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terça-feira, 1 de novembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "Ainda faço anos"

Mãe, onde está o meu bolo de aniversário? Aquele que sabias fazer tão bem. Aquele bolo com côco ralado por cima ou com bolacha Maria molhada em café. E os amigos à minha volta e também à volta do bolo dos meus anos. O brilho dos olhos saltava cá para fora no momento em que o bolo entrava na sala já com as velas acesas e todos começavam a cantar os parabéns.
E como eu comia a papa debruçado na varanda, a observar as pombas do vizinho. 
- E vai mais uma colher, dizia a minha mãe. Como se fosse ontem.
- Lembras-te mãe? Foi ontem. Eu não queria comer. Mas tu não desististe de mim.
E mais uma colher. E mais outra. Agora sei bem o que é dar colheres de papa.
Mas hoje faço anos. Primeiro recebi o carro gigante. Um carro vermelho em lata, onde eu cabia lá dentro. O meu primeiro mundo.


tinta permanente - João Pires - "Ainda faço anos"


Um dia fui mordido pelo Piruças. Cão raivoso de passar o dia acorrentado junto às garagens nas traseiras do apartamento. Triste ladrar.
Depois veio a bicicleta usada. Bicicleta verde oferecida pelo meu primo. Já não lhe servia. Mas a partir daquele momento, passou a ser a minha bicicleta. Corremos mundos dia após dia, após as aulas. Voltas sem fim no campo das traseiras de casa. Umas vezes só. Para aperfeiçoar a volta. Melhorar aquela curva e apurar a descida da rampa. Sabes? Uma vez esfacelei os nós da mão direita contra o muro de cimento rugoso e outra bati com o corpo contra a parede. Não doeu nada!

E a vizinha convidou para descer ao seu quintal. Acabou de matar um frango. Não me sai da cabeça a imagem do galináceo a correr pelo quintal fora, sem a cabeça. E o arroz de cabidela estava saboroso.
Como eu gostava de regressar ao prédio onde nasci, para saber se ainda cantam os parabéns. E se a pistola prateada ficou por lá. E saber se o vizinho ainda dispara pequenas batatas com a sua poderosa fisga de elásticos, para acordar o seu amigo do lado de lá da rua.
E eu continuava a equilibrar a minha bicicleta em cima de tábuas, em jeito de concurso com os meus amigos. Por onde anda a minha bicicleta verde?

Já não faço anos. Agora celebro o dia que acabou de nascer. É sublime.
Será que o meu pai me vai trazer uma bicicleta nova no Natal ? 

Quero percorrer estradas sem fim, rasgar horizontes, viver de ar e vento e beber o céu azul.

João Pires


29-10-2016

quinta-feira, 5 de maio de 2016

tinta permanente - João Pires - "Infinitos Horizontes"

Naquela manhã de Domingo, o sol despontava forte. Estávamos em Maio. Depois de preparar umas sanduíches de queijo e fiambre e enfiar umas garrafas reutilizáveis de água pura e fresca na mochila isotérmica, desceram ao passeio pedonal, com a bicicleta ainda com rodinhas de apoio. Este passeio também permite a circulação de bicicletas, embora ao fim de semana, da parte da tarde, se torne um pouco perigoso circular entre bicicletas que passam a toda a velocidade por entre aqueles que simplesmente caminham.
De manhã está menos gente a passear ou a correr naquele circuito de três quilómetros, que inicia no Palácio do Freixo, de majestosa arquitectura barroca e termina na Casa Branca em Gramido, onde foi assinada a 29 de Junho de 1847, a convenção que pôs fim à insurreição da Patuleia, guerra civil que durou oito meses. Mas todos os dias este passeio é percorrido por inúmeras pessoas.

Assim é mais fácil ensinar a criança a andar de bicicleta, pensou ele. Ajustados o capacete e as luvas, para fugir aos arranhões nas mãos e às escoriações na cabeça, um pequeno empurrão serviu para dar o primeiro impulso, como quem pousa o frágil barquinho de papel na água e depois dá um ligeiro sopro para o impulsionar.

tinta permanente João Pires Infinitos Horizontes
tinta permanente - João Pires - "Infinitos Horizontes"


Mesmo com rodinhas, a bicicleta lá vai a um ritmo irregular e oscilando ora para um lado ora para o outro, embora, tendencialmente para um dos lados, ou porque a rodinha está mais baixa, ou porque a criança se inclina mais para aquele lado.

