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sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "Quero voar para 2017"

Quero voar para 2017, agora que ganhei asas. Mover-me no céu azul, observando tudo à minha volta com olhos de cristal. Sobrevôo. Estou a planar e olho lá para baixo. Estradas que parecem linhas de coser. Lagos como pequenos charcos e pessoas como cabeças de alfinete.
Mantenho-me no ar a flutuar, sem pensar em nada mais. O ano está findar. Pairar e sentir o ar puro. Explodir de felicidade por mais um vôo. Abro bem as asas para aproveitar ao máximo o ar rarefeito e encher o peito de céu azul, aplainando o ar.
Todos os dias vôo para aperfeiçoar.
Depois, com grande rapidez, mergulho em vôo picado, como se não houvesse 2017. As minhas penas resistem à velocidade extrema. Talvez se tenha desprendido uma. Vôo como se estivesse a atravessar a barreira que me transportará ao Ano Novo. Dessa forma consigo propagar a minha felicidade, deixando um rasto no ar, uma linha branca, como fazem os aviões quando cruzam os céus.
Elevo-me em pensamentos sublimes. Fecho os olhos, em pleno vôo e respiro fundo.


tinta permanente - João Pires - "Quero voar para 2017"
tinta permanente - João Pires - "Quero voar para 2017"


Desligo-me da realidade. Sinto-me ainda mais leve. Regresso à infância de época feliz onde não era preciso assumir responsabilidades nem viver preocupações. Que bom. Um sorriso, naquela época, valia ouro. Era puro, genuíno!
Depois cruzo uma nuvem perdida e desapareço rapidamente, como num passe de mágica.


Desço à terra. Bebo um pouco de água da fonte. O 2017 está a chegar. Passeio pelas ruas movimentadas da cidade. Vejo rostos com ar apressado. Correm em todos os sentidos. Tento samicar, mas sem sucesso. Movo-me na rua de maneira hesitante, ao lado das pessoas que caminham na mesma direcção, tentando dificultar a sua passagem. Mas não consigo chamar a sua atenção. Ninguém repara em mim. Será que não me vêem?


Ontem sonhei com felicidade. Sorrisos doces. Abraços puros. Talvez para fugir às amarguras do dia a dia.


Mas a noite da passagem de ano está a chegar. Aproxima-se a passos irreversíveis. O caminho é para diante. Não olhes para trás. Olha por onde andas. O dia de ontem já passou. Tenho a estrada pela frente. Uma casa. Uma porta que se abre. Uma lareira, um copo de vinho na mesa.


Quero brindar a 2017. Que venha com energias renovadas. Que me faça sorrir sem limites. Quero dançar na rua até cair o fogo de artifício, até saltar fora de mim, em jeito de êxtase colorido. Sensações intensas. Quero cair no enlevo de 2017. Desejo que esse fogo salpicante se transforme em chuva batizante e me inunde de paz, esperança, felicidade e muito amor.


Na verdade esses sentimentos partem de mim. Vêm de dentro.


2017 está a chegar. A contagem já começou. Preparam-se as garrafas de vinhos comemorativos, contam-se as uvas passas e uns segundos depois, entro no Novo Ano. Tudo volta ao início. Mas… parece tudo igual. Nada mudou!
Decidi que irei ser eu a fazer a mudança. Dentro de mim. Bom 2017.


30-12-2016


João Pires




terça-feira, 1 de novembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "Ainda faço anos"

Mãe, onde está o meu bolo de aniversário? Aquele que sabias fazer tão bem. Aquele bolo com côco ralado por cima ou com bolacha Maria molhada em café. E os amigos à minha volta e também à volta do bolo dos meus anos. O brilho dos olhos saltava cá para fora no momento em que o bolo entrava na sala já com as velas acesas e todos começavam a cantar os parabéns.
E como eu comia a papa debruçado na varanda, a observar as pombas do vizinho. 
- E vai mais uma colher, dizia a minha mãe. Como se fosse ontem.
- Lembras-te mãe? Foi ontem. Eu não queria comer. Mas tu não desististe de mim.
E mais uma colher. E mais outra. Agora sei bem o que é dar colheres de papa.
Mas hoje faço anos. Primeiro recebi o carro gigante. Um carro vermelho em lata, onde eu cabia lá dentro. O meu primeiro mundo.


