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quinta-feira, 19 de maio de 2016

tinta permanente - João Pires - "Pintar as cercas em madeira do jardim"

A Primavera tinha chegado. A casa estava a precisar de uma reforma. As cercas em madeira do jardim perderam o verniz ao longo dos anos. Alberto foi o responsável pela sua manutenção durante as últimas Primaveras. As crianças foram crescendo, mas a mais velha tinha apenas dez anos.
Helena não percebia nada de reformas. A última experiência aconteceu com a pintura do quarto do filho, que começou no tecto, passou pelas paredes e acabou no chão e nas portas. Enfim, uma desgraça.
Tiveram que chamar alguém para finalizar a obra.
Mas agora aquela tarefa estava entregue a si mesma. Como é que vou resolver este problema?, pensou.


tinta permanente João Pires Pintar as cercas em madeira do jardim
tinta permanente - João Pires - "Pintar as cercas em madeira do jardim"

Naquela Sexta-Feira, depois de levar as crianças à escola, passou pela loja de tintas da vila.
- Bom dia. Estamos na Primavera não é verdade?
- Sim. É verdade. Em que posso ajudar?
- Preciso de pintar as cercas em madeira do meu jardim.
- Temos tudo o que vai precisar, respondeu o empregado.
O empregado é um homem dos seus trinta, alto, bem constituído, cabelo negro, pele morena, um sorriso alvo. Demasiado à vontade para ser empregado.
- Com a chegada do bom tempo, quero aproveitar o ar livre e usufruir do espaço confortável na minha varanda e do meu jardim, confessou.
- Claro, respondeu, mostrando-se interessado em ajudar. Quer as cercas do seu jardim, bem como o mobiliário em madeira devem receber um tratamento especial para estar sempre no seu melhor.
Pois então, convém não deixar de seguir algumas dicas importantes para conseguir um ambiente agradável nos dias quentes em sua casa, respondeu o empregado, mostrando-se disponível em ajudar.
Helena, uma mulher na casa dos quarenta, sentia-se só. Tinha sido mãe pela primeira vez aos trinta. E tudo tinha passado muito rápido até chegar aquela fase de solidão.
Pele clara, cabelo comprido escuro, alguns sinais do tempo espalhados pelo rosto, mas mantinha uma silhueta pouco habitual na sua idade, capaz de fazer inveja a muitas mulheres.
- Primeiro vai ser necessário lixar as madeiras, em toda a superfície, para remover os restos de tinta. Mas lembre-se, declarou aquele simpático empregado, sempre no sentido dos veios da madeira. No caso de madeiras com vernizes ou esmaltes deve remover-se todo o revestimento lixagem e/ou decapagem.
- Decapagem? perguntou como que surpreendida.
- Bem, na verdade, o processo de decapagem, aplica-se aos metais ferrosos. Neste caso é mesmo um processo de lixagem, corrigiu o empregado.
- Nesse caso, sr…
- Tiago, ao seu dispor.
- Sr Tiago, vou levar em primeiro lugar as lixas e ver como vai decorrer o processo.
- Aqui tem, duas lixas para madeira nr 80 e duas lixas nr 220, para começar.
- Porquê a numeração diferente? Helena começava a achar que o melhor seria encomendar o trabalho a alguém, mas ainda assim estava determinada em tentar por sua conta.
Pagou, depois de perceber que as lixas com numeração diferente têm as suas próprias finalidades e recebeu em troca o saco com o material.
Saiu da loja, eram cerca das onze da manhã, o tempo primaveril ameaçava alguns chuviscos.
Ainda assim decidiu arriscar naquele mesmo dia. Chegou a casa, e decidiu experimentar desde logo as lixas na madeira. Começou por usar a lixa mais grossa que serve para descascar os restos de tinta que ainda perduram nas madeiras da cerca. Começou a soltar um pó fino dos restos de tinta e logo depressa descobriu que tinha pó no cabelo e na roupa.
Foi a casa trocar de roupa e enfiou uma touca de plástico no cabelo, daquelas que os hotéis costumam oferecer, e calçou umas luvas de plástico que se recolhem nos postos de abastecimento de combustíveis. Retomou a tarefa.
Já passava da uma da tarde. Decidiu fazer uma pausa para comer qualquer coisa. O céu continuava a ameaçar e de súbito começaram a cair uns pingos de chuva. Quando terminou a sua breve refeição, espreitou lá para fora e o céu estava a desanuviar.
Voltou à tarefa a que se tinha proposto. Começava a ficar cansada daqueles movimentos repetitivos. As dores surgiam nos músculos dos braços. O que seria de si sem os braços? Sem a capacidade de movimento e de força? Não seria capaz de executar tarefas tão básicas como comer e beber, pensou.
Noutros tempos, queixava-me por estar longas horas frente ao computador, nomeadamente com dores ao nível do pulso, pelo facto de manusear o rato.
Já passava das quatro. Foi tomar um duche para depois ir buscar as crianças à escola. Helena não trabalha. Havia decidido tomar conta das crianças a tempo inteiro, vivendo apenas da pensão de viuvez de Alberto. Mas começava a sentir necessidade de fazer algo de produtivo. Talvez por isso, tivesse decidido levar por diante aquela empresa. Talvez venha um dia a fazer algo mais, como escrever um livro de poesias.
O perfume das flores andava no ar. A cor azul próxima de um tom índigo, é oferecida pela flor Ásia Douro. A pacata vila junto ao Douro é um lugar bom para viver, com uma paisagem própria do Éden, a tranquilidade espalhada pelas águas calmas do rio em tons de verde azeitona e os santuários distribuídos pelos montes e vales. Havias as festas e romarias. Um piquenique com as crianças à beira-rio e algumas histórias engraçadas. Helena estudou História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, mas nunca deu aulas, pois havia decidido mudar-se com Alberto para aquele simpático lugarejo perto do Pinhão. Agora está entregue a si própria e tem as crianças para educar.
Na segunda-feira dirigiu-se novamente à loja de tintas, à espera de encontrar aquele simpático empregado. Tinha sido bem tratada por ele e isso criou alguma expectativa. 
