E os sons agudos apitam lá fora, ao longe. Serão vozes humanas a suplicar clemência? Desfilam ainda notas musicais em catadupa desordenada, marteladas num piano qualquer de cauda preta. Mas tu já estás ao meu lado.
Abraça-me aqui e agora.
Como se não houvesse mais estrada para percorrer. Ilumina-me com o brilho dos teus olhos. Procuro guardá-lo dentro de mim. A candura do teu sorriso faz despertar em mim a Primavera dos sentidos. Afinal tu és a minha Lua. Agora já vejo estrelas no céu escuro.
Abraça-me até ser de manhã.
19-01-2017
João Pires