tinta permanente - João Pires - "Ainda faço anos"


Um dia fui mordido pelo Piruças. Cão raivoso de passar o dia acorrentado junto às garagens nas traseiras do apartamento. Triste ladrar.
Depois veio a bicicleta usada. Bicicleta verde oferecida pelo meu primo. Já não lhe servia. Mas a partir daquele momento, passou a ser a minha bicicleta. Corremos mundos dia após dia, após as aulas. Voltas sem fim no campo das traseiras de casa. Umas vezes só. Para aperfeiçoar a volta. Melhorar aquela curva e apurar a descida da rampa. Sabes? Uma vez esfacelei os nós da mão direita contra o muro de cimento rugoso e outra bati com o corpo contra a parede. Não doeu nada!

E a vizinha convidou para descer ao seu quintal. Acabou de matar um frango. Não me sai da cabeça a imagem do galináceo a correr pelo quintal fora, sem a cabeça. E o arroz de cabidela estava saboroso.
Como eu gostava de regressar ao prédio onde nasci, para saber se ainda cantam os parabéns. E se a pistola prateada ficou por lá. E saber se o vizinho ainda dispara pequenas batatas com a sua poderosa fisga de elásticos, para acordar o seu amigo do lado de lá da rua.
E eu continuava a equilibrar a minha bicicleta em cima de tábuas, em jeito de concurso com os meus amigos. Por onde anda a minha bicicleta verde?

Já não faço anos. Agora celebro o dia que acabou de nascer. É sublime.
Será que o meu pai me vai trazer uma bicicleta nova no Natal ? 

Quero percorrer estradas sem fim, rasgar horizontes, viver de ar e vento e beber o céu azul.

João Pires


29-10-2016

domingo, 9 de outubro de 2016

Acordei cedo, com o nascer do sol

Acordei cedo, com o nascer do sol. Decidi que vou mudar a minha vida. Vou renascer para mudar o mundo. Um mundo com céu azul, alegria na cara das pessoas, água e comida para todos. Um mundo governado pelas crianças e pelos idosos, com os Ministérios da Alegria, da Bondade, do Bem-Estar, da Paz e do Amor. Um mundo onde não existem espelhos. Onde o céu e a terra partilham o horizonte. Onde todas as cores possam brilhar no arco-íris. Onde apenas existe o presente. Onde é permitido sonhar de dia. Ali já acontece o paraíso. A moeda de troca é o sorriso.

foto de João Pires
João Pires

Acordei cedo, com o nascer do sol

Acordei cedo, com o nascer do sol. Decidi que vou mudar a minha vida. Vou renascer para mudar o mundo. Um mundo com céu azul, alegria na cara das pessoas, água e comida para todos. Um mundo governado pelas crianças e pelos idosos, com os Ministérios da Alegria, da Bondade, do Bem-Estar, da Paz e do Amor. Um mundo onde não existem espelhos. Onde o céu e a terra partilham o horizonte. Onde todas as cores possam brilhar no arco-íris. Onde apenas existe o presente. Onde é permitido sonhar de dia. Ali já acontece o paraíso. A moeda de troca é o sorriso.

foto de João Pires
João Pires

Acordei cedo, com o nascer do sol

Acordei cedo, com o nascer do sol. Decidi que vou mudar a minha vida. Vou renascer para mudar o mundo. Um mundo com céu azul, alegria na cara das pessoas, água e comida para todos. Um mundo governado pelas crianças e pelos idosos, com os Ministérios da Alegria, da Bondade, do Bem-Estar, da Paz e do Amor. Um mundo onde não existem espelhos. Onde o céu e a terra partilham o horizonte. Onde todas as cores possam brilhar no arco-íris. Onde apenas existe o presente. Onde é permitido sonhar de dia. Ali já acontece o paraíso. A moeda de troca é o sorriso.


