tinta permanente - João Pires - 2016
“Fotografar as estrelas”
Humberto, na casa dos quarenta, de óculos de massa preta e lentes garrafais é um verdadeiro apaixonado por estrelas. Não, não são estrelas do cinema nem da música mas sim aquelas estrelas que estão lá em cima e todas as noites fazem vigília. Por volta dos vinte teve outra paixão. A Julita, mas esta emigrou.
Foi trabalhar para a Suíça como criada de quarto num hotel de luxo. Lá pelo aniversário ou pelo Natal ou quando calha, recebe um postal, daqueles pré-preenchidos, pois escrever não é o seu forte e os erros de português abundam. Nada que incomode Humberto, pois o que lhe interessa é saber se ela está bem e admirar um pouco o postal por ela escolhido. No fim vem sempre a mesma assinatura em letra tremida, própria de quem não está habituada a escrever. Júlia Monteiro é a sua assinatura.
Julita brincava com Humberto e caminhavam descalços no riacho. De cabelo negro comprido, usava-o quase sempre apanhado, pelo facto de ser mais prático.
Agora Humberto estava entregue às suas estrelas. Suas é como quem diz. Às estrelas do Universo. Vive em casa da sua mãe, que conta com idade própria para pedir a reforma. Do pai nunca teve notícias. Talvez essa seja uma das razões para procurar respostas nas estrelas, uma vez que da mãe também nada conseguiu retirar.
Humberto tem uma dificuldade acrescida para apreciar as estrelas. As lentes garrafais de quinze e dezoito dioptrias impediam-no de conseguir a focagem ideal. Se encostava os óculos ao telescópio a focagem fugia e as lentes embaciavam. Se retirava os óculos, tinha que reajustar o ocular do telescópio.
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Aliás, a única possibilidade de focar a imagem na retina, sem óculos, é aproximar o olho da lente e focar a uma distância proporcional ao valor da miopia.
Já passou por privações para assistir a espectáculos de luz e estrelas. Uma vez começou na noite de 3 de Maio e só terminou passado uma semana. Uma verdadeira maratona sem ir à cama ou a dormir como calha durante o dia. Humberto faz entregas rápidas durante o dia para seu sustento e para ajudar lá em casa. Por vezes as entregas não são assim tão rápidas quanto o prometido pelo transportador e os clientes queixam-se.
Na semana passada tinha sido agendado uma entrega urgente de um equipamento de diagnóstico médico proveniente do Japão, para as nove horas da manhã no consultório médico. Já lá tinha pacientes à espera de serem diagnosticados com aquela máquina. Atrasou-se. Tinha adormecido e não havia despertador ou telemóvel que o acordasse. Os pacientes esperaram uma hora e mais outra sem que fossem informados do motivo do atraso da consulta. Nem a sua mãe lhe podia valer porque tinha ido a uma sessão de fisioterapia e iria chegar mais tarde. Como mais ninguém podia substituir Humberto porque este tinha ido levantar, de véspera, a encomenda à Central de Distribuição para que tudo fosse mais fácil no dia seguinte, o Xico, seu colega de trabalho, foi lá acordá-lo, a pedido, porque é seu vizinho. Bate furiosamente à porta da casa geminada de piso térreo.
-Acorda. Acorda Humberto.
-Humm. Quem é? Pergunta, espreguiçando-se à beira da porta.
-O Pai Natal. Quem querias que fosse? Sou eu, o Xico.
Este ainda deve estar na Lua, pensou.
-Liga-te à Terra. Alô Terra. Escuto.
-Já vou, assentiu, abrindo a porta.
-Não tens uma encomenda urgente para entregar? Perguntou.
Esboçou uma cara de espanto. Puxou a camisola perdida no sofá. Enfiou as calças de ganga, calçou os sapatos, pegou na encomenda e zarpou com um sumido “Até logo”, cabendo ao Xico a incumbência de fechar a porta da rua.
De regresso a casa, por volta das três, enfiou uma sandes de couratos e uma mini pelo bucho abaixo e foi esticar-se no sofá, tendo apenas tido tempo para descalçar os sapatos e desapertar o cinto.
Adormeceu contando ovelhas brancas a pular a cerca e a olhar para o céu estrelado com a seguinte pergunta na cabeça: Julita, Julita, por onde andas?
Mais tarde, já noite, acordou com o Salazar a lamber-lhe o nariz. Pára Salazar, empurrando o cão para o chão.
Salazar acedeu à ordem mas olhava insistentemente, pedindo para o levar à rua.
-Está bem. Vamos dar uma voltinha e afagou a cabeça ao cão.
Do parco vocabulário apreendido pelo cão, a palavra voltinha constava e significava uma saída à rua. A cauda não mais parou de abanar. Começou a arfar e fazia o caminho sofá-porta e regressava da porta da rua em direção ao sofá. “Vá lá. Não posso mais, suplicava Salazar com os seus olhos”.
-Já lá vou. Deixa-me calçar os sapatos.
Toca o telefone.
-Sim? És tu mãe?
-Olá filho. Deixei-te frango assado.com batatas no forno beijos. Até logo.
