Em pequeno, Paulo era um menino gordinho, tão obeso que não cabia dentro do seu sonho. Ir para a pista de São Caetano e acelerar no karting do seu amigo. A comida falava mais alto. As batatas fritas, os hambúrgueres com carne picada, temperada com cebola, salsa e mostarda, tudo ligado com ovo, moldados em formato circular, toda aquela comida deliciosa e estaladiça que entra pelos olhos dentro desde os anúncios na TV, os cartazes na rua e, claro, os hábitos alimentares lá de casa. Se toda a turma vai comer um hambúrguer e beber um refrigerante, porque é que Paulo tem que ficar de fora? Assim foram 110 quilos difíceis de tratar. Depois, começou a perder massa muscular e aumentou a flacidez do corpo com a barriga a escorrer.
Assim não era nada fácil mudar de vida. Na turma, ficava sempre para trás nas aulas de educação física, principalmente nos exercícios e agilidade e velocidade. Procurava vingar-nos exercícios que exigiam mais força, ficava a suar que nem uma besta e a arfar como vento.
Paulo colocou a banda gástrica, fez um plano nutricional e começou a correr à beira-rio, conseguindo encaixar-se normalmente numa cadeira de cinema aos dezasseis anos. Até encontrou a miúda dos seus sonhos, talvez por que tivesse recuperado a sua auto-estima. Assim a falta de motivação que reinava lá em casa, encontrou-a em Florência, a professora de ginástica e sua namorada. Esbelta, com tom de pele moreno e corpo tonificado. Ajudou-o a recuperar a forma física, com motivação, um plano alimentar adequado e exercício físico.
Mas havia um sonho que continuava por concretizar. Entrar no desporto automóvel. Se os automóveis são aligeirados no seu peso por forma a se tornarem mais ágeis, velozes e competitivos, o peso de Paulo continuava a ser um obstáculo.
Tenho de ultrapassar de vez esta barreira, pensou. Mas como? Voltou à mesa das operações no Hospital de São João do Porto para colocar um bypass gástrico.
Hoje, com vinte e nove anos, Paulo está a concretizar o sonho da sua vida. É piloto profissional de ralis e está no palco mais fantástico do momento. O rali da Invicta, o Porto Street Stage. Devem estar lá fora cerca de cem mil pessoas a assistir, cogitou. E eu dentro deste carro para fazer a prova especial de classificação com quase dois quilómetros na minha cidade.
Paulo, com setenta quilos e um metro e setenta e cinco de altura, cabelo negro, pele clara, envergava o fato integral azul de competição, decorado com diversos e coloridos anúncios dos patrocinadores. Os sapatos de camurça castanha com emblemas azuis, completavam o equipamento.
| tinta permanente - João Pires - “O peso da determinação” |
Gente a assistir nas árvores, topo superior das paragens de autocarro e até quem tivesse trazido o escadote para não perder pitada, com a Câmara Municipal do Porto como pano de fundo.
Hoje, a partir das 19h, todos os segundos vão contar, meditou Paulo.
Mas ainda havia tempo para levar a passear no seu Mitsubishi Evolution a dona Sara, uma idosa de 83 anos, mas com todos os sentidos apurados, embora com a audição diminuída, que nunca havia entrado num automóvel, exceto daquela vez que foi conduzida na ambulância do INEM com máscara de oxigénio na cara até ao hospital com uma crise de falta e ar.
Mas hoje, a experiência é diferente e a velocidade ainda superior à da ambulância. Paulo vai levar a dona Sara a dar uma voltinha pelo circuito da Invicta, sonho proporcionado pela Realizar dos Sonhos. Depois de a irem buscar ao lar da terceira idade, Sara vinha toda aperaltada, com um chapéu cor de salmão com umas pequenas flores a enfeitar ao longo da aba.
Isto é tudo novidade para mim. Mas a cor viva dos carros, o barulho dos motores, a multidão de pessoas, até é bem curioso. Afinal o barulho dos motores não incomoda nada. Sara havia esquecido que tinha deixado o aparelho auditivo no Lar. Assim, o barulho dos motores soava baixinho como o miar dos gatinhos.
- Bom dia Sara. Como vai ? Perguntou alguém da organização.
