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quinta-feira, 2 de junho de 2016

tinta permanente - João Pires - “Botox e Cabelo”

Nas manhãs de Sábado, o Salão de Beleza “BOCA” da união das palavras botox e cabelo, está quase sempre cheio. Localizado numa das ruas mais internacionais de Lisboa, a rua do Benformoso, está ali para os lados do Martim Moniz. A Câmara já tomou posse administrativa de dois prédios na Mouraria, com vista à construção de uma mesquita. Esse local de culto dos seguidores da fé islâmica, vai sem plantado naquela zona, devido à presença de uma crescente comunidade muçulmana, em particular nas ruas do Benformoso e da Palma, em plena comunhão com católicos e hindus. 


tinta permanente - João Pires - “Botox e Cabelo”
tinta permanente - João Pires - “Botox e Cabelo”

Partilham a mesma rua principal numa harmonia singular. As diversidades culturais são gritantes, quase antagónicas e afinal convergem por ali diariamente. O aroma das especiarias das Índias conjugam nas zonas mais frescas com cheiro a terra molhada talvez de África. Os prédios antigos, a pedir reformas há muito, ajudam a criar um ambiente exótico oriundo do Bangladesh, Brasil, Índia, China, Sri Lanka e Paquistão, formando assim um pequeno mapa-mundo com grande riqueza cultural. Olhares que passeiam lentamente pela rua, deixando escapar momentos fugazes de felicidade no seu estado mais puro, enquanto trocam palavras de sonoridade calma em dialectos incompreendidos. Mais à frente funciona o bar do Sr José Moura, onde a principal atracção é o karaoke, mas só até à meia-noite, novas regras impostas pela Câmara Municipal. Vá lá, até às duas da manhã às Sextas e Sábados.

No início, o espaço do salão era exíguo e os cortes de cabelo eram sobretudo afro e rastas. Com o crescimento e maior procura da clientela, os gostos alargaram para outros mundos inexplorados da beleza feminina. Ah, e também masculina. Os cortes à escovinha com um topo de relvado castanho e umas iniciais desenhadas por cima das orelhas, também são procurados. Os rapazes enquanto esperam pelas artes mágicas do BOCA, dão um saltinho ao bar do Sr Moura que já tem parceria com o salão de beleza, para engolir umas minis, enquanto se faz tempo. 
- Próximo, ouve-se lá do interior do salão.
Entra um rapaz alto, magro, cabelo desgrenhado e quebradiço, em forma de rastas mal cuidadas, ainda com a mini na mão. Pede para tirar as dreadlocks, arriscando a ficar careca. 
- Não vai ser necessário rapar o cabelo, responde a moça encarregue da tarefa.
- Não? pergunta o rapaz, aliviando a expressão.

Na porta ao lado, para onde o salão cresceu e deslocou a clientela feminina, serve um mundo infinito de raças e culturas. 

Já no andar de cima e para onde o salão de beleza também se expandiu este ano, são feitos verdadeiros tratamentos de beleza ao rosto e corpo, como massagens, epilação, tratamentos corporais, e aplicação de botox no rosto, destinado a preenchimentos faciais e até algumas reconstruções e implantes mamários, verdadeiros actos médicos feitos por profissionais sem formação nem segurança.
A última vez que Lucília foi lá para pentear o cabelo, decidiu fazer um preenchimento ao lábios. Queria levantar a sua auto-estima. Precisava de se animar. Tinha sido vítima recente de maus tratos por parte do seu ex-namorado, tendo ficado com uma nódoa negra a meio do antebraço direito.

Mas ao fim de vinte minutos e algumas picadas de abelha, foi assim que sentiu a agulha entrar na pele, saiu de lá com dois verdadeiros gomos de laranja. Um por cima e outro por baixo da boca.
- Sossegue, isso passa, asseguraram. 
- De certeza ? perguntou assustada, enquanto se via ao espelho
- Claro que sim, responderam. Amanhã começa a diminuir o inchaço.
Domingo, Segunda, Terça-Feira e o inchaço aumentava e diminuía de forma inesperada. O lábio superior passou a gomo de tangerina e o lábio inferior mantinha o gomo de laranja, com um ligeiro desequilíbrio para um dos lados. Lu, como era tratada pelos amigos, já não sabia o que fazer.
- E agora? Para que fui fazer este tratamento? Alguém tem que assumir esta responsabilidade. 
No Sábado seguinte, dia de folga do seu trabalho de escriturária a tempo parcial, apenas para substituir uma colega que tinha sido mãe e depois de passar uma semana a ouvir cochichos nas suas costas acerca dos seus lábios sensuais, foi ao BOCA para resolver de uma vez por todas aquele problema. 
- Bom dia, tenho os lábios numa miséria. Quero que tirem esta porcaria dos meus lábios, disse desesperada.
- Olá. Não é possível.
- Porquê? perguntou assustada.
- Porque os seus lábios apresentam sinais de infecção. 
A Lu tinha passado a semana a desculpar-se perante as colegas do trabalho, dizendo que tinha uma infecção nos lábios e afinal acertou.
- Vai ter que ir ao hospital para confirmarem o diagnóstico e tomar antibiótico.
- Como? Venho ao salão de beleza e encaminham-me para o hospital?
- Algo não correu bem. Lamentamos.

