Acordei e olhei ao espelho. O cabelo começa a falhar e está baço. Deixo a barba por fazer, pois disfarça algumas marcas do tempo. Mas na verdade, não me preocupa verdadeiramente os sinais exteriores dos anos. Decidi que vou gastar o meu dinheiro para uso pessoal. Parei de me preocupar com os netos e com as suas notas a matemática. Já não estou disposto a sustentar um Estado que não me proporciona um serviço de saúde, nem um serviço de justiça e ainda por cima vejo os meus netos a serem desensinados na escola.
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| Acordei e olhei ao espelho |
Não tenho vontade em sustentar por mais tempo a minha família. Eles que vão trabalhar. Já são maiores e já têm duas licenciaturas cada um. Hoje vou comprar o fato mais elegante que o meu dinheiro puder pagar. E uma gravata a condizer. Não é que eu precise dele para trabalhar. Já estou reformado. Decidi que a partir de hoje, vou deixar de me angustiar com tretas de nada. E até com coisas mais sérias.
Vou partir para o amor. Vou arranjar uma namorada para passear até à esplanada e tomar um café com vista para o mar. Sou vaidoso, sem falsas modéstias. Mas nada de ser modernaço. Cai no ridículo. Eu tenho um tempo. O meu próprio tempo. Gosto de manter-me actualizado, é verdade. Mas apenas o suficiente para saber como vai o mundo. Estou mais preocupado com o estado do tempo. Será que amanhã vai chover? Recusei ir viver com os filhos e netos. Gritarias fazem-me tonturas e deixam-me cansado. A menos que enfiasse uns tampões nos ouvidos. Mas depois não podia ouvir o relato do futebol. Gosto de sair com o Neca, o Manel, a Luísa e a Isabel. São todos da minha geração. E divirto-me ao falar de outros tempos que só nós vivemos.
Tenho um hobby. Jardinagem. Que bom que é remexer na terra e plantar flores. O pior são os bicos de papagaio que vêm a seguir. Gosto de dar uma voltinha no meu carocha dos anos 70, amarelo-canário. Os meus filhos convenceram-me a comprar um carro novo, por questões de segurança, que apita por tudo e nada e acende uma data de luzes, junto ao conta-quilómetros. Manda-me ir à revisão sempre nas piores alturas. Ora tenho consulta no dentista, ora vou visitar a prima Bete ao lar. Enfim, uma maçada. Os safadinhos dos meus netos ainda não tem a carta de condução e já estão a candidatar-se ao carro.
- Avô, quando tiver a carta, vais emprestar-me o carro, certo?
Gosto de ouvir os meus netos. Gosto de ter uma nova perspectiva da vida. Respiram esperança do nada. Já deixei de usar a expressão “no meu tempo é que era bom”. Guardo-a para mim, em jeito de mantra. Mas só para mim. Aceito convites para tudo o que é interessante. Passeios, actividades culturais, inaugurações e tantas outras coisas que a memória não me deixa lembrar. De preferência gratuitos. Deixei de gastar saliva e voz a debater ideias ocas. Digo as palavras estritamente necessárias. As palavras estão caras. Prefiro ouvir uma data de baboseiras e divirto-me. Até na TV. Estou atento para perceber quando é que vem de lá algo de interessante. O problema são as dores musculares que aparecem de quando em vez, mas decidi que não vão ser o meu problema. O problema é delas. Vou à procura de uma religião que me permita ter fé e acreditar no mundo. Mas acreditar, sobretudo em mim. Se eu não me sentir feliz, como poderei fazer sorrir os outros? Há dias que sinto uma enorme vontade de rir. Rir a bom rir. Rir a bandeiras despregadas. Uma vez ri tanto que me saltou a dentadura e fiquei com a boca em forma de figo chocho. Já não faço caso do que dizem a meu respeito e muito menos do que pensam da minha pessoa. Sou feliz assim.
João Pires
4 de Outubro de 2016