Sara não ouviu. Cara com marcas do tempo, olhos pequeninos e estatura mediana. Cabelos brancos como a neve.
- Como vai? Repetiu Paulo em tom de voz elevado.
- Muito bem. Respondi de forma animada. Estou curiosa para entrar nesse caros cheio de cores.
- Vamos trocar o chapéu das flores por este capacete da moda, pediram.
Sara mostrou-se ansiosa. Vamos lá.
Paulo enfiou o capacete e colocou os óculos escuros. Realizei o meu sonho, mas na verdade também é bom ajudar a concretizar o sonho de Sara. Na verdade, faz-me sentir igualmente feliz.
- Sara, entra no carro, ordenou. Está na hora de levantares vôo. Respondeu divertidamente.
- Estou pronta, afirmou Sara.
O motor do Evolution começa a roncar e surge o cheiro a gasolina. Sara começa a sentir uma sensação estranha. Como quando viajou na ambulância com destino ao hospital. Uma espécie de frio na barriga, mas curiosamente parecia que desta vez, não tinha perdido a sua força. Pelo contrário havia um crescendo de adrenalina a circular, porque além do barulho, o funcionamento do motor a carburar a todo o gás, fazia-se sentir pelo corpo.
Mais duas bombadas no acelerador e Sara reage:
- Estou pronta, responde.
Paulo olha de soslaio pela última vez para o capacete de Sara que practicamente escondia o seu rosto. Um último teste ao cinto cruzado, batem as portas e Paulo fixa os olhos nos paralelos da rua que tem pela frente.
- Segura-te.
Acelera a fundo e o Mitsubishi dispara em frente. Lá para trás ficou um intenso cheiro a borracha queimada, enxofre e papel queimado.
Isto é melhor do que eu pensava. É uma sensação muito forte cá dentro. Não praticamente nada lá fora. Não consigo fixar um único prédio ou pessoa. A velocidade é de arrepiar. Mas o que é isso para a minha idade. Começou a sentir-se tonta, depois da segunda curva. Respirou a fundo, tal como lhe pediram na ambulância e a partir desse momento tudo ficou mais claro.
Paulo, concentrado nas ruas da Invicta, fez um passeio pelo circuito, aproveitando para testar a máquina que iria prestar mais uma prova depois das 19h.
No final do passeio e depois de abrirem a porta, encontraram uma Sara nova, com.os olhos marejados e emoção pura.
Sara agarrou Paulo e beijou-o na testa como se do seu neto se tratasse.
Paulo tirou o capacete e despediu-se daquela jovem senhora. Agora tinha que relaxar um pouco para enfrentar as duas classificativas do Rali de Portugal que tinha pela frente mais logo.
O entusiasmo e a alegria dos fãs do automobilismo começa a crescer, à medida que se começam a juntar espectadores não só da cidade, mas também oriundos de outros pontos do país, mas sobretudo os turistas que são apanhados de surpresa e se deixam encantar pela modalidade.
Haviam também quem não dispensasse o farnel composto por rissóis, panados, sandes de presunto em pão-carcaça, fatias de pizza, pastéis de Chaves ou até frango assado com arroz branco. As minis acompanham estes pequenos lanches, ora montados em cima de paragens de autocarros, ora distribuídos por passeios.
Quando chegou a sua vez e partir para a prova de quase dois quilómetros, um turbilhão de ideias invadiu o seu pensamento. A sua infância atribulada, as discriminações de que foi alvo, as batalhas que travou para perder peso e a concretização do sonho que sempre perseguiu. O desporto automóvel. E até a realização do sonho de Sara.
Mas esse tornado de pensamentos não durou mais que uns breves segundos. Agora tinha a classificativa da Porto Street Stage para cumprir. Andar a fundo mas com as devidas cautelas para evitar toques desnecessários, que pudessem comprometer a classificação geral.
Paulo durante a prova não conseguiu perceber que a Estação de São Bento estava a rebentar pelas costuras. Árvores e telhados também serviram para ver os carros a passar a toda a velocidade. A zona VIP esteve sempre com muita gente ao longo de toda a tarde. O horário de expediente foi encurtado para encher as varandas dos escritórios que tinham uma vista privilegiada para o circuito.
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