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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

CELEBRAÇÃO DAS EXÉQUIAS - poema por João Pires

Celebração das exéquias
Das palavras mortas
Dos poemas que são enguias
Se escapam das mãos rotas
Quando se forma a claque
Para aplaudir as palavras
Poesia sem ataque
Ideias sem amarras
Mulheres celebradas
Em palavras saboreadas
Mulheres detestadas
Por seres misóginos
Vilipendiar publicamente
Vaiar com desprezo
Amar despudoradamente
Para sair ileso
Racismo no mundo
Cor da pele ou etnia
Até quando este submundo
Quero viver com alegria
Sou resiliente
Sou sonhador
Neste mundo de gente
Para viver sem dor
Qual anátema me caiu
Para viver nesta execração
Sinto vergonha desta nau
Quero acabar com a maldição
Ah se eu pudesse solicitar
Pedir com instância
Para que o mundo pudesse rimar
Viver em concordância

19-02-2020
João Pires

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Cadela perdida na auto-estrada

No regresso a casa, após mais um dia de trabalho, circulava na auto-estrada, pensando em chegar a casa, depois de passar pelo supermercado para comprar pão fresco. O dia estava a chegar ao fim ajudado pelo céu encoberto. Ele viaja geralmente sem música. Gosta de se entregar aos seus pensamentos, viajando eternamente. A sua imaginação não tem limites e sempre que se entrega a esse exercício, gosta de sonhar mais e mais. O seu cão esperava-o para o passeio habitual ao final do dia. 

Já a meio do percurso de 7 quilómetros, apercebe-se de um animal à deriva na berma da auto-estrada. Teve uma reacção numa fracção de segundos. Não pára e vai levar o seu cão a passear como habitualmente. Até porque parar naquele local, próximo de uma saída, seria extremamente perigoso, não só pela paragem pelos curiosos que gostam de ver o que se passa, mas sobretudo pelo facto de o animal poder saltar para a estrada, obrigando os carros a desviarem-se e poderem embater no seu carro ou sofrer o risco de atropelamento.  



Não teve dúvidas. 

Decidiu parar logo de imediato, a seguir ao local onde o cão de pelo branco vagueava. Ligou os 4 piscas uma vez que o carro estava imobilizado numa zona de perigo. Vestiu o colete amarelo e montou o triângulo de sinalização um pouco afastado do carro. Os carros passavam por si como balas e o cão dava sinais de stress. Fugia dele com medo e mostrava-se ofegante. 

Ele tentou encaminhar o cão baixo e largo para a mala do seu carro. Mas de cada vez que ele tentava aproximar-se o cão fugia um pouco mais, percorrendo a berma. Ele temia que o cão saltasse para a faixa de rodagem. 

Os carros passavam, os condutores olhavam e seguiam marcha. Talvez a decisão mais segura, pensou ele. De súbito para um carro azul e sai de lá de dentro uma senhora que veio dar apoio, logo de seguida parou uma carrinha amarela petmobile, daquelas que fazem tosquias e dão banhos ao domicílio. 

O rapaz trazia uma trela para imobilizar o animal. Eles não se deram conta que as pessoas iam aparecendo do nada para apoiar uma causa comum. Mas isso foi confortando naquela situação difícil e ele percebeu que outras pessoas também se interessavam por um animal perdido na estrada. Finalmente o cão foi imobilizado pela trela que aperta o pescoço em caso de emergência. Percebeu que se tratava de cadela já com alguma idade, cicatrizes no pelo e que tinha acabado de ter uma ninhada.  

A cadela não tinha sede nem fome, sinal que estaria ali há pouco tempo.  
Pouco tempo depois chegou uma veterinária que procurou o chip, mas não havia sinal. 
  
A velha cadela não tinha qualquer identificação. Não tinha sequer coleira. Já tinha sido pedido assistência rodoviária, mas tardava em aparecer. Ele preferiu pensar que estariam muito ocupados a resolver outros problemas nas estradas.  


  
A mente humana é fértil e em conjunto ainda mais. Talvez tenha sido abandonada na estrada. Não tem coleira nem chip, é velha e acabou de ter uma ninhada. Ele pensou que a cadela provavelmente teria entrado na auto-estrada pela via de acesso.  
  
Enquanto esperavam pela assistência rodoviária, algumas pessoas chegaram e partiram em função das suas responsabilidades. Não houve uma pessoa sequer que tivesse apenas parado pela curiosidade mórbida de assistir a qualquer cena trágica. 
  
Mantiveram-se firmes o rapaz da petmobile, a veterinária e ele.  
  
Ao fim de 40 minutos e depois de insistir com o pedido de apoio via telefone, chegou finalmente o carro de assistência nas estradas.  
  
O homem saiu e cumprimentou os presentes. A primeira pergunta saiu. “Alguém quer ficar com a cadela?” Todos os presentes responderam que já tinham os seus animais. “Vamos ter que a levar para o canil… o canil está cheio…”  
  
Estavam todos sem saber o que fazer a seguir perante aquela afirmação. Pairava um sentimento de culpa sem sentido.  
Ele afirmou que todos os presentes estavam ali para dar o seu melhor e nada mais havia a fazer. 

