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quinta-feira, 19 de maio de 2016

tinta permanente - João Pires - "Pintar as cercas em madeira do jardim"

A Primavera tinha chegado. A casa estava a precisar de uma reforma. As cercas em madeira do jardim perderam o verniz ao longo dos anos. Alberto foi o responsável pela sua manutenção durante as últimas Primaveras. As crianças foram crescendo, mas a mais velha tinha apenas dez anos.
Helena não percebia nada de reformas. A última experiência aconteceu com a pintura do quarto do filho, que começou no tecto, passou pelas paredes e acabou no chão e nas portas. Enfim, uma desgraça.
Tiveram que chamar alguém para finalizar a obra.
Mas agora aquela tarefa estava entregue a si mesma. Como é que vou resolver este problema?, pensou.


tinta permanente João Pires Pintar as cercas em madeira do jardim
tinta permanente - João Pires - "Pintar as cercas em madeira do jardim"

Naquela Sexta-Feira, depois de levar as crianças à escola, passou pela loja de tintas da vila.
- Bom dia. Estamos na Primavera não é verdade?
- Sim. É verdade. Em que posso ajudar?
- Preciso de pintar as cercas em madeira do meu jardim.
- Temos tudo o que vai precisar, respondeu o empregado.
O empregado é um homem dos seus trinta, alto, bem constituído, cabelo negro, pele morena, um sorriso alvo. Demasiado à vontade para ser empregado.
- Com a chegada do bom tempo, quero aproveitar o ar livre e usufruir do espaço confortável na minha varanda e do meu jardim, confessou.
- Claro, respondeu, mostrando-se interessado em ajudar. Quer as cercas do seu jardim, bem como o mobiliário em madeira devem receber um tratamento especial para estar sempre no seu melhor.
Pois então, convém não deixar de seguir algumas dicas importantes para conseguir um ambiente agradável nos dias quentes em sua casa, respondeu o empregado, mostrando-se disponível em ajudar.
Helena, uma mulher na casa dos quarenta, sentia-se só. Tinha sido mãe pela primeira vez aos trinta. E tudo tinha passado muito rápido até chegar aquela fase de solidão.
Pele clara, cabelo comprido escuro, alguns sinais do tempo espalhados pelo rosto, mas mantinha uma silhueta pouco habitual na sua idade, capaz de fazer inveja a muitas mulheres.
- Primeiro vai ser necessário lixar as madeiras, em toda a superfície, para remover os restos de tinta. Mas lembre-se, declarou aquele simpático empregado, sempre no sentido dos veios da madeira. No caso de madeiras com vernizes ou esmaltes deve remover-se todo o revestimento lixagem e/ou decapagem.
- Decapagem? perguntou como que surpreendida.
- Bem, na verdade, o processo de decapagem, aplica-se aos metais ferrosos. Neste caso é mesmo um processo de lixagem, corrigiu o empregado.
- Nesse caso, sr…
- Tiago, ao seu dispor.
- Sr Tiago, vou levar em primeiro lugar as lixas e ver como vai decorrer o processo.
- Aqui tem, duas lixas para madeira nr 80 e duas lixas nr 220, para começar.
- Porquê a numeração diferente? Helena começava a achar que o melhor seria encomendar o trabalho a alguém, mas ainda assim estava determinada em tentar por sua conta.
Pagou, depois de perceber que as lixas com numeração diferente têm as suas próprias finalidades e recebeu em troca o saco com o material.
Saiu da loja, eram cerca das onze da manhã, o tempo primaveril ameaçava alguns chuviscos.
Ainda assim decidiu arriscar naquele mesmo dia. Chegou a casa, e decidiu experimentar desde logo as lixas na madeira. Começou por usar a lixa mais grossa que serve para descascar os restos de tinta que ainda perduram nas madeiras da cerca. Começou a soltar um pó fino dos restos de tinta e logo depressa descobriu que tinha pó no cabelo e na roupa.
Foi a casa trocar de roupa e enfiou uma touca de plástico no cabelo, daquelas que os hotéis costumam oferecer, e calçou umas luvas de plástico que se recolhem nos postos de abastecimento de combustíveis. Retomou a tarefa.
Já passava da uma da tarde. Decidiu fazer uma pausa para comer qualquer coisa. O céu continuava a ameaçar e de súbito começaram a cair uns pingos de chuva. Quando terminou a sua breve refeição, espreitou lá para fora e o céu estava a desanuviar.
Voltou à tarefa a que se tinha proposto. Começava a ficar cansada daqueles movimentos repetitivos. As dores surgiam nos músculos dos braços. O que seria de si sem os braços? Sem a capacidade de movimento e de força? Não seria capaz de executar tarefas tão básicas como comer e beber, pensou.
Noutros tempos, queixava-me por estar longas horas frente ao computador, nomeadamente com dores ao nível do pulso, pelo facto de manusear o rato.
Já passava das quatro. Foi tomar um duche para depois ir buscar as crianças à escola. Helena não trabalha. Havia decidido tomar conta das crianças a tempo inteiro, vivendo apenas da pensão de viuvez de Alberto. Mas começava a sentir necessidade de fazer algo de produtivo. Talvez por isso, tivesse decidido levar por diante aquela empresa. Talvez venha um dia a fazer algo mais, como escrever um livro de poesias.
O perfume das flores andava no ar. A cor azul próxima de um tom índigo, é oferecida pela flor Ásia Douro. A pacata vila junto ao Douro é um lugar bom para viver, com uma paisagem própria do Éden, a tranquilidade espalhada pelas águas calmas do rio em tons de verde azeitona e os santuários distribuídos pelos montes e vales. Havias as festas e romarias. Um piquenique com as crianças à beira-rio e algumas histórias engraçadas. Helena estudou História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, mas nunca deu aulas, pois havia decidido mudar-se com Alberto para aquele simpático lugarejo perto do Pinhão. Agora está entregue a si própria e tem as crianças para educar.
Na segunda-feira dirigiu-se novamente à loja de tintas, à espera de encontrar aquele simpático empregado. Tinha sido bem tratada por ele e isso criou alguma expectativa. 