Entretanto entravam e saíam clientes do salão com cortes de cabelo mais arrojados e cores da moda.
Os castanhos com reflexos intensos estão na moda nesta estação, respondia uma cabeleireira à jovem que pedia sugestões para alterar a cor do cabelo, enquanto espreitava disfarçadamente para os lábios de Lu.
Ela não se continha na dor e no arrependimento. Mas certamente que haverá uma solução. Tem fé para isso e muito mais. mesmo assim, sentou-se na cadeira do salão e pediu para pentear o cabelo. Veio um rapaz que ela não conhecia. Moreno, cabelo preto brilhante e liso. Cumprimentou-a com um leve toque no ombro ao qual reagiu. Este rapaz nunca havia passado por aqui, pensou.
- Bom dia. Pentear ou cortar? perguntou num tom de voz educado.
- Pentear, respondeu de forma mais agradada.
- Estou a ver umas pontas quebradas.
- Está bem, pode corrigir esses cabelos.
- Está um dia bonito, não? perguntou o rapaz para fazer conversa.
- Sim. Eu é que não me sinto bem.
- Porquê?
- Sinto os lábios inchados e algumas dores.
- Oh, não se nota, respondeu para agradar.

Lu, é uma rapariga na casa dos vinte e cinco, de estatura mediana e de proporções agradáveis aos olhos da maioria. Cabelos a afagar os ombros e olhos verde-azeitona em forma de amêndoa. Não acredito em cupidos, pensava, enquanto admirava uma foto, certamente do Bangladesh, com um elefante com as pesadas patas enfiadas na água e a tromba levantada aspergindo uns quinze litros de água para o ar. No seu pescoço transporta o guia e mais atrás, um casal de turistas cada um virado para o seu lado. As pequenas cadeiras feitas de bambu, estão assentes por cima do animal de cinco toneladas, num manto às faixas largas de vermelho, amarelo e verde, a lembrar a bandeira da Etiópia. Lá mais ao fundo vê-se uma montanha e em todo o redor uma vegetação de um verde luxuriante, completado por um dia de grandes raios de sol, transmitindo uma boa sensação de liberdade. Que vontade de estar ali, pensei eu, passando os dedos pelos cabelo.
- Vamos passar para aquela cadeira, para lavar o cabelo, pediu gentilmente.
Do outro lado do salão, surge a Índia, com a fotografia do mausoléu Taj Mahal, imponente construção em mármore branco. Mas depressa desceu à realidade com o incómodo dos lábios. Tinha que ir ao hospital o quanto antes para resolver aquele problema. Logo que o rapaz terminou a lavagem, secagem e o pequeno corte, despediu-se de Lu com uma pequena vénia e um sorriso tímido. Pagou e saiu. Subiu a rua, passou pela pintura mural na parede do lado esquerdo, sobressaindo o azul cobalto, na pequena reentrância onde estão fixas duas cadeiras de jardim. Cores desde o lilás, roxo, amarelo e vermelhos onde ilustram em versão moderna de formas arredondadas, gatos empoleirados em árvores, folhas grandes e embelezamento de janelas velhas que rasgam a parede. Mais acima e do lado direito, está um belo edifício do século XIX de fachada decorada com azulejos verde-musgo em relevo, com janelas de sacada, arco de volta perfeita e guardas em ferro.

Lu sentia-se agora mais segura e caminha pela rua de piso irregular tal qual gazela passeia pelo bosque. Lu, Lu, ouviu-se lá de cima. Olhou em volta e subiu o olhar até encontrar Rosa a sua amiga, que estava à janela, atirando-lhe um coração desenhado pelas suas mãos. Lu sorriu e seguiu confiante pela calçada acima. Tinha chegado a hora de cozinhar para o almoço e os cheiros misturavam-se no ar. O açafrão, o colorau, o anis e a canela. Este último traz recordações de infância. Arroz doce decorado com figuras geométricas em carreiros de canela. Também os cheiros a comida portuguesa se espalham rapidamente. O aroma da carne assada, dos bolinhos de bacalhau e até de vinho branco, percorrem a rua.

Ainda se encontravam furgões de transporte de mercadorias à porta de vários de negócios, talvez para descarregar mercadorias.

Um simpático bengali ofereceu-lhe uma rosa vermelha. Lu cheirou-a e sentiu o seu perfume invadir a alma. Sentia-se livre depois de terminar a relação com o seu namorado. Para ajudar, Lu começou a libertar-se com uma simples frase, um mantra que ela repetidamente disse para a si mesma: "Ele pode ser bom para outra pessoa, mas não para mim" Lu começou a visualizar uma máquina de demolição de edifícios enquanto repetia esta frase ou quando quando se lembrava dele.
Agora isso já pertence ao passado. Subiu até ao Miradouro da Senhora do Monte, apoiou as mãos na grade de ferro, inspirou fundo e libertou o ar lentamente enquanto admirava a cidade e uma parte do rio, com o céu preenchido com algumas nuvens altas. Sentiu uma enorme vontade de saltar e voar sobre a cidade, em busca da felicidade!

tinta permanente - João Pires - “Botox e Cabelo”


tinta permanente João Pires