Primeiro não foi difícil convencê-lo em andar de bicicleta, pois a curiosidade venceu todos os obstáculos e depois de trepar para cima do selim, o grau de auto confiança mantém-se lá em cima.

Depois de um passeio de meia hora, sentaram-se debaixo da sombra de uma árvore e refrescaram-se com a água levada de casa. A paisagem é magnífica. A ponte do Freixo lá ao fundo, o Palácio do Freixo, mais próximo e os barquinhos valboeiros ancorados mesmo ali ao lado, naquele porto seguro. Por trás, estão os pequenos abrigos dos pescadores que servem para guardar as redes e os utensílios de pesca. Ao lado foi construído o parque infantil e um campo de voleibol. Lá em cima está a capela de São Pedro a vigiar o Rio Douro, de dia e de noite.

Na semana seguinte regressaram ao pedonal, desta vez, com a bicicleta já sem rodinhas de apoio. O Tiago estava entusiasmado como sempre, porque ia andar de bicicleta, ponto. Não lhe passava pela cabeça que daquele dia em diante iria andar na sua bicicleta sem qualquer apoio.
Sem qualquer apoio é uma forma de expressão, pois passaria a ter toda  a atenção de seu pai, nas primeiras tentativas.

No início parecia-lhe muito estranho ter que colocar o pé no pedal e arrancar. Então foi necessário, vezes sem conta, que o seu pai, lhe desse a partida, segurando no selim e acompanhando em passo de corrida, até ficar com dores nas costas de segurar na bicicleta em posição curvada.

-Mais, pedia. Quero mais.
-Agora já gostas de andar de bicicleta sem rodinhas?
-Sim. Dá mais liberdade.
-Vamos recomeçar. Pé direito no pedal, fazes força e começas a pedalar. Entendido?
-Pai. Não tires a mão do selim. Ok? Suplicava.

Começou a pedalar, perdendo por vezes o equilíbrio. Tudo de novo. Sempre que recomeçava, tinha a tendência para olhar para a roda da frente, fazendo-o perder o equilíbrio.

-Olha lá para diante, pede o pai.
-Como é que vou olhar lá para diante, se a bicicleta está aqui e eu estou sentado em cima dela? Só consigo olhar para a roda.

O pai sem saber explicar, apenas lhe pedia que olhasse para longe. Sempre que ele olhava para a roda da frente, o que era uma grande tentação, perdia o equilíbrio e caía.
Sim, cair faz parte do processo de aprendizagem para andar de bicicleta.
Mas o importante era aprender a andar de bicicleta e ganhar liberdade. Era a sua missão. Liberdade para voar e sonhar. De repente, Tiago levantou voo, pois a passada do pai não foi suficiente para acompanhar a sua pedalada.

Ele lembrava-se daquilo que o seu pai lhe dizia quando foi a sua vez de aprender a andar de bicicleta. “Olha lá para diante”. Foi um dos primeiros miúdos lá da rua a aprender a andar de bicicleta, bem como o seu irmão mais novo. E como o seu pai tinha um coração largo, também ensinou, como pode, os outros miúdos a andar de bicicleta. Felizmente ninguém se magoou a sério. Nem o Zé que foi literalmente largado da rampa da garagem, e quase em pleno voo aterrava no pombal do Sr Costa.

Depois passou a ser hora sagrada, a chegada do trabalho, para abrir a garagem e soltar bicicletas que quase andavam por si só, alimentadas por pernas que acumularam energia e sonhos durante o dia para pedalar ao fim da tarde.

“Olha lá para diante” é quase um mandamento que nunca mais saiu da sua cabeça. Primeiro porque foi a fórmula mágica para aprender a andar de bicicleta, mas também porque depressa descobriu que é o lema da sua vida.

Não olhes para a roda, sob pena de perderes o equilíbrio.

É importante aprender a andar de bicicleta o quanto antes e se possível pela mão dos pais. Não que as escolas para adultos não tenham a sua missão ao ensinar a andar de bicicleta quem nunca teve oportunidade de aprender em pequeno, mas porque também ensinam a andar de bicicletas em locais mais movimentados como cidades grandes. Em qualquer idade, basta ter vontade, disposição e mente aberta, como seja com o amor de pai, prometem.

Olhar lá bem para diante, pode significar a descoberta de infinitos horizontes.


João Pires

05-Maio-2016


tinta permanente João Pires