- Bom dia, atirou para o balcão.
- Bom dia, respondeu um homem de baixa estatura e bigodinho.
- O Sr Tiago, o vosso empregado, está?
- Ele é o sócio desta empresa. Tiago Silva. Vou chamá-lo.
- Ahh, exclamou Helena.
De súbito, surge Tiago, de camisa branca, calças de ganga, pele morena e cabelo liso curto. Dirige um simpático sorriso a Helena e cumprimenta-a percorrendo o seu corpo com um olhar discreto.
- Bom dia. Como vai?
- Muito cansada. Passei o fim de semana sozinha a tratar das grades. Se ao menos tivesse alguém para me ajudar…
- O próximo passo, será aplicar uma demão de tratamento preventivo com xylophene. Terei muito gosto em mostrar como se aplica e até dar uma ajuda.
- O sorriso desenhou-se no rosto de Helena, com um ligeiro rubor nas faces.
- Amanhã por volta as dez passarei por sua casa para lhe mostrar como se aplica o produto.
- Combinado respondeu Helena, levantando os sacos com as latas de xylophene.
- Até amanhã.
No dia seguinte, por volta das dez, chegou uma carrinha cinza prata. Aproximou-se do portão principal num verde musgo desbotado, faltando pedaços de tinta, onde criara ferrugem. Apitou duas vezes.
Helena espreitou pela janela da sala. Logo de seguida veio até cá fora e acenou em sinal para entrar.
Cumprimentou-a fixando-a nos olhos. Helena tentou relaxar. Inalou o seu perfume a madeiras exóticas, sentindo-se inebriada, fixando-se por breves instantes nos seus lábios, desviando de seguido o olhar para as cercas em madeira.
- Estavam mesmo a precisar de uma pintura, disse.
- Sim, vamos lá dar uma ajuda.
- Obrigado, não sei como lhe agradecer.
- Com um café e uma boa conversa, fazendo novo contacto visual, com os olhos azuis de Helena, como se procurasse o seu assentimento.
Levaram as latas de xylophene para o exterior e Tiago perguntou pelos pincéis.
- Não comprei. E agora? perguntou com ar de aborrecida.
- Não se preocupe. Eu trago sempre um kit com amostras de pincéis.
- Já me salvou o dia, respondeu num tom amigável, tocando ao de leve no seu ombro.
Tiago aplicou o produto nas cercas em madeira, exemplificando com movimentos suaves e contínuos. Helena, observou a aplicação do produto, mas também apreciou os seus ombros largos, dando um sinal de força e masculinidade. As suas mãos grandes, grossas e limpas vão passeando pelas tábuas de madeira da cerca, enquanto aplicam o produto.
Depois de terminar a cerca, Helena perguntou se ele poderia aplicar o produto no móvel antigo em madeira.
Respondeu afirmativamente, embora sugerindo que ela deveria tentar passar o xylophene na madeira do móvel. Segurou-lhe suavemente na mão com o pincel, molhando na lata e espremendo ligeiramente contra o rebordo da lata, criando uma proximidade tal que sentia o perfume de citrinos que emanava do seu pescoço, sentindo-se tentado a encostar os lábios.
Helena estava a gostar daquela ajuda. Também sentia o seu peito firme encostar à sua pele.
Pousaram os materiais e olharam fixamente nos olhos, aproximando-se de uma forma quase magnética culminando num toque entre os seus lábios, mordiscando até acontecer o beijo, num acto de entrega e intimidade provocando um certo nervosismo em ambos. Helena sentiu as suas mãos fortes percorrer os seus cabelos, nuca, costas e cintura, descaindo até às coxas.
- Ficamos por aqui, respondeu de forma atrapalhada, sentindo ainda o sabor almiscarado do beijo.
- Até amanhã, respondeu. Qual vai ser a cor da tinta? Branco ou verde-musgo.
- Vou mudar para branco. Preciso de ir lá buscar as tintas?
- Não. Eu trago amanhã tudo o que é preciso.
Estava na hora de ir buscar as crianças. Enquanto conduzia, cantarolava uma canção de infância, sem saber porque é que se tinha lembrado naquele momento.
Estava ansiosa pela chegada do dia seguinte, como uma criança espera pelo dia 25 para abrir as prendas de Natal.
Passava das dez e meia e nada. Será que aconteceu algo? Será que ainda vem? pensou. Calma, estás a exagerar, denotando alguma ansiedade. Dá mais um tempo, falou com os seus botões.
Ao fundo da estrada ouve-se o barulho de um carro. Já está a chegar. Depois verificou que se tratava de um carro vermelho, tendo ficado desiludida. O carro parou junto ao portão e saiu um homem de fato macaco e de óculos escuros e boné.
- Bom dia, disse, acenando com a mão.
- Bom dia, respondeu ainda meio incrédula.
Era Tiago, que vinha equipado para pintar a cerca.
- Por uns momentos não te reconheci.
- Sou mesmo eu, respondeu com uma gargalhada, realçando o seu sentido de humor.
Tirou as latas de tinta branca para pintar as cercas do jardim que também pedia alguns cuidados.
- Preparada para começar?
- Um minuto. Vou vestir uma camisa velha.
- Queres ajuda?
- Não. Obrigada.
Em dois minutos desceu preparada para começar a tarefa. O dia estava solarengo, correndo uma ligeira brisa. Os trabalhos de pintura decorreram sem sobressaltos. No final a cerca ficou branca como a neve, melhorando todo o seu aspecto.
Helena convidou Tiago para tomar uma bebida fresco, que aceitou prontamente. Foram lavar as mãos, deslocaram-se à cozinha e sem dar tempo de abrir o frigorífico, Tiago rodou-a para si e segurou o seu rosto de modo a fixá-la com os seus olhos negros e grandes. Beijou-a longamente, numa manifestação de muito carinho e paixão, num abraço envolvente até à alma.
- Amanhã venho dar a segunda demão.
- O que é isso? perguntou ainda sem ar.
- Necessita de uma segunda camada de tinta a fim de tornar a pintura mais uniforme.
No dia seguinte, lá apareceu por volta das onze para terminar o trabalho em casa de Helena. Pintou com uma segunda demão as cercas e com alguma ajuda de Helena que ainda sentia os braços doridos. No final da pintura, perguntou-lhe, com um sorriso nos lábios:
- Queres água fresca?
- Sim, respondeu sem quebrar o contacto visual com Helena.