Acordei cedo, com o nascer do sol

Acordei cedo, com o nascer do sol. Decidi que vou mudar a minha vida. Vou renascer para mudar o mundo. Um mundo com céu azul, alegria na cara das pessoas, água e comida para todos. Um mundo governado pelas crianças e pelos idosos, com os Ministérios da Alegria, da Bondade, do Bem-Estar, da Paz e do Amor. Um mundo onde não existem espelhos. Onde o céu e a terra partilham o horizonte. Onde todas as cores possam brilhar no arco-íris. Onde apenas existe o presente. Onde é permitido sonhar de dia. Ali já acontece o paraíso. A moeda de troca é o sorriso.


terça-feira, 4 de outubro de 2016

Acordei e olhei ao espelho

Acordei e olhei ao espelho. O cabelo começa a falhar e está baço. Deixo a barba por fazer, pois disfarça algumas marcas do tempo. Mas na verdade, não me preocupa verdadeiramente os sinais exteriores dos anos. Decidi que vou gastar o meu dinheiro para uso pessoal. Parei de me preocupar com os netos e com as suas notas a matemática. Já não estou disposto a sustentar um Estado que não me proporciona um serviço de saúde, nem um serviço de justiça e ainda por cima vejo os meus netos a serem desensinados na escola.  

Joao Pires - Tinta Permanente
Acordei e olhei ao espelho


Não tenho vontade em sustentar por mais tempo a minha família. Eles que vão trabalhar. Já são maiores e já têm duas licenciaturas cada um. Hoje vou comprar o fato mais elegante que o meu dinheiro puder pagar. E uma gravata a condizer. Não é que eu precise dele para trabalhar. Já estou reformado. Decidi que a partir de hoje, vou deixar de me angustiar com tretas de nada. E até com coisas mais sérias.

Vou partir para o amor. Vou arranjar uma namorada para passear até à esplanada e tomar um café com vista para o mar. Sou vaidoso, sem falsas modéstias. Mas nada de ser modernaço. Cai no ridículo. Eu tenho um tempo. O meu próprio tempo. Gosto de manter-me actualizado, é verdade. Mas apenas o suficiente para saber como vai o mundo. Estou mais preocupado com o estado do tempo. Será que amanhã vai chover? Recusei ir viver com os filhos e netos. Gritarias fazem-me tonturas e deixam-me cansado. A menos que enfiasse uns tampões nos ouvidos. Mas depois não podia ouvir o relato do futebol. Gosto de sair com o Neca, o Manel, a Luísa e a Isabel. São todos da minha geração. E divirto-me ao falar de outros tempos que só nós vivemos.

Tenho um hobby. Jardinagem. Que bom que é remexer na terra e plantar flores. O pior são os bicos de papagaio que vêm a seguir. Gosto de dar uma voltinha no meu carocha dos anos 70, amarelo-canário. Os meus filhos convenceram-me a comprar um carro novo, por questões de segurança, que apita por tudo e nada e acende uma data de luzes, junto ao conta-quilómetros. Manda-me ir à revisão sempre nas piores alturas. Ora tenho consulta no dentista, ora vou visitar a prima Bete ao lar. Enfim, uma maçada. Os safadinhos dos meus netos ainda não tem a carta de condução e já estão a candidatar-se ao carro.

- Avô, quando tiver a carta, vais emprestar-me o carro, certo?

Gosto de ouvir os meus netos. Gosto de ter uma nova perspectiva da vida. Respiram esperança do nada. Já deixei de usar a expressão “no meu tempo é que era bom”. Guardo-a para mim, em jeito de mantra. Mas só para mim. Aceito convites para tudo o que é interessante. Passeios, actividades culturais, inaugurações e tantas outras coisas que a memória não me deixa lembrar. De preferência gratuitos. Deixei de gastar saliva e voz a debater ideias ocas. Digo as palavras estritamente necessárias. As palavras estão caras. Prefiro ouvir uma data de baboseiras e divirto-me. Até na TV. Estou atento para perceber quando é que vem de lá algo de interessante. O problema são as dores musculares que aparecem de quando em vez, mas decidi que não vão ser o meu problema. O problema é delas. Vou à procura de uma religião que me permita ter fé e acreditar no mundo. Mas acreditar, sobretudo em mim. Se eu não me sentir feliz, como poderei fazer sorrir os outros? Há dias que sinto uma enorme vontade de rir. Rir a bom rir. Rir a bandeiras despregadas. Uma vez ri tanto que me saltou a dentadura e fiquei com a boca em forma de figo chocho. Já não faço caso do que dizem a meu respeito e muito menos do que pensam da minha pessoa. Sou feliz assim.
João Pires
4 de Outubro de 2016

