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quinta-feira, 9 de junho de 2016

tinta permanente - João Pires - "EURO 2016 - Quem vê futebol"

Em pé, mão direita ao peito, cachecol ao pescoço, cara levantada, gel no cabelo, peito e goelas abertas prontas para entoar o hino de Portugal. A completar calças jeans, camiseta vermelha com verde à volta do pescoço, sapatilha de pano colorida e sola de borracha branca. Assim estão o João, o Joaquim e o Paulo frente a TV de ultima geração, tecnologia 4K, com o som do estádio a invadir toda a casa. O tapete da sala foi substituído por relvado sintético, para causar a vibração de estar dentro dos quatro cantos.


Quando Portugal joga, as cores dos clubes do João, do Joaquim e do Paulo ficam cada uma em sua casa. O azul, o verde e o vermelho isoladamente não jogam. Está na hora de trazer o vermelho em conjunto com o verde para cima da camisola. É Portugal que vai jogar e nada mais interessa. Tremoços e minis em cima da pequena mesa de apoio. A bandeira nacional está pendurada à janela exatamente como o presidente da república pediu. Os amigos já estão reunidos lá em casa e começam a cantar o hino acompanhando assim a emissão pela TV. O sistema de som surround 2.1 com uma potência de 300W ajuda a simular o som do Estádio de Futebol. Ligado por bluetooth para evitar tropeções em cima de fios traiçoeiros, principalmente depois de nove ou dez minis. Parece que os jogadores estão mesmo naquela sala e os adeptos sentados ao meu lado.


Desta vez estou com Portugal para viver todas as emoções de perto e ao vivo, que é como quem diz, pela TV de alta definição.
No entanto se Portugal chegar até à final, então vou comprar os bilhetes de avião e para o jogo e voar até Saint-Denis no próximo dia 10 de Julho. João pergunta aos seus amigos se se lembram qual foi a primeira edição do Campeonato Europeu de Futebol.
- Foi em Inglaterra nos anos setenta, arrisca Joaquim.
- Não. Foi em França em 1960 e teve e União Soviética como primeira vencedora.
- Duvido, questiona Paulo. Ainda não éramos nascidos.
As equipas entram em campo e o clima de tensão aumenta. Cumprimentam o árbitro e depois os respectivos capitães de equipa aproximam-se do árbitro para decidir o lado a ocupar. Moeda ao ar. Portugal joga do lado direito na primeira parte. Mais dois tremoços e uma mini abaixo para acalmar os nervos. Paulo coloca o som mais alto. O apito do árbitro espalha-se por toda a sala.
Joana, Mafalda e Rute até agora na cozinha, entretidas a falar de futilidades, começaram a ficar fartas de estar por ali. Ainda por cima faltam, pelo menos noventa minutos, fora os descontos e desempate do jogo se tal vier a acontecer.
- Vamos jantar fora, atira Joana.
- Isso, vamos arejar. Estou farta de estar aqui presa, responde Mafalda.
- Boa. E se fossemos até um bar com música ao vivo, depois do jantar? pergunta a Rute.
Foram arranjar-se para sair. Entretanto os treinadores de bancada, lá embaixo, na sala, arriscavam palpites.
- Foge com a bola.
- Corre para a frente.
- Cuidado com o carrinho.
Desta vez o torneio vai ser disputado por 24 seleções, o que vai aumentar a competitividade mas também vai introduzir um maior grau de aleatoriedade nos resultados.
De repente, o super ecrã da TV mostra uma imagem potencialmente ameaçadora. O camisola número um está de costas do lado direito do ecrã, braço esquerdo esticado e luva bem aberta. Um pouco mais ao lado esquerdo, mas enquadrado no ecrã, está um jogador em perfeita suspensão, deitado sobre o seu lado direito, pronto para fazer um golo de bicicleta. A bola está perfeitamente ao centro do ecrã a espreitar as malhas da rede. Perna esquerda esticada prestes a tocar a bola e perna direita flectida. A sua mão direita quase que toca o relvado. Como eu gostaria de ver a cara do guarda-redes. Mas a avaliar pelo cabelo encrespado, pois a definição 4K e o sistema HDR permitem observar cada fio de cabelo, a sua expressão deve revelar alta concentração no esférico.
Chutou a bola em cheio e vem disparada a baliza de Portugal. João, Joaquim e Paulo tremem fruto do clima de grande tensão que se vive naquela fração de segundo. Logo de seguida, dois dedos da luva do guarda-redes tocam na bola com a força necessária para a desviar por cima da trave.


