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sábado, 31 de outubro de 2015

tinta permanente - João Pires - "A boleia de Andreia"

Ela morava numa curva na estrada nacional, numa barraca velha feita de cartões, no lado oriental da cidade, no lado errado do caminho.

Às vezes, no trajecto para a cidade nós dizíamos:
- Mãe, podemos dar-lhe boleia?

Por vezes ao passar por ela, fazíamos com que ela rodasse a sua cabeça de alegria até perceber que o carro tinha parado para lhe dar boleia.

E suas mãos balanceavam com a brisa. Olhos selvagens, verde-esperança, loucos os de Andreia.
Na descida ao longo da estrada, passando à porta do Xico, o velho carro azul que já foi de corrida, cruzou a mercearia da esquina com o letreiro à porta “Vadios longe desta porta”.

Mas o pequeno grupo de maltrapilhos com garrafa na mão ali mesmo à conversa, não sabia ler.
Numa noite de trovoada rachando misericórdia dos céus até à terra, Andreia na sua barraca de cartão, apoiada à janela, sonhava que estava a voar alto, muito acima das árvores, sobre as colinas.

Mas olhou em seu redor e apenas viu paredes forradas com jornais. E os trovões bombavam no céu a toda a força.

Na manhã seguinte quando nos preparávamos para abrandar naquela curva e dar boleia a Andreia, ela não estava lá. Apenas marcas de pneus de automóvel desenhados na estrada em direcção à frágil barraca de cartão.

Parámos o carro e seguimos as marcas de pneu rasgados para fora da estrada, atravessando o campo, em direcção à casa de papelão meio destruída. A casa da Andreia estava mesmo desfeita. Tememos o pior. Podíamos encontrar a Andreia no meio do caminho. Onde ela pára? Ninguém sabe!



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