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quinta-feira, 23 de junho de 2016

tinta permanente - João Pires - "Noite de São João do Porto"

Para a noite de 23 de junho, a cidade do Porto prepara-se com vários dias de antecedência. Para além de longa, até aos primeiros raios de sol, a agitação mantém-se mais ou menos constante. As sardinhadas no meio da rua, os enfeites em papel enchem de cor as varandas e ligam pelo ar os vizinhos, as cascatas construídas nas ruas, com o musgo fresco a enfeitar e a largada de garridos balões de papel dão o mote para a festa. Os martelos de São João marcam presença assídua desde a década de sessenta. Além de espalharem cor, fazem um barulho permanente nas ruas do Porto.
As crianças e os turistas sentem-se especiais ao dar uma martelada na cabeça de estranhos, produzindo um som curto de apito das quatro linhas.


tinta permanente - João Pires - "Noite de São João do Porto"
tinta permanente - João Pires - "Noite de São João do Porto"


Ao final do dia, as pessoas apressam-se para regressar a casa e se recomporem para a noite longa. Quem vive no centro da cidade, já esta preparado para a maratona, sem tempo para respirar.


Os pontos de venda das ervas-de-cheiro como a cidreira ou o limonete, alho-porro, um símbolo fálico da fertilidade masculina, martelos de São João e bebidas frescas frente à Estação de São Bento, Rotunda da Boavista, Ribeira ou outros tantos locais situados em zonas estratégicas são ocupados com vários dias antes com vista a garantir o sucesso do negócio. Os vasos de manjericos com versos populares estão espalhados pela cidade.


Inês e Henrique desceram a Ribeira, naquele final de tarde, para petiscar umas sardinhas assadas em cima de fatia da broa de Avintes, caldo verde com rodela de chouriço e vinho verde tinto servido em malga branca. A cidade começa a ficar agitada à medida que o sol desaparece do céu.


Já no muro dos bacalhoeiros e enquanto esperavam pela sua vez de sentar numa mesa minúscula encostada ao muro que sustenta aquele passeio, os foliões apreciam o momento. De um lado o crepitar do carvão onde são assadas sardinhas e pimento verde.


Mais longe, podem observar o Rio Douro, que se mostra calmo e mais distante ainda, na outra margem também já se adivinha muita movimentação. O teleférico mais acima, continua no seu ritmo pachorrento, transportando passageiros. Uma cabine em cada cinco há-de transportar turistas, talvez.
Os edifícios das caves de vinho do Porto começam a ficar iluminados. A ponte Luís I também já está engalanada. 
- O que são aquelas pequenas barcaças no meio do rio?, perguntou Inês
- Suponho que seja para o fogo-de-artifício, responde Henrique.
O tempo está quente, sem nuvens e de um azul forte espalhado pelo céu, a condizer com o vestido de Inês. Trazia um perfume floral intenso que se espalhava à sua volta, sempre que fazia um movimento. cabelo comprido, pele branca, lisa, olhos suaves, redondos, lábios carnudos e voz aguda, quase a arranhar o ar.
Henrique pega na mão de Inês e admira-a. Faz-lhe uma carícia com os dedos na maçã do rosto. Inês fecha os olhos para interiorizar aquele momento.
Desperta com uma martelada na cabeça, aplicada por um miúdo de cinco ou seis anos, que subiu a um banco para concretizar o seu objectivo.
Henrique que tinha observado o miúdo a trepar para o banco não tinha conseguido adivinhar o seu intento até que viu o martelo assentar na cabeça de Inês com grande estrondo, pelo menos no interior da cabeça de Inês.
Deu um salto de espanto, causando ela mesmo um pequeno susto ao miúdo que tentava surpreendê-la.
O ritmo das marteladas fazia-se ouvir por todo o lado e parecia aumentar de intensidade à medida que a noite crescia.


Mais à frente no Largo do Terreiro estava um grupo reunido de cócoras. Quando se aproximaram, descobriram que estavam a esticar muito bem o papel de um balão de São João para depois o poderem lançar. Bastava apreciar a dedicação com que alisavam o papel de seda para se adivinhar a vontade em elevar aquele balão até aos céus. Henrique envolveu Inês abraçando-a por trás enquanto apreciavam a delicada empresa em fazer subir aquele balão apenas com ar quente.


Henrique, mais alto um palmo e meio, de cabelo liso e preto, segura Inês com as suas mãos grandes e fortes. Pele morena e tronco magro, conseguia envolver Inês de forma apaixonada.


Aquela noite não tinha relógio. Estavam ali para saborear a festa do São João do Porto. Uma festa popular que para além de celebrar o nascimento de São João Batista, já foi uma festa pagã e celebrava o solstício de Junho. Celebrava-se a fertilidade associada à alegria das colheitas e da abundância.


Os saltos por cima da fogueira ainda acontecem, sobretudo nos bairros mais antigos.
Vários arraiais populares por toda a cidade do Porto especialmente nos bairros das Fontainhas, Miragaia, Massarelos. Nos arraiais, normalmente, existem concertos com diversos cantores populares acompanhados, quase sempre, por comida, em especial, as sardinhas assadas, o cabrito assado e também grelhados de carnes. A festa dura até às quatro ou cinco horas da madrugada, quando a maior parte das pessoas regressa a casa, tal como as Rusgas de São João.

Os mais resistentes, normalmente os mais jovens, percorrem toda a marginal desde a Ribeira até à Foz do Douro onde terminam a noite na praia, aguardando pelo nascer do sol.


tinta permanente João Pires