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domingo, 24 de abril de 2016

tinta permanente - João Pires - "Manhã Maria"


http://tinta-permanente.blogspot.pt/

João Pires

Atrasado, desceu à garagem, esperou e encaixou as crianças no carro, carregou no pedal a fundo para fazer a distribuição matinal do costume. Subiu até ao centro da cidade e deixou o mais velho frente ao instituto de línguas.
- Pisa a passadeira e só atravessas depois de teres a certeza que não vem algum carro ou que já te avistaram para tu passares em segurança, disse-lhe.
- Está bem, assentiu o pequeno, ainda enfadado pelo sono, apesar de serem onze da manhã.

Depois prosseguiu viagem para deixar a mais nova na aula de ténis. O trânsito estava peganhento. Andava a um ritmo vagaroso. Mais à frente ouvia-se música ao vivo proveniente de um acordeão que guinchava notas musicais e uma vaca dançava, acenando para os transeuntes.
- O que é que aquela vaca está ali a fazer, pai?
- Por trás daquela vaca e do acordeão está um talho.
Provavelmente estão  a fazer uma promoção ao talho.
- O que é promoção? Insistiu a pequena.
Promoção é uma espécie de lembrete. Estamos aqui. Venham cá.
- Ah, sim. Já entendi, declarou. Venham cá comprar carne de vaca, conclui.
- Isso.

Que estranho. Uma vaca a dançar ao som da música do acordeão estridente e a convidar para ser comida. O som da música ficou para trás até deixar de se ouvir por completo, abafada pelo ruído do trânsito. Já dentro da pequena rotunda, fez sinal de saída em direcção ao clube de ténis.
Desejou-lhe bom treino, beijou-a na testa e encaminhou-a até à presença da professora Kiri. Depois abandonou o clube, seguiu a pé pelo passeio e algo lhe chamou a atenção. Havia um movimento de pessoas fora do habitual para um sábado de manhã. Escuteiros por todo o lado. Jovens lobitos e os caminheiros.

-Olá, perguntei. Porque é que estão aqui tantos escuteiros?
-Hoje é o dia mundial do escutismo e por isso estamos aqui reunidos, respondeu uma jovem de cabelo cobre encaracolado a cair pelos ombros e sardas a compor rosto.
Segui o meu caminho até à esplanada do costume. Pedi um café ao balcão para servir na esplanada. Cheira a pão quente. O céu estava farrusco mas não prometia chuva. Veio a empregada fardada de laranja de bandeja com o café. Desagradavelmente morno. Decidi não reclamar. Demasiado relaxado para tal tarefa. A esplanada tinha mais duas ou três mesas ocupadas. Na mesa à minha frente estavam duas jovens a produzir selfies com o telemóvel decorado com corações rosa. Olhos em posição sedutora, boca ora entreaberta, ora repenicada em forma de beijo. Batom vermelho carnudo próprio para selfies e cabelos a compor os rostos. Cabeças levemente encostadas e divertiram-se durante uns minutos. O rapaz sentado na sua frente limita-se a acompanhar a produção de selfies e a falar da escola. Elas não prestaram atenção.

Consultei o meu bloco e notas e voltei a ler apontamentos de janeiro de 2015. Como é curioso que apontamentos tão importantes naquela data, tivessem passado à história e até tenham perdido toda a importância. Terminei o café e enfiei o bloco de notas no bolso. Dirigi-me ao balcão e fui atendido por outra empregada de sumo de laranja.
-São sessenta e cinco cêntimos, por favor.
-Aqui estão. Bom dia.
Sai em direção à biblioteca municipal, ali mesmo em frente. Atravessei a rua, fora da passadeira. Minutos antes havia pedido às crianças para atravessar exclusivamente nas passadeiras.

biblioteca
A biblioteca

A parte exterior da biblioteca é constituída por umas réguas metálicas horizontais por forma a fazer sombra no seu interior, produzindo assim uma luz indirecta.
No átrio estava uma exposição de arte de pintores que um dia poderão vir a ser famosos. Pelo menos alguns deles. Subi ao andar de cima, o piso da leitura destinado aos adultos, assim está escrito à entrada.

-Bom dia, atirei à bibliotecária.
-Bom dia, respondeu levantando a cabeça e voltando a mergulhar os olhos num denso volume, depois de ajustar os óculos.

Os livros lá estavam alinhados em cada prateleira, como se estivessem à espera de serem escolhidos e manuseados. Alguns tinham sido abençoados com essa sorte, pois estavam em cima das mesas à espera de serem reconduzidos às suas prateleiras de origem, após um breve registo estatístico. Naquele dia, pressentia que os livros estavam mesmo com vontade de falar. As ideias estavam aprisionadas naquela biblioteca. Por vezes consigo encontrar belos pensamentos em livros quase desconhecidos.
Passei por entre as estantes sentindo que as suas ideias saem cada vez menos à rua. Lá fora vivem o reality show, as selfies, as redes sociais, o botox e outras tantas realidades do século XXI. Uma da tarde. Hora de ir buscar as crianças.