-Obrigado mãe. Até logo. Beijinhos.
Estava a chegar a hora das estrelas. Hoje era dia de tentar conseguir ver a chuva de estrelas Eta Aquaridas, pois estamos em Maio. Até 60 meteoros por segundo, provocados por detritos do famoso cometa Halley. Da sua casa via-se com relativa facilidade, pois estava situada nos arrabaldes da cidade, numa zona maioritariamente agrícola e portanto com pouca luz, produzindo pouca poluição luminosa, principalmente a partir da meia-noite. Fotografar planetas e estrelas sempre foi o seu sonho desde criança. Mesmo que isso implique alguma privação de sono, destinos ermos ou situações inóspitas.
Em pequeno, começou por experimentar uma noite no quintal, com um telescópio antigo, quase artesanal, herança do seu avô.
Depois veio a fotografia astronómica. Adaptou a máquina fotográfica ao telescópio e começou a fotografar. No início apenas conseguia registar pintas de luz. Depois começou a aperfeiçoar a técnica e passou a registar planetas distantes.
Começaram a aparecer fotos fantásticas do céu nocturno, depois de noite perdidas e percorridos lugares distantes.
Conseguiu captar arrepiantes imagens nocturnas, em agosto desse ano, com a chuva de estrelas Perseidas, a qual irradia da constelação Perseus, mas pode surgir em qualquer parte do céu, pelo que é necessário estar com mil olhos e muita atenção. Por vezes Salazar adormece aos pés de Humberto, nas noites longas de observação das estrelas.
A paixão pelas estrelas é tão grande, que o seu quarto continua decorado no tecto branco com pequenas estrelas que emitem luz no escuro.
Já em Outubro, quando as noites começam a arrefecer, muniu-se de roupa quente contra o frio da noite, voltou a verificar o estado do tempo, despediu-se da mãe com um beijo na testa e enfiou Salazar no carro, o seu companheiro das noites longas. Zarpou em direcção à serra, onde a poluição luminosa causada pela luz excessiva das cidades, é quase nula.
Nessa noite, conseguiu fotografar rastos de estrelas e o mundo a rodar à sua volta.
Fotografou ainda o céu no crepúsculo e os pedaços de lua.
Estava às voltas com a focagem do telescópio com as grossas lentes pelo meio, quando começa a tocar o telemóvel. Raios, quem será a esta hora?
Pousou a máquina fotográfica em cima do capô do carro, procurou o telemóvel no bolso e arrancou-o de uma só vez. Tinha parado de tocar. Quem seria àquela hora?
Número desconhecido. E o céu. Magnífico para desfrutar ali no meio da serra. Parou para fumar um cigarro. Prendeu o cigarro nos lábios e logo veio aquele aroma a tabaco fresco pelas narinas acima, salivando à espera do primeiro trago de fumo, enquanto procurava pelo isqueiro dentro dos bolsos.
Toca de novo. Desta vez demorou cinco segundos a pegar no telemóvel.
-Sim?
-Boa noite. Estou a falar com o Sr Humberto Oliveira?
-Ele mesmo.
-Daqui é da companhia de seguros “Seguro” e está a falar com Tânia Rocha. É oportuno falar consigo agora.
-Agora não é possível, pois acabo de ver uma estrela rara. Boa noite
-Estrela rara? Boa noite, respondeu em voz desiludida.
Um dia destes vou fotografar a via láctea, disse tentando esquecer aquele telefonema inoportuno. O brilho difuso de 300 biliões de estrelas na nossa galáxia, com faixas de poeira escura sobrepostas, é um dos temas mais impressionantes que eu tenho para fotografar, murmurou.
No hemisfério norte, está mais bem posicionado nas noites de Junho a Setembro, mas é possível vê-lo durante todo o ano.
Adormeceu no carro por volta das cinco da manhã, quando céu começou a clarear.
Depois regressou a casa e foi aparar a sua barba de sete dias, despiu a roupa e olhou-se ao espelho.
Não estás mal aos quarenta para quem deita abaixo umas mini e come sandes de couratos, observou, como quem se quer justificar. Mas a barriguinha começava a espreitar.
Entrou no chuveiro e começou a cantarolar uma música que a Julita sabia tão bem.
Tocou a campainha uma vez e parou. Passado um pouco voltou a tocar destas vez com dois toques quase seguidos e determinados.
Humberto saiu do chuveiro, enrolou uma toalha à volta da cintura e colocou os óculos de toupeira que apesar de embaciados eram a sua peça de roupa mais importante. Sem eles era como se estivesse completamente nu.
Aparece uma silhueta de uma rapariga à porta. Talvez fosse uma rapariga mais crescida, observando melhor.
-Sim?
-Humberto? Perguntou a voz feminina rouca.
-Sim sou eu, respondeu quase adivinhando, mostrando um ténue sorriso.
-Sou eu, a Julita.
-Julita? Perguntou, começando a distinguir as suas faces, à medida que as lentes vão desembaciando.
Abraçaram-se num longo beijo, sem pedir licença. Até ver estrelas. E Julita estava lá, no meio delas.
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