Subiram para se refrescarem. Ele abriu-lhe a porta para lhe dar passagem e no corredor, segurou-a por um braço e apertou contra si. Beijaram-se demoradamente, colados entre si como se estivessem na fábrica do amor.

tinta permanente - João Pires - "Pintar as cercas em madeira do jardim"


tinta permanente João Pires

quinta-feira, 5 de maio de 2016

tinta permanente - João Pires - "Infinitos Horizontes"

Naquela manhã de Domingo, o sol despontava forte. Estávamos em Maio. Depois de preparar umas sanduíches de queijo e fiambre e enfiar umas garrafas reutilizáveis de água pura e fresca na mochila isotérmica, desceram ao passeio pedonal, com a bicicleta ainda com rodinhas de apoio. Este passeio também permite a circulação de bicicletas, embora ao fim de semana, da parte da tarde, se torne um pouco perigoso circular entre bicicletas que passam a toda a velocidade por entre aqueles que simplesmente caminham.
De manhã está menos gente a passear ou a correr naquele circuito de três quilómetros, que inicia no Palácio do Freixo, de majestosa arquitectura barroca e termina na Casa Branca em Gramido, onde foi assinada a 29 de Junho de 1847, a convenção que pôs fim à insurreição da Patuleia, guerra civil que durou oito meses. Mas todos os dias este passeio é percorrido por inúmeras pessoas.