- Bom dia, atirou para o balcão.
- Bom dia, respondeu um homem de baixa estatura e bigodinho.
- O Sr Tiago, o vosso empregado, está?
- Ele é o sócio desta empresa. Tiago Silva. Vou chamá-lo.
- Ahh, exclamou Helena.
De súbito, surge Tiago, de camisa branca, calças de ganga, pele morena e cabelo liso curto. Dirige um simpático sorriso a Helena e cumprimenta-a percorrendo o seu corpo com um olhar discreto.
- Bom dia. Como vai?
- Muito cansada. Passei o fim de semana sozinha a tratar das grades. Se ao menos tivesse alguém para me ajudar…
- O próximo passo, será aplicar uma demão de tratamento preventivo com xylophene. Terei muito gosto em mostrar como se aplica e até dar uma ajuda.
- O sorriso desenhou-se no rosto de Helena, com um ligeiro rubor nas faces.
- Amanhã por volta as dez passarei por sua casa para lhe mostrar como se aplica o produto.
- Combinado respondeu Helena, levantando os sacos com as latas de xylophene.
- Até amanhã.
No dia seguinte, por volta das dez, chegou uma carrinha cinza prata. Aproximou-se do portão principal num verde musgo desbotado, faltando pedaços de tinta, onde criara ferrugem. Apitou duas vezes.
Helena espreitou pela janela da sala. Logo de seguida veio até cá fora e acenou em sinal para entrar.
Cumprimentou-a fixando-a nos olhos. Helena tentou relaxar. Inalou o seu perfume a madeiras exóticas, sentindo-se inebriada, fixando-se por breves instantes nos seus lábios, desviando de seguido o olhar para as cercas em madeira.
- Estavam mesmo a precisar de uma pintura, disse.
- Sim, vamos lá dar uma ajuda.
- Obrigado, não sei como lhe agradecer.
- Com um café e uma boa conversa, fazendo novo contacto visual, com os olhos azuis de Helena, como se procurasse o seu assentimento.
Levaram as latas de xylophene para o exterior e Tiago perguntou pelos pincéis.
- Não comprei. E agora? perguntou com ar de aborrecida.
- Não se preocupe. Eu trago sempre um kit com amostras de pincéis.
- Já me salvou o dia, respondeu num tom amigável, tocando ao de leve no seu ombro.
Tiago aplicou o produto nas cercas em madeira, exemplificando com movimentos suaves e contínuos. Helena, observou a aplicação do produto, mas também apreciou os seus ombros largos, dando um sinal de força e masculinidade. As suas mãos grandes, grossas e limpas vão passeando pelas tábuas de madeira da cerca, enquanto aplicam o produto.
Depois de terminar a cerca, Helena perguntou se ele poderia aplicar o produto no móvel antigo em madeira.
Respondeu afirmativamente, embora sugerindo que ela deveria tentar passar o xylophene na madeira do móvel. Segurou-lhe suavemente na mão com o pincel, molhando na lata e espremendo ligeiramente contra o rebordo da lata, criando uma proximidade tal que sentia o perfume de citrinos que emanava do seu pescoço, sentindo-se tentado a encostar os lábios.
Helena estava a gostar daquela ajuda. Também sentia o seu peito firme encostar à sua pele.
Pousaram os materiais e olharam fixamente nos olhos, aproximando-se de uma forma quase magnética culminando num toque entre os seus lábios, mordiscando até acontecer o beijo, num acto de entrega e intimidade provocando um certo nervosismo em ambos. Helena sentiu as suas mãos fortes percorrer os seus cabelos, nuca, costas e cintura, descaindo até às coxas.
- Ficamos por aqui, respondeu de forma atrapalhada, sentindo ainda o sabor almiscarado do beijo.
- Até amanhã, respondeu. Qual vai ser a cor da tinta? Branco ou verde-musgo.
- Vou mudar para branco. Preciso de ir lá buscar as tintas?
- Não. Eu trago amanhã tudo o que é preciso.
Estava na hora de ir buscar as crianças. Enquanto conduzia, cantarolava uma canção de infância, sem saber porque é que se tinha lembrado naquele momento.
Estava ansiosa pela chegada do dia seguinte, como uma criança espera pelo dia 25 para abrir as prendas de Natal.
Passava das dez e meia e nada. Será que aconteceu algo? Será que ainda vem? pensou. Calma, estás a exagerar, denotando alguma ansiedade. Dá mais um tempo, falou com os seus botões.
Ao fundo da estrada ouve-se o barulho de um carro. Já está a chegar. Depois verificou que se tratava de um carro vermelho, tendo ficado desiludida. O carro parou junto ao portão e saiu um homem de fato macaco e de óculos escuros e boné.
- Bom dia, disse, acenando com a mão.
- Bom dia, respondeu ainda meio incrédula.
Era Tiago, que vinha equipado para pintar a cerca.
- Por uns momentos não te reconheci.
- Sou mesmo eu, respondeu com uma gargalhada, realçando o seu sentido de humor.
Tirou as latas de tinta branca para pintar as cercas do jardim que também pedia alguns cuidados.
- Preparada para começar?
- Um minuto. Vou vestir uma camisa velha.
- Queres ajuda?
- Não. Obrigada.
Em dois minutos desceu preparada para começar a tarefa. O dia estava solarengo, correndo uma ligeira brisa. Os trabalhos de pintura decorreram sem sobressaltos. No final a cerca ficou branca como a neve, melhorando todo o seu aspecto.
Helena convidou Tiago para tomar uma bebida fresco, que aceitou prontamente. Foram lavar as mãos, deslocaram-se à cozinha e sem dar tempo de abrir o frigorífico, Tiago rodou-a para si e segurou o seu rosto de modo a fixá-la com os seus olhos negros e grandes. Beijou-a longamente, numa manifestação de muito carinho e paixão, num abraço envolvente até à alma.
- Amanhã venho dar a segunda demão.
- O que é isso? perguntou ainda sem ar.
- Necessita de uma segunda camada de tinta a fim de tornar a pintura mais uniforme.
No dia seguinte, lá apareceu por volta das onze para terminar o trabalho em casa de Helena. Pintou com uma segunda demão as cercas e com alguma ajuda de Helena que ainda sentia os braços doridos. No final da pintura, perguntou-lhe, com um sorriso nos lábios:
- Queres água fresca?
- Sim, respondeu sem quebrar o contacto visual com Helena.

