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quinta-feira, 28 de julho de 2016

tinta permanente - João Pires - "Visita ao Oceanário de Lisboa"

tinta permanente - João Pires - "Visita ao Oceanário de Lisboa"

Finalmente chegou o dia para revisitar o Oceanário de Lisboa na companhia dos pais e da Mary a sua irmã mais nova. Depois de algumas voltas pela zona da EXPO’98 lá  encontraram um lugar ao sol para estacionar o carro. Estava calor. Devia estar cerca de trinta graus à sombra. Não corria uma brisa sequer. Esta zona de prédios modernos, que é como quem diz, pois já têm quase vinte anos, e uma zona de ruas traçadas a esquadro. Rectilíneas, ruas largas, com árvores dos dois lados mas ainda assim, não o conseguem eliminar o calor abafado corre em jeito de baforada.

tinta permanente - João Pires - "Visita ao Oceanário de Lisboa"
tinta permanente - João Pires - "Visita ao Oceanário de Lisboa"


Chapéus, óculos de sol, garrafa de água e seguem em direção ao rio para se orientarem melhor.
Atravessam avenidas, passam por rotundas e ate pelo famoso cone gigante de cerâmica ladrilhada de cor laranja, donde escorre água pelo topo, criando uma sensação de frescura passageira com os seus salpicos. Desta vez não imita por completo o vulcão, pois era costume expelir água como uma baleia, do topo, de minuto a minuto, mas desta vez esta sem atividade.

Mais à frente, encontram de queda de água em forma de cascata. Param para tirar uma foto e para aproveitar aquele movimento de água que cria mais um momento de alívio ao calor.
Por trás da queda de água, está um lago ladeado por duas paredes revestidas a cerâmica e com umas frases de escritores portugueses famosos.
- Mary, vamos por aqui, sugeriu Tigas, apontando para o pequeno caminho de pedras dispostas por cima do lago.
No baixo fundo do lago, estão dispostas pequenas pedras de granito, sendo facilmente visíveis da superfície. Tigas salta para uma abertura em forma de janela gigante numa das paredes.
- Tira uma foto, pediu.
- Vamos comprar os bilhetes para entrar no Oceanário, sugeriu Gabriela.
Ao dar a volta à parede do lago, depararam com uma fila mais ou menos grande para comprar bilhetes. Eram onze e meia da manhã. Felizmente a fila faz-se debaixo de uma cobertura criando uma zona de sombra compactadamente fresca.

Passa uma grávida à frente de toda a fila, para comprar os bilhetes.
- Porque é que ela passou à frente de todos?, perguntou a Mary.
- As grávidas têm prioridade sobre as outras pessoas. Carregam um bebé no ventre.
Finalmente chegou a vez de Mary e Tigas.
- Permanente ou permanente e temporária? perguntou a moça da caixa.
- Eu quero a permanente e a temporária, pediu Tigas.
- Permanente e temporária para quatro, sendo dois adultos e duas crianças.
- Então sugiro o bilhete familiar, disse a rapariga algo forte, de cabelos compridos, óculos a escorregar pelo nariz, mas de mãos delicadas, sem qualquer embelezamento extra.
"Multibanco ou VISA", pergunta o terminal de pagamento.
- Ainda não percebi a diferença, se o meu cartão é de débito, mas um dias destes vai fazer-se luz. Estas alterações de pagamento não foram devidamente divulgadas, diz o pai.
Por cima do balcão de atendimento, está um cartaz publicitário. "Venha passar a noite com os tubarões". Tigas fitou pensativamente o cartaz.
- Vamos entrar, pede o Tigas já impaciente.
Mary segue o rasto do irmão mais velho.
- Por onde vamos começar? pergunta Gabriela.
- Vamos primeiro ver a exposição temporária.
Antes de entrarem, deixaram as mochilas nos cacifos no piso zero do Edifício do Mar. Mary colocou uma moeda de um euro, marcou o código secreto e fechou a porta.
- Não te esqueças do código, pediu Tigas.

Logo à entrada são pedidos os bilhetes para validação. De seguida passam por um corredor escuro e começam a ouvir uma música suave, como se viesse das profundezas do mar. Mais ao fundo, deparam com um aquário gigante, em forma de "U", com uma base de areia clara, vegetação constituída por plantas aquáticas distribuída pontualmente, troncos em madeira de árvores provenientes da Escócia e da Malásia, rocha vulcânica dos Açores e pequeninos coloridos peixes tropicais de água doce.