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tinta permanente - João Pires - "EURO 2016 - Quem vê futebol"


Suores frios atravessaram os rostos dos rapazes. Mais uma mini para acalmar. Os tremoços não passam pela garganta, devido ao sufoco do momento. Joana, Mafalda e Rute não se apercebendo do instante, chegaram logo depois para anunciar que iriam jantar fora, o que colheu o assentimento dos três com um simples abanar de cabeça.
As cores mais definidas e contrastes realistas continuam a trazer o relvado para dentro da sala.
O João chamou a Rute mas não obteve resposta. 
- Rute, chamou. Traz os salgadinhos amor, insistiu.
- Elas saíram, respondeu o Paulo.
- Saíram? Como? Não dei por nada.
- Pois não. Estamos tão concentradíssimos no relvado, que as nossas mulheres saíram e nem demos por ela.
João levantou-se e foi à cozinha buscar os rissois, pasteis de bacalhau e chamuças que a Rute havia comprado para esta ocasião. As batatas fritas e os tremoços estavam quase no fim à custa de um quase golo!
Ficou com uma estranha sensação de desconforto por não ter recebido qualquer resposta de Rute, mesmo sabendo que elas tinha saído para ir jantar fora.
Joaquim olhava para o telemóvel de vez em quando.
- Estás à espera de alguma chamada? perguntou o João, em tom de brincadeira.
- Não. Instalei uma app que me dá todas as estatísticas em tempo real do jogo e algumas curiosidades.
- Boa, assentiu o Paulo. Como se chama?
- Pé-na-bola, respondeu Joaquim
- Relata uma curiosidade dos Europeus, pediu Paulo.
- Em 1984, Portugal apurou-se pela primeira vez para um Campeonato Europeu. Além de alcançar as meias-finais, tem dois jogadores eleitos para a equipa ideal do torneio: João Pinto e Fernando Chalana.
- Ninguém fala das cotoveladas que o Jordão apanhou às escondidas das poucas câmaras de TV, queixou-se o João.
O jogo começava a aquecer, mesmo antes de a bola ter entrado nas malhas da baliza. Paulo foi buscar o mini barril de cerveja, pois o corre-corre para a cozinha para ir buscar mais uma mini, poderia ser um mau prenúncio. Há que dar apoio à equipa portuguesa em todos os segundos do jogo. Depois do barril instalado na mesa de apoio, toda a atenção se voltou para o ecrã.
O Euro 2016 marca a estreia de mais cinco seleções em Campeonatos Europeus de Futebol: Albânia, Islândia, Irlanda do Norte, Eslováquia e País de Gales.
Entretanto, a Joana, a Mafalda e a Rute apanharam pelo caminho a irmã mais velha da primeira.
- Entra no carro. Vamos para a festa, ordenou Joana.
- Olá a todas, respondeu Inês.
Rumaram ao restaurante passavam das 21,45m. Quando entraram, deparam-se com um ambiente de festa, com um público quase exclusivamente feminino. Nada de TVs com fundos verdes ou bolas a girar no ar. Apenas uma banda de música ao vivo e uns aperitivos servidos à entrada com a entrega em simultâneo de uma flor como prova de boas-vindas.
As mesas estavam decoradas com velas e flores como se de encontros românticos a dois se tratassem, mas o cenário era outro. Grupos de belas mulheres que estavam por ali para fugir ao futebol e para se divertirem um pouco.
- O jogo já começou há meia hora, anunciou Rute.
- Esquece o jogo, respondeu Inês. 
- Isso. Estamos aqui para nos divertirmos, assentiu Mafalda.
Depois de instaladas na mesa, olharam para a ementa. Não tinham grande apetite, pois já tinham petiscado em casa. Pediram um vinho branco João Pires bem fresquinho para iniciar.
A música tornou-se mais animada quase a convidar para dançar, mas o jantar ainda estava prestes a iniciar. Olharam em volta e o ambiente apesar de exclusivamente feminino, estava animado.


