Viagem Pendular por João Pires
http://tinta-permanente.blogspot.pt/
Seis da manhã. O sono abandonou-me. O dia começa a clarear. Entrelacei os dedos das mãos e pousei-as em cima do peito. Inspiro fundo e prolongadamente.
Gabriela dormia a meu lado um sono descansado. O dia de ontem tinha sido intenso e eu tive a oportunidade de partilhar a sua felicidade durante o almoço.
Levantei-me calmamente e dirigi-me à cozinha para beber um copo de água. Antes de chegar ao destino, fui barrado pelas gatas de quatro patas lá de casa. Queriam mimos. Depois de lhes passar a mão pelo pêlo, prossegui as tarefas matinais. Descongelar as fatias de pão. A gaveta estava presa. Duas pancadas secas e já está. Um batido de leite e cacau para as crianças e leite com cereais para mim.
Espreitei lá para fora e a neblina pesava sobre o rio. Pouco tempo depois começou a levantar.
Entretanto chega o Tiago já vestido, pronto a tomar o pequeno-almoço.
-Bom dia filho
-Bom dia, respondeu em voz lenta.
Duas torradas de pão escuro com manteiga e a caneca à frente, acompanhado do tablet em cima da mesa, claro.
Coloquei o relógio no pulso, enfiei as calças e vesti a camisa. Apertei a gravata. Despedi-me de Gabriela e dos meninos.
-Até logo.
-Boa viagem papá, responderam.
Já na estação de Campanhã, as gares estavam movimentadas. Comboio 620 é na linha oito, confirmei no placard electrónico. Desci as escadas apenas com uma pasta preta na mão, atravessei o túnel por baixo das linhas até alcançar a oito.
Um vaivém de passageiros. Alguns a chegar, outros a partir.
O comboio chegou quase dez minutos antes da hora o que deu tempo suficiente para todos os passageiros subirem às carruagens respectivas e se instalarem devidamente nos seus lugares.
Morena, óculos de sol enfiados no cabelo, calças justas, casaco azul petróleo, chega com uma mochila e uma mala verde. Entrou em Coimbra, com a respiração ofegante, provavelmente chegou atrasada à estação. Enfiou a mala na prateleira superior, por cima do seu lugar e pousou a mochila ao seu lado. Passado uns momentos, tirou umas bolachas e começou a mordiscar.
![]() |
| Viagem Pendular por João Pires |
-Venho de férias e recebo um horário de trabalho por turnos que não lembra ao diabo.
Devem achar que lá por a gente não ter filhos ou estar casada não tem vida própria. A sério: estou passada. Queria ir trabalhar para um centro de saúde. Fez-se uma pausa e respondeu.
Fechei o meu livro. Primeiro porque as letras atraiçoavam os meus olhos, bailando ao ritmo do balanço do comboio.
Depois porque a voz daquela moça com sotaque de África, conseguiu atrair a minha atenção.
-Só posso no sábado ao almoço ou no domingo para um lanche ou jantar. Percebeste? Sábado ao almoço ou no Domingo para um lanche ou jantar. No sábado à noite tenho um jantar com as colegas do serviço e vocês como não as conhecem, seria desagradável. Sinceramente, prefiro estar só com vocês. Convida a Ana e a Nara. Beijos. Desligou o telemóvel.
O sol vai alto, próximo do meio dia e a temperatura começa a aumentar, devem estar uns 17 ou 18 graus, pensa.
Surge o revisor e pede o bilhete. Procura no bolso e não está lá. Pede ao revisor que aguarde uns momentos e verifica na carteira. Também não encontrou. Toca o telemóvel e não atende. Passa em revista a mochila, enfiando a mão até ao fundo. Nada. O telemóvel volta a tocar. Desligou-o.