Subiram para se refrescarem. Ele abriu-lhe a porta para lhe dar passagem e no corredor, segurou-a por um braço e apertou contra si. Beijaram-se demoradamente, colados entre si como se estivessem na fábrica do amor.

tinta permanente - João Pires - "Pintar as cercas em madeira do jardim"


tinta permanente João Pires

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Suave ditadura na Pérola do Atlântico

A pérola do Atlântico

Os parabéns pelos actos governativos do actual presidente do governo regional da Madeira encontram-se lavrados em acta por ocasião da celebração do 30• aniversário de governos sucessivos do Dr Alberto Joao. Falta saber quem são os verdadeiros autores desses rasgados elogios.
 
Ser apanhado de surpresa com o buraco financeiro na Madeira é quase tão ingénuo como afirmar que a responsabilidade do Governo Regional deve ser julgada nas urnas.

Em boa verdade, há várias décadas que essa avaliação vem sendo feita e os resultados estão à vista de todos. 
 
O povo madeirense está atento e tem perspectiva muito critica do que vem sucedendo na Ilha da Madeira. Basta ouvir os madeirenses !

Que esta situação se vem adensando de ano para ano está à vista de todos, principalmente quem já passou pela ilha.

O princípio do "Estado unitário" - artigo 6.º da CRP - a "soberania una e indivisível" - artigo 3.º da CRP - ou até, porque não, o "pluralismo de expressão e organização política democráticas" - artigo 2.º da CRP parecem não se aplicar até então àquele governo regional que tem sabido gozar de certa imunidade diplomática.

Com a crise financeira instalada na europa e em Portugal em especial e a sua recuperação a ser monitorizada pela troika, chegou o fim das sucessivas presidencias do Dr Alberto Joao Jardim.

A iliteracia democratica na ilha é bem diferente da ocorrida no continente há uns meses atrás. É que no continente existe liberdade de voto na verdadeira acepção da palavra!

É que as mudanças de tendência também podem acontecer na ilha, basta os eleitores assim o pretenderem!

Ass.: o contribuinte português

Abreu Pires