Menina doce e meiga que atravessas a noite de xaile ao peito. Vais a caminho do Natal. Para te sentares à mesa na ceia com os familiares mais próximos. Caminhas à beira do rio e as águas brilham com a luzes laranja que se vão derramando pela noite fora. Levas o bolo para a mesa da consoada. Atravessas ruas e sobes um deserto de escadarias de granito escuro. As sombras da roupa estendida às janelas, projectam figuras estranhas no chão. Luzes que vêm das janelas denunciam gentes que se reencontram. Se abraçam. Se beijam. Trocam presentes ou afectos. Provavelmente já se encontram sentados à mesa.
| tinta permanente - João Pires - "Menina doce e meiga" |
E eu subo a rua já deserta, cheia de luzes de Natal e das montras das lojas agora vazias. Anúncios que ficam para trás, que perderam a sua razão de ser. O Natal fechou. O comércio encerrou há algumas horas.
Lá ao fundo ainda vislumbro, na noite escura, um saco de compras colorido de tons dourados e vermelhos, com um anúncio qualquer que não consigo distinguir, a atravessar, em passo apressado a rua.
O frio cai. Está na altura de encontrar um abrigo para passar a noite. Uma soleira de porta que me irá abrigar nesta noite de Natal. Só. Quero estar comigo! Viver esta noite com os meus pensamentos. As memórias ficaram lá atrás. Desvaneceram com o passar dos anos. Como aquelas fotos antigas que perderam quase toda a côr e têm um pequeno rasgo no canto, fruto do manuseamento.
O futuro, nada me diz. Não existe esperança dentro de mim. Procurei, mas não a encontro.
Agora, nesta noite do Deus menino, é o que importa. É o que conta. Só, nesta cidade iluminada mas fria. Fria de um abraço, de um aperto de mão. Fria de um sorriso.
Não há canto de pássaros. Recolheram com as suas famílias para longe. Para terras quentes, onde abunda sol. As flores fecharam-se nas suas pétalas e reservam-se em sementes para a próxima Primavera. Não há sol nem lua que possa guiar os três Reis Magos.
Aqui estou eu. Só. Olho agora para a palma das minhas mãos. Estão encardidas. Unhas sujas. Enrugadas pelo frio e com cicatrizes. Marcas do tempo. Algumas feridas estão abertas. Custam a fechar por causa do frio. Como no meu coração. O corte profundo na mão esquerda provoca dor constante. Já se tornou quase inconsciente. Está sempre cá dentro e não fecha.
Sento-me na entrada do Centro Comercial que agora está fechado.Estendo uma manta gasta no chão e abro e pouso a embalagem do bolo que me foi oferecido dos restos da confeitaria que agora está fechada.
Abro o pacote de vinho comprado no supermercado à última da hora, com os trocos suplicados à porta das lojas. Bebo o primeiro gole directamente da embalagem. Sinto um calor encher-me por dentro. Será que o Natal já chegou? Não consigo distinguir com nitidez os enfeites de Natal. Arranco um pedaço de bolo, fecho os olhos e agradeço a quem estiver a velar por mim. Momentaneamente reconfortado, encosto a cabeça à parede, embalada pelo álcool. Passa um cão na rua. Volta atrás e olha para mim. Com os seus olhos, implora por um pouco de calor. Aproxima-se e não encontra resistência. Enrosca-se nas minhas pernas. Adormeço, sem voltar a acordar!
João Pires
25-12-2016