O revisor perguntou se tinha comprado um bilhete electrónico, pois bastaria apresentar o documento de identificação. Respondeu negativamente. Tinha o bilhete em papel. Pediu ao revisor que passasse dali a dois minutos. Assentiu, percorrendo o carruagem que tinha apenas mais oito ou nove passageiros naquela quarta-feira como tantas outras.
Quando regressou ao lugar 12 da carruagem 11, ela ainda não tinha encontrado o bilhete, no entanto como o revisor tinha vindo do lado oposto, perguntou-lhe se o bilhete não seria aquele papel caído no chão debaixo do assento.
Puxou o papel e verificou que se tratava efectivamente do bilhete desaparecido. Obliterou-o e desapareceu. Suspirou de alívio e encostou a cabeça por uns momentos. Depois tirou o telemóvel da carteira e foi ver quem. tinha tentado ligar-lhe.
De súbito ouve-se uma voz metálica:
-Senhores passageiros, dentro de momentos chegaremos à estação de Vila Franca de Xira. Obrigado.
Pairam algumas nuvens no ar, apesar do sol se fazer sentir em toda a sua plenitude.
O tecto branco do interior da composição e a luz exterior coada pelas cortinas verdes do Intercidades evocam a natureza. Estava fresco dentro da carruagem, devido ao ar condicionado.
À minha frente está sentado um homem de cabelo ralo e camisa branca, com cotoveleiras castanhas e pintas brancas. Pendurou a mão no varão em aço superior, junto à janela como que para descansar. Fez uma chamada telefónica murmurando uma palavras impossíveis de decifrar, sobretudo pelo abafar do ruído provocado pelas rodas da composição e pelo ritmo cadenciado na passagem das juntas de união dos carris, em jeito de música minimal repetitiva. Do meu lugar, apenas consigo ver a zona calva da sua cabeça.
De cada vez que outro comboio se cruza no sentido oposto, provoca uma força de sucção junto às janelas, quase arrancando-as.
A voz metálica repete-se, desta vez para anunciar a estação-destino: Oriente.
A maioria dos passageiros saiu naquela gare. Hoje em dia, são poucos os que prosseguem viagem até o fim da linha, a histórica Santa Apolónia. O dia mantém-se bonito.
Depois de comprar uma sanduíche de atum e tomate seco e um sumo natural de frutos vermelhos, atravessei o Centro Vasco da Gama, passei ao lado do Meo Arena e sentei-me num daqueles bancos listados às cores, situados mesmo à beira-rio, debaixo da copa de um pinheiro, que produz frescas sombras.
-Trouxe esta comida de casa, ouve-se num banco atrás, sem conseguir ver quem era a rapariga que estava a falar. Não rodei a cabeça intencionalmente. Depois de escutar mais uns minutos, deviam estar sentados pelo menos três pessoas.
-Ou odeia ou ama. Eu adoro, diz com uma pronúncia de português do Brasil.
-Eu não gosto nem desgosto, responde outra voz feminina, depois de provar.
-Tem mandioca? Perguntam?
-Eu estava na Suíça, quando recebi uma multa das Finanças. O valor de vinte euros, por ter declarado zero nos rendimentos, porque não trabalhava em Portugal, mas tinha um carro registado em meu nome. Não liguei. Passados uns meses, recebi nova carta com uma coima de quinhentos euros. Aí já me preocupei e fui pedir o pagamento em prestações, o que me foi concedido. Quando fui pagar a primeira prestação, informaram que o processo tinha sido arquivado, em face da minha reclamação, alegando que sou emigrante. Não é fantástico?
Terminaram o almoço e levantaram-se. Eram sete.
O dia passou a correr.
Estava na hora de regressar a Campanhã. Desta feita o comboio é branco por fora e azul por dentro.
-Senhor, a sua carruagem vai parar junto ao segundo elevador.
-Obrigado.
Depois de me instalar, dei uma breve leitura no jornal e terminei o meu livro.
Viagem Pendular
João Pires
| tinta permanente João Pires |
Para receber mais poemas e informações sobre novos livros, pf visite