A música continuava a espalhar-se pela atmosfera fresca, com uma certa brisa marítima a percorrer o espaço. Tudo o que não fosse o aquário, era negro: paredes, chão e degraus para observar o aquário. A parte de trás e a zona superior do aquário estão fortemente iluminadas, criando um detalhe e cores únicas das plantas submersas. Esta exposição também pretende chamar a atenção quanto à captura e comercialização de peixes ornamentais, bem como promover a sustentabilidade ambiental.
A beleza da imperfeição, através da recriação de florestas tropicais submersas, leva Tigas e Mary a viver uma experiência única. São mágicos e enigmáticos ecossistemas, oferecendo contemplação, relaxamento e simplicidade, convidando a descobrir a natureza moldada pelo tempo, décadas, centenas de anos, envelhecidos de forma natural, orgânica e bela.
Já passava da uma da tarde e Mary começava a sentir um ronco no estômago. Provavelmente do vazio.
- Tenho fome, reclamou Mary.
- Vamos fazer uma pausa, sugeriu a mãe.
Vieram até cá fora, para uma zona de sombras proporcionada pelos pinheiros mansos, plantados à beira-rio.
Sentaram-se nos bancos coloridos dispostos ao longo do rio. Sumos de fruta, sanduíches de frango e de queijo fresco e beterraba. Massa chinesa com vegetais e algas marinhas com molho de soja.
O ar estava abafado, mesmo à sombra das árvores. Não corria brisa. A água do rio batia ritmadamente na margem de pedra. Mais ao longe vê-se a ponte Vasco da Gama que parece nascer na margem norte e desaparece no horizonte. A margem sul não se consegue avistar daquele ponto, dando a ideia que o mar começa ali e só termina noutro continente. Lá em cima, vão passeando lentamente as cabines do teleférico, mostrando uma perspectiva aérea da zona da EXPO'98.

De súbito, começa a arrefecer, o céu fica carregado de nuvens, ameaçando uma tempestade em pleno Verão. Estranhamente, Mary e Tigas começam a flutuar e a viajar para o interior do Oceanário. Escureceu definitivamente. O sol não voltou. Começaram a explorar o interior do Oceanário, sós. O último visitante tinha acabado de passar por eles, mas não tinha dado conta da sua presença. A luz começou a diminuir. Os tubarões destacam-se no aquário principal, através da parca luz vinda do alto. Mary e Tigas não conseguiam encontrar a saída. Quem sabe se os tubarões são boa companhia para dormir? Com aquele olhar intimidante?
- Nem pensar, diz Mary. Quero sair daqui para fora e já!
- Se não encontrarmos uma saída, vamos ter que arranjar outra solução, sugere Tigas.
- Aquela pele áspera, os dentes enormes, a velocidade estonteante e o olhar intenso dos tubarões, provoca-me arrepios na espinha.
- Tem calma, tudo há-de correr bem.
Envia uma SMS aos pais. Eles hão-de saber como nos tirar daqui para fora.
- Ups. Não trouxe o telemóvel.
- Não quero passar aqui a noite.
- Vamos ter com a Micas e a Maré.
- E qual é o caminho?
- Basta seguir a direcção do Oceano Pacífico, para encontrar as lontras marinhas.
Mais uma vez passam junto ao aquário principal e cruzam com um tubarão gigantesco, com os olhos postos nas crianças. Afastaram-se imediato do vidro.
- Parece que vamos ter que passar a noite por aqui, diz Tigas, olhando em volta à procura de uma saída.
- Brrr. Não queria nada, treme Mary.
- Tigas olha para o interior do aquário principal, enquanto se dirigem para a ala do Oceano Pacífico.
- Para onde estás a olhar, Tigas?
- Parece que os peixes estão a diminuir a sua actividade. Parece que se estão a preparar para dormir.
Entretanto chegam ao Oceano Pacífico e encontram a Micas e a Maré de mãos dadas enquanto dormem. Eles acharam a situação enternecedora.
- Na verdade, as lontras marinhas dão as mãos no alto-mar em pequenos grupos do mesmo sexo, para não se perderem e não por questões afectivas.
- Não deixa de ser ternurento, diz Mary, ao apreciá-las.
Arranjaram um lugar com vista para o aquário principal, mas a uma distância segura, pois os tubarões ameaçavam partir o vidro para vir buscá-los. Sentaram-se, pousaram a cabeça entre os joelhos e deram as mãos, tal como a Micas e a Mare. Talvez para não se perderem neste sonho.
Esta é uma experiência que estimulou os sentidos da Mary e do Tigas até ao limite, através da visão de um cenário submerso e misterioso. De vez em quando, ouvem-se uns ruídos, como que ruídos abafados vindos do aquário principal. Uns lamentos do fundo do Oceano. Qual seria a espécie capaz de produzir aqueles sons profundos? Finalmente chegaram os primeiros raios de luz. Para além da noite, de manhã o Oceanário também foi só da Mary e do Tigas, pois passaram invisíveis ao lado dos tratadores e aquaristas. Quem diria que os tubarões podem ser uma boa companhia para dormir? Os 8.000 animais e plantas tornaram-se na melhor companhia para passar uma noite fora de casa, proporcionando uma experiência única. Como é que se alimentam tantas criaturas marinhas, como é que se mantém a temperatura de um aquário com cinco milhões de litros de água, tudo isto são questões que deixam Tigas fascinado. Mary deixou-se encantar pela ternura de Micas e Maré.
- Acorda, pediu o pai com um beijo na testa de Tigas.

A mãe beijou Mary no doce pescoço. Tudo não passou de um sonho nocturno. Mas não esquecem que o Oceanário é o espaço ideal para envolver e sensibilizar para a conservação da natureza.

tinta permanente - João Pires - "Visita ao Oceanário de Lisboa"
http://tinta-permanente.blogspot.pt/2004_07_01_archive.html#109110658022106129https://www.oceanario.pt/