Assim é mais fácil ensinar a criança a andar de bicicleta, pensou ele. Ajustados o capacete e as luvas, para fugir aos arranhões nas mãos e às escoriações na cabeça, um pequeno empurrão serviu para dar o primeiro impulso, como quem pousa o frágil barquinho de papel na água e depois dá um ligeiro sopro para o impulsionar.

tinta permanente João Pires Infinitos Horizontes
tinta permanente - João Pires - "Infinitos Horizontes"


Mesmo com rodinhas, a bicicleta lá vai a um ritmo irregular e oscilando ora para um lado ora para o outro, embora, tendencialmente para um dos lados, ou porque a rodinha está mais baixa, ou porque a criança se inclina mais para aquele lado.

Primeiro não foi difícil convencê-lo em andar de bicicleta, pois a curiosidade venceu todos os obstáculos e depois de trepar para cima do selim, o grau de auto confiança mantém-se lá em cima.

Depois de um passeio de meia hora, sentaram-se debaixo da sombra de uma árvore e refrescaram-se com a água levada de casa. A paisagem é magnífica. A ponte do Freixo lá ao fundo, o Palácio do Freixo, mais próximo e os barquinhos valboeiros ancorados mesmo ali ao lado, naquele porto seguro. Por trás, estão os pequenos abrigos dos pescadores que servem para guardar as redes e os utensílios de pesca. Ao lado foi construído o parque infantil e um campo de voleibol. Lá em cima está a capela de São Pedro a vigiar o Rio Douro, de dia e de noite.

Na semana seguinte regressaram ao pedonal, desta vez, com a bicicleta já sem rodinhas de apoio. O Tiago estava entusiasmado como sempre, porque ia andar de bicicleta, ponto. Não lhe passava pela cabeça que daquele dia em diante iria andar na sua bicicleta sem qualquer apoio.
Sem qualquer apoio é uma forma de expressão, pois passaria a ter toda  a atenção de seu pai, nas primeiras tentativas.

No início parecia-lhe muito estranho ter que colocar o pé no pedal e arrancar. Então foi necessário, vezes sem conta, que o seu pai, lhe desse a partida, segurando no selim e acompanhando em passo de corrida, até ficar com dores nas costas de segurar na bicicleta em posição curvada.

-Mais, pedia. Quero mais.
-Agora já gostas de andar de bicicleta sem rodinhas?
-Sim. Dá mais liberdade.
-Vamos recomeçar. Pé direito no pedal, fazes força e começas a pedalar. Entendido?
-Pai. Não tires a mão do selim. Ok? Suplicava.

Começou a pedalar, perdendo por vezes o equilíbrio. Tudo de novo. Sempre que recomeçava, tinha a tendência para olhar para a roda da frente, fazendo-o perder o equilíbrio.

-Olha lá para diante, pede o pai.
-Como é que vou olhar lá para diante, se a bicicleta está aqui e eu estou sentado em cima dela? Só consigo olhar para a roda.

O pai sem saber explicar, apenas lhe pedia que olhasse para longe. Sempre que ele olhava para a roda da frente, o que era uma grande tentação, perdia o equilíbrio e caía.
Sim, cair faz parte do processo de aprendizagem para andar de bicicleta.
Mas o importante era aprender a andar de bicicleta e ganhar liberdade. Era a sua missão. Liberdade para voar e sonhar. De repente, Tiago levantou voo, pois a passada do pai não foi suficiente para acompanhar a sua pedalada.

Ele lembrava-se daquilo que o seu pai lhe dizia quando foi a sua vez de aprender a andar de bicicleta. “Olha lá para diante”. Foi um dos primeiros miúdos lá da rua a aprender a andar de bicicleta, bem como o seu irmão mais novo. E como o seu pai tinha um coração largo, também ensinou, como pode, os outros miúdos a andar de bicicleta. Felizmente ninguém se magoou a sério. Nem o Zé que foi literalmente largado da rampa da garagem, e quase em pleno voo aterrava no pombal do Sr Costa.