Tiraram-se as últimas fotos, o último afago, a última despedida, sem saber qual seria o destino daquela cadela de olhar meigo. O seu olhar também se mostrava apreensivo, apesar de se ter deixado levantar ao colo. 

Aquela cadela não tinha alternativa. Tinha que confiar naquelas pessoas. Aceitou o seu destino. 

Trocaram alguns contactos na esperança de saberem o que iria acontecer à cadela de nome desconhecido. 

Mais tarde a médica veterinária enviou-lhe uma mensagem dizendo que quando a cadela foi entregue no canil, o seu dono já por lá tinha passado à sua procura. 

A mensagem foi passando e causou um misto de reacções. Primeiro o dono foi julgado sem ter tido o direito a justificar-se ou a defender-se. Depois causou uma sensação de bem-estar generalizada porque a cadela tinha sido devolvida ao seu dono. A cadela apresentava uma idade considerável, mas estava bem nutrida. As suas maminhas indicavam que tinha sido mãe há pouco, de acordo com a análise da veterinária, mas desconheciam o paradeiro da ninhada. 
A cadela não tinha chip, quando já é obrigatório por lei. Nem tinha sequer coleira. A ideia de uma cadela andar à deriva na auto-estrada é preocupante não só pela vida do animal mas também pelos prejuízos que poderia provocar no trânsito e sobretudo o risco de acidente ou vida de condutores e passageiros. 

reacção tem sido em cadeia nas redes sociais, alertando para aspectos não incluídos neste texto, mas que demonstram sempre todo o carinho pelos animais. Mesmo sabendo que a cadela regressou ao seu dono, este tipo de divulgação de uma acção bem-sucedida, demonstra que vale sempre a pena tentar. 
Ter animais em casa é uma atitude de responsabilidade. É um ser vivo que depende das pessoas para sobreviver. Enquanto o ser humano continuar a maltratar os animais que vivem consigo e os outros, destruir a natureza, poluir os rios, poluir o ambiente e tanto mais, está a demonstrar que não gosta de si mesmo. Nem de si mesmo nem dos seus descendentes. 

16-02-2020 

João Pires 


terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Beijos que se encontram num abraço - poema

Beijos que se encontram num abraço 
Sonhei um abraço interminável  
Me confessei no teu doce regaço 
Numa tarde de sol inesquecível 

As folhas das árvores refrescam 
Os desejos tão voluptuosos 
Como os olhares que se procuram 
Pelos húmidos lábios trocados 

Saciando dedos que se tocam 
Num lençol de pele tua sentida  
Oceano de perfumes no ar 

Beijos almiscarados navegam 
Numa alegria tão contida  

Mãos que se tocam para sonhar 

Mulher bela feiticeira tu és - poema

Mulher bela feiticeira tu és 
Deixas perfume nos teus encantos 
Voas alto nos céus em nuances 
Lenço negro cobre lábios 
  
És feiticeira dos meus encantos 
Bela magia de fazer sonhar  
Sedutora mulher de rituais 
Liberdade para longe voar 
  
Espírito para iluminar 
Com a luz que trazes dentro de ti 
Feitiços de símbolos mágicos 
  
Arrebatadora feiticeira  
Mulher de encantos que nunca vi 

Sonhei magia estrelas poeira 

Aceitei este enigma que sou - poema

Aceitei este enigma que sou 
Rasgos imprevistos de emoção 
Mas ainda não sei para onde vou 
Olhai meu espelho do coração 

Olho para mim com estranheza 
Sou o segredo para mim próprio 
Sem a cura nem outra grandeza 
Sou este por onde já habito 

Segredo para mim sem nobreza 
Encerro segredos por desvendar 
Sou uma resposta sem certeza 

Observas através do espelho 
A alma procuras sem encontrar 

Sinto a tua falta sem engano 

Podes ter esquecido as minhas palavras - poema

Podes ter esquecido as minhas palavras 
Palavras de amor ou de ódio 
Poemas de encantar e sonhar 
Palavras para dançar ao som da música 
  
Podes ter esquecido as minhas acções 
O que eu te fiz no passado 
Quando te dei a mão para subires até ao pico da montanha 
Aquele abraço de ternura 
  
Mas não esquecerás como te fiz sentir 
Te fiz sentir quando te disse uma palavra de amor 
Quando sorri para ti e os teus olhos brilharam 

Não esquecerás o dia em que a felicidade despertou em ti 

O poema acontece quando o homem quer - poesia

O poema acontece quando o homem quer 
Faça chuva ou sol 
Mesmo num dia de nevoeiro 
As palavras saem em catadupa 
  
E o poeta não é chalupa 
Simplesmente está apaixonado 
Pela graça da vida que acontece 
Na sua ínfima existência 
  
E escreve ao ritmo da cadência 
Da batida do coração
Onde os sonhos vão crescendo 
  
E o poeta sempre atento 
Aos sinais da vida 

Numa profunda gratidão