Lá por casa, o jogo mantinha os três ligados ao ecrã. E um pouco por todo o país, nas casas, nos cafés, nos telemóveis, nos tablets e ainda nos pequenos rádios de bolso, tudo serve para acompanhar o jogo de Portugal contra a Croácia. O trânsito reduz-se significativamente naqueles noventa minutos, mas também as entradas de urgência nos hospitais ou até no regresso a casa. Parece uma espécie de paragem temporária em toda a Europa. Muitas unhas roídas pelos nervos. Eles desligaram de tudo o que os rodeia habitualmente. Mesmo tudo. E fica sempre a esperança de festejar a vitória no final de cada jogo. De vitória em vitória até à conquista final. Está tudo em aberto. Para celebrar cada vitória com um sabor especial.
E a vitória final vai acontecer em Saint-Denis, Estádio de Franca, com lugar para 81.338 espectadores, sendo o quinto maior Estádio da Europa. Foi o palco da final do Mundial de 1988, onde a França se tornou campeã.
- Se Portugal for à final, eu vou lá estar, promete João
- Conta comigo, responde Joaquim
- E tu Paulo?
- Claro que sim, contem comigo. É uma oportunidade única.
De súbito surge um alerta na app pé-na-bola. Registaram-se 34 golos nos 15 jogos disputados no Euro de 1988. Todos os jogos tiveram golos. Com cinco, o holandês Marco van Basten sagrou-se o melhor marcador.
O jogo estava próximo do final do primeiro tempo e não havia forma de a bola entrar nas malhas do adversário. Geralmente nos primeiros minutos de jogo ou a sorte vem ter connosco de forma gratuita e o golo entra sem ninguém dar por ela, ou apenas serve para dar a conhecer as estratégias de cada equipa, havendo assim um processo de ajustamento até descobrir o calcanhar de aquiles do adversário.
Entramos no período dos descontos. Três minutos.
Tudo pode acontecer em quatro minutos. A 26 de junho de 1992, a Dinamarca protagonizou uma das maiores surpresas do futebol ao derrotar a Alemanha no final do Europeu, isto depois de nem sequer se ter qualificado para o torneio, pois substituiu a última hora a Jugoslávia, que entrou em guerra civil.
Portugal ainda não está entre os países que conquistaram o Campeonato Europeu. Até à data foram a Alemanha e Espanha, três vezes cada, Franca, duas vitórias, União Soviética, no primeiro campeonato, República Checa, Holanda, Dinamarca e Grécia.
No Euro 2004, disputado em Portugal, o jogo que arrancou o torneio foi também o que o fechou. Em ambos os casos, Portugal foi derrotado pela Grécia.
João tinha dado tudo por tudo para que este campeonato se desenrole a favor de Portugal. Tem mesmo fé que a nossa seleção siga em frente, no futebol. A um canto, está arrumada a mesa de Subbuteo, o clássico jogo de futebol de mesa, não para jogar, mas para desenvolver as táticas de jogo. Posicionamento dos jogadores, estratégias, trajetória da bola. Tudo foi pensado ao pormenor para cada jogo.
A esta altura os cabelos alinhados e com gel, perderam a sua postura, porque o jogo não estava a ter a evolução desejada. Mais uma coxinha de frango acompanhada de uma mini.
Paulo tem mais de cem histórias de futebol para contar. Desde os tempos que ia ao Estádio com o pai e os amigos dele, pelas experiências vividas e contadas na primeira pessoa, por jogadores, treinadores e árbitros, mas também por personalidades da sociedade portuguesa que se distinguiram nas mais diversas áreas, desde a música até à escrita.