Depois passou a ser hora sagrada, a chegada do trabalho, para abrir a garagem e soltar bicicletas que quase andavam por si só, alimentadas por pernas que acumularam energia e sonhos durante o dia para pedalar ao fim da tarde.

“Olha lá para diante” é quase um mandamento que nunca mais saiu da sua cabeça. Primeiro porque foi a fórmula mágica para aprender a andar de bicicleta, mas também porque depressa descobriu que é o lema da sua vida.

Não olhes para a roda, sob pena de perderes o equilíbrio.

É importante aprender a andar de bicicleta o quanto antes e se possível pela mão dos pais. Não que as escolas para adultos não tenham a sua missão ao ensinar a andar de bicicleta quem nunca teve oportunidade de aprender em pequeno, mas porque também ensinam a andar de bicicletas em locais mais movimentados como cidades grandes. Em qualquer idade, basta ter vontade, disposição e mente aberta, como seja com o amor de pai, prometem.

Olhar lá bem para diante, pode significar a descoberta de infinitos horizontes.


João Pires

05-Maio-2016


tinta permanente João Pires

sexta-feira, 29 de abril de 2016

tinta permanente - João Pires - "Viagem Pendular"

Viagem Pendular por João Pires

http://tinta-permanente.blogspot.pt/


Seis da manhã. O sono abandonou-me. O dia começa a clarear. Entrelacei os dedos das mãos e pousei-as em cima do peito. Inspiro fundo e prolongadamente.
Gabriela dormia a meu lado um sono descansado. O dia de ontem tinha sido intenso e eu tive a oportunidade de partilhar a sua felicidade durante o almoço.

Levantei-me calmamente e dirigi-me à cozinha para beber um copo de água. Antes de chegar ao destino, fui barrado pelas gatas de quatro patas lá de casa. Queriam mimos. Depois de lhes passar a mão pelo pêlo, prossegui as tarefas matinais. Descongelar as fatias de pão. A gaveta estava presa. Duas pancadas secas e já está. Um batido de leite e cacau para as crianças e leite com cereais para mim.

Espreitei lá para fora e a neblina pesava sobre o rio. Pouco tempo depois começou a levantar.

Entretanto chega o Tiago já vestido, pronto a tomar o pequeno-almoço.
-Bom dia filho
-Bom dia, respondeu em voz lenta.
Duas torradas de pão escuro com manteiga e a caneca à frente, acompanhado do tablet em cima da mesa, claro.

Coloquei o relógio no pulso, enfiei as calças e vesti a camisa. Apertei a gravata. Despedi-me de Gabriela e dos meninos.

-Até logo.
-Boa viagem papá, responderam.

Já na estação de Campanhã, as gares estavam movimentadas. Comboio 620 é na linha oito, confirmei no placard electrónico. Desci as escadas apenas com uma pasta preta na mão, atravessei o túnel por baixo das linhas até alcançar a oito.

Um vaivém de passageiros. Alguns a chegar, outros a partir.
O comboio chegou quase dez minutos antes da hora o que deu tempo suficiente para todos os passageiros subirem às carruagens respectivas e se instalarem devidamente nos seus lugares.

Morena, óculos de sol enfiados no cabelo, calças justas, casaco azul petróleo, chega com uma mochila e uma mala verde. Entrou em Coimbra, com a respiração ofegante, provavelmente chegou atrasada à estação. Enfiou a mala na prateleira superior, por cima do seu lugar e pousou a mochila ao seu lado. Passado uns momentos, tirou umas bolachas e começou a mordiscar.


tinta permanente - blogue - Viagem Pendular por João Pires
Viagem Pendular por João Pires

-Venho de férias e recebo um horário de trabalho por turnos que não lembra ao diabo.
Devem achar que lá por a gente não ter filhos ou estar casada não tem vida própria. A sério: estou passada. Queria ir trabalhar para um centro de saúde. Fez-se uma pausa e respondeu.

Fechei o meu livro. Primeiro porque as letras atraiçoavam os meus olhos, bailando ao ritmo do balanço do comboio.
Depois porque a voz daquela moça com sotaque de África, conseguiu atrair a minha atenção.

-Só posso no sábado ao almoço ou no domingo para um lanche ou jantar. Percebeste? Sábado ao almoço ou no Domingo para um lanche ou jantar. No sábado à noite tenho um jantar com as colegas do serviço e vocês como não as conhecem, seria desagradável. Sinceramente, prefiro estar só com vocês. Convida a Ana e a Nara. Beijos. Desligou o telemóvel.