Acordei e olhei ao espelho

Acordei e olhei ao espelho. O cabelo começa a falhar e está baço. Deixo a barba por fazer, pois disfarça algumas marcas do tempo. Mas na verdade, não me preocupa verdadeiramente os sinais exteriores dos anos. Decidi que vou usar o meu dinheiro para uso pessoal. Parei de me preocupar com os netos. No sentido em saber se tirou positiva a matemática. Já não estou disposto a sustentar um Estado que não me proporciona um serviço de saúde, nem um serviço de justiça e ainda por cima vejo os meus netos a serem desensinados na escola.  

Joao Pires - Tinta Permanente
Acordei e olhei ao espelho


Não tenho vontade em sustentar por mais tempo a minha família. Eles que vão trabalhar. Já são maiores e já têm duas licenciaturas cada um. Hoje vou comprar o fato mais elegante que o meu dinheiro puder pagar. E uma gravata a condizer. Não é que eu precise dele para trabalhar. Já estou reformado. Decidi que a partir de hoje, vou deixar de me angustiar com tretas de nada. E até com coisas mais sérias.

Vou partir para o amor. Vou arranjar uma namorada para passear até à esplanada e tomar um café com vista para o mar. Sou vaidoso, sem falsas modéstias. Mas nada de ser modernaço. Cai no ridículo. Eu tenho um tempo. O meu próprio tempo. Gosto de manter-me actualizado, é verdade. Mas apenas o suficiente para saber como vai o mundo. Estou mais preocupado com o estado do tempo. Será que amanhã vai chover? Recusei ir viver com os filhos e netos. Gritarias fazem-me tonturas e deixam-me cansado. A menos que enfiasse uns tampões nos ouvidos. Mas depois não podia ouvir o relato do futebol. Gosto de sair com o Neca, o Manel, a Luísa e a Isabel. São todos da minha geração. E divirto-me ao falar de outros tempos que só nós vivemos.

Tenho um hobby. Jardinagem. Que bom que é remexer na terra e plantar flores. O pior são os bicos de papagaio que vêm a seguir. Gosto de dar uma voltinha no meu carocha dos anos 70, amarelo-canário. Os meus filhos convenceram-me a comprar um carro novo, por questões de segurança, que apita por tudo e nada e acende uma data de luzes, junto ao conta-quilómetros. Manda-me ir à revisão sempre nas piores alturas. Ora tenho consulta no dentista, ora vou visitar a prima Bete ao lar. Enfim, uma maçada. Os safadinhos dos meus netos ainda não tem a carta de condução e já estão a candidatar-se ao carro.

- Avô, quando tiver a carta, vais emprestar-me o carro, certo?

Gosto de ouvir os meus netos. Gosto de ter uma nova perspectiva da vida. Respiram esperança do nada. Já deixei de usar a expressão “no meu tempo é que era bom”. Guardo-a para mim, em jeito de mantra. Mas só para mim. Aceito convites para tudo o que é interessante. Passeios, actividades culturais, inaugurações e tantas outras coisas que a memória não me deixa lembrar. De preferência gratuitos. Deixei de gastar saliva e voz a debater ideias ocas. Digo as palavras estritamente necessárias. As palavras estão caras. Prefiro ouvir uma data de baboseiras e divirto-me. Até na TV. Estou atento para perceber quando é que vem de lá algo de interessante. O problema são as dores musculares que aparecem de quando em vez, mas decidi que não vão ser o meu problema. O problema é delas. Vou à procura de uma religião que me permita ter fé e acreditar no mundo. Mas acreditar, sobretudo em mim. Se eu não me sentir feliz, como poderei fazer sorrir os outros? Há dias que sinto uma enorme vontade de rir. Rir a bom rir. Rir a bandeiras despregadas. Uma vez ri tanto que me saltou a dentadura e fiquei com a boca em forma de figo chocho. Já não faço caso do que dizem a meu respeito e muito menos do que pensam da minha pessoa. Sou feliz assim.
João Pires
4 de Outubro de 2016