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domingo, 4 de dezembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "Quando eu era pequenino"


tinta permanente - João Pires - "Quando eu era pequenino"

Quando eu era pequenino

Tinha mesmo acabado de nascer. Ainda não abria os olhos mas já reconhecia o perfume de uma mulher. Foi amor ao primeiro contacto, logo depois de nascer. E tudo era novo. O dia e a noite. Dormir e permanecer acordado. Nasci com o sono trocado. E sempre sono leve. Atento ao que se passava à minha volta. Mas precisava de sentir o perfume da tua pele a todo o momento. Esse era o meu sinal de que tudo estava bem. A minha segurança. O meu porto de abrigo.
Depois vieram as primeiras visitas. A do meu pai que logo sorriu para mim. Depois outros olhos curiosos e bem abertos. A do meu tio que quase enjoou para cima de mim. Deve ter sido da emoção de ver um ser acabado de nascer.

tinta permanente - João Pires - "Quando eu era pequenino"
tinta permanente - João Pires - "Quando eu era pequenino"


Quando eu começava a chorar, vinha logo a mama. Mesmo que não tivesse fome e fossem apenas dores de barriga, servia para acalmar. Trazia-me o conforto que ainda hoje guardo no meu coração. Eu aprendi que se chorasse , tu me davas a mama e isso era reconfortante. Ou vinha o pai e pegava em mim ao colo. Também sabia bem. Quase que não tive tempo para aprender a dormir sozinho. Vocês embalavam-me no berço ou seguiam de carro para dar um passeio, à noite, à beira-rio e eu acabava por adormecer ao som do motor do carocha e das ruas feitas de paralelos. Ficavam para companhia, apenas as luzes laranja reflectidas na água calma do rio. Até adormecer.

Naquele dia cinzento e chuvoso de Inverno. Foi o dia que escolhi para nascer. Depois percebi que me aguardava a doce Primavera de 66. Os perfumes da natureza misturavam-se com os teus. O perfume de mãe e as essências florais que nunca esquecerei.

Pudera eu segurar nas minhas mãos nem que fosse por um dia, por uma hora, por um minuto, todas as coisas boas que me proporcionaram durante esta caminhada. A beleza das coisas, de uma simples flor, um sorriso, uma carícia, uma brincadeira, uma malandrice, o céu azul, as ondas do mar, ah, essas ondas do Oceano Atlântico, subir à montanha, uma música, uma palavra. Sabes? Sentimentos dos bons.

Os teus cuidados, a tua sopa.
Mas não é sempre assim. Percebi que ao fim de todos este caminho, a vida nem sempre é assim. Tenho a solução.
Primeiro tenho que esvaziar o meu coração como quem arruma uma gaveta. Depois volto a preenchê-lo, cuidadosamente. Um por um. Só com coisas que quero guardar para sempre!

Por cima ficará o sonho!

3-Dez-2016

João Pires