O sol vai alto, próximo do meio dia e a temperatura começa a aumentar, devem estar uns 17 ou 18 graus, pensa.

Surge o revisor e pede o bilhete. Procura no bolso e não está lá. Pede ao revisor que aguarde uns momentos e verifica na carteira. Também não encontrou. Toca o telemóvel e não atende. Passa em revista a mochila, enfiando a mão até ao fundo. Nada. O telemóvel volta a tocar. Desligou-o.
O revisor perguntou se tinha comprado um bilhete electrónico, pois bastaria apresentar o documento de identificação. Respondeu negativamente. Tinha o bilhete em papel. Pediu ao revisor que passasse dali a dois minutos. Assentiu, percorrendo o carruagem que tinha apenas mais oito ou nove passageiros naquela quarta-feira como tantas outras.
Quando regressou ao lugar 12 da carruagem 11, ela ainda não tinha encontrado o bilhete, no entanto como o revisor tinha vindo do lado oposto, perguntou-lhe se o bilhete não seria aquele papel caído no chão debaixo do assento.
Puxou o papel e verificou que se tratava efectivamente do bilhete desaparecido. Obliterou-o e desapareceu. Suspirou de alívio e encostou a cabeça por uns momentos. Depois tirou o telemóvel da carteira e foi ver quem. tinha tentado ligar-lhe.

De súbito ouve-se uma voz metálica:
-Senhores passageiros, dentro de momentos chegaremos à estação de Vila Franca de Xira. Obrigado.

Pairam algumas nuvens no ar, apesar do sol se fazer sentir em toda a sua plenitude.
O tecto branco do interior da composição e a luz exterior coada pelas cortinas verdes do Intercidades evocam a natureza. Estava fresco dentro da carruagem, devido ao ar condicionado.

À minha frente está sentado um homem de cabelo ralo e camisa branca, com cotoveleiras castanhas e pintas brancas. Pendurou a mão no varão em aço superior, junto à janela como que para descansar. Fez uma chamada telefónica murmurando uma palavras impossíveis de decifrar, sobretudo pelo abafar do ruído provocado pelas rodas da composição e pelo ritmo cadenciado na passagem das juntas de união dos carris, em jeito de música minimal repetitiva. Do meu lugar, apenas consigo ver a zona calva da sua cabeça.

De cada vez que outro comboio se cruza no sentido oposto, provoca uma força de sucção junto às janelas, quase arrancando-as.

A voz metálica repete-se, desta vez para anunciar a estação-destino: Oriente.

A maioria dos passageiros saiu naquela gare. Hoje em dia, são poucos os que prosseguem viagem até o fim da linha, a histórica Santa Apolónia. O dia mantém-se bonito.

Depois de comprar uma sanduíche de atum e tomate seco e um sumo natural de frutos vermelhos, atravessei o Centro Vasco da Gama, passei ao lado do Meo Arena e sentei-me num daqueles bancos listados às cores, situados mesmo à beira-rio, debaixo da copa de um pinheiro, que produz frescas sombras.

-Trouxe esta comida de casa, ouve-se num banco atrás, sem conseguir ver quem era a rapariga que estava a falar. Não rodei a cabeça intencionalmente. Depois de escutar mais uns minutos, deviam estar sentados pelo menos três pessoas.
-Ou odeia ou ama. Eu adoro, diz com uma pronúncia de português do Brasil.
-Eu não gosto nem desgosto, responde outra voz feminina, depois de provar.
-Tem mandioca? Perguntam?
-Eu estava na Suíça, quando recebi uma multa das Finanças. O valor de vinte euros, por ter declarado zero nos rendimentos, porque não trabalhava em Portugal, mas tinha um carro registado em meu nome. Não liguei. Passados uns meses, recebi nova carta com uma coima de quinhentos euros. Aí já me preocupei e fui pedir o pagamento em prestações, o que me foi concedido. Quando fui pagar a primeira prestação, informaram que o processo tinha sido arquivado, em face da minha reclamação, alegando que sou emigrante. Não é fantástico?

Terminaram o almoço e levantaram-se. Eram sete.

O dia passou a correr.

Estava na hora de regressar a Campanhã. Desta feita o comboio é branco por fora e azul por dentro.

-Senhor, a sua carruagem vai parar junto ao segundo elevador.
-Obrigado.

Depois de me instalar, dei uma breve leitura no jornal e terminei o meu livro.


Viagem Pendular

João Pires



tinta permanente João Pires
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