Agora decidiu entrar no torneio de gaming FIFA 16. É mesmo a sério e João quer provar que é o melhor. Quando o jogo acabar vai ligar a XBOX para começar esse campeonato.
- É preciso encontrar no futebol o alento para que os portugueses voltem a sentir orgulho, diz Paulo durante o intervalo, enquanto mordisca uma chamuça.
- Como estarão as meninas? pergunta João.


A festa estava animada na mesa das quatro. Depois dos enroladinhos de meloa, presunto e mozarela, veio massa com cogumelos selvagens para a Rute, arroz de camarão para a Inês e empadas de peru com maçã e queijo da serra para as restantes. No final saborearam uma espetada de frutas da época com dois chocolates, cheesecake de mirtilos e torta de limão, coco e mascarpone para partilhar por todas.


Ainda não tinham terminado as sobremesas e ouve-se uma voz vinda do escuro.
- Olá meninas e senhoras. Para compensar esta noite de futebol, vimos apresentar um espetáculo de strip masculino.
Ouvem-se gritos de entusiasmo nas outras mesas. Paira um misto de surpresa e admiração no grupo da Rute. Baixam as luzes e principia a musica de Joe Cocker “You can leave your hat on”. Os focos concentram-se num lado da sala, até agora permanecido no escuro e começa a desenhar-se um homem bem esculpido e de pele morena, sentado de frente para o público feminino e apoiado nas costas da cadeira, chapéu de coco na cabeça, camisa branca e laço preto ao pescoço. Óculos em massa preta, mas sem lentes. Apenas para dar um ar intelectual.
- Este é o meu futebol, gritaram da mesa ao lado.
Arranca a camisa, ficando apenas o chapéu preto, o colarinho com o laço e os punhos da camisa, exibindo um tronco trabalhado no ginásio, bronzeado e pele brilhante. Curiosamente sem o registo de uma só tatuagem.
- Muito fraco a dançar, ouviu-se do outro lado.
O stripper foi até lá exibir o seu corpo bem desenhado, mais de perto e os comentários até melhoraram.
As meninas estavam divertidas com o espetáculo. Depois vem a música “No Ordinary Love” da Sade e o clima da sala vai ao rubro.

A noite está quente, o céu está limpo mas não há estrelas! Mas o jogo não está de feição para a Seleção das Cinco Quinas, nem com todos os autocolantes espalhados nos vidros traseiros dos carros de meio mundo, traz a força necessária para resgatar a glória. Teimava na indecisão. Passava dos oitenta e cinco minutos. O João já não tem unhas para roer. Os jogadores, apesar de cansados não desistiam e o público lá no estádio, sempre a puxar pelas Quinas.
As colunas de som estavam quase no máximo, o tempo estava a esgotar-se.
Faltam três minutos e já se preparam para os penaltis, quando a bola sai de Cristiano Ronaldo em direção à baliza da Croácia, encontrando uma barreira no guarda-redes mas Ricardo Quaresma vai ao ressalto da bola e empurra-a com a cabeça para dentro das malhas da baliza.
- Goolooo, ouviu-se por todo o lado. Naquele minuto foi transformado em herói nacional.
Do lado de cá da TV, pode ainda rever-se a jogada em replay, mostrando de costas o guardas-redes em posição de defesa, tentando adivinhar o percurso da bola. O movimento de cabeça foi mais ágil e conseguiu introduzir a bola na baliza sem que o guarda-redes tivesse a oportunidade de a desviar. Um golo de Ricardo Quaresma pôs um país inteiro a gritar por Portugal.
- Goooloooo, voltaram a gritar durante o replay, em jeito de comemoração.
O jogo terminou e a festa começou.
Pouco antes da meia noite, chegavam as meninas, divertidas, tal como se tivessem ido ao Estádio de Futebol assistir ao jogo.

Arrastaram a mesa e todos dançaram para comemorar a vitória das Quinas que permitiu a passagem aos quartos de final.



tinta permanente João Pires