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terça-feira, 29 de maio de 2018

tinta permanente - João Pires - "Olhos Negros" (v2)

Estou só no cimo da muralha, ao amanhecer. O céu ainda está adormecido. Vestindo uma camisa preta, enterro as mãos nos bolsos para me aquecer do frio da madrugada. Ao longe, vejo a cidade entorpecida. Luzes apagadas e silhuetas de torres altas embriagadas de sono. Sopra um vento cortante que me alisa o cabelo. De olhos bem abertos, aponto para o infinito. Surgem sobre a linha do horizonte, tons alaranjados em forma de fatia no limite do céu ainda escuro. Por detrás das vidraças sujas e enormes, já sem o vento dilacerante, aprecio melhor o céu laranja no horizonte. Visto o casaco de couro preto e desço em passo apressado as escadas de ferro até à rua ainda escura. Um anúncio luminoso acende descompassadamente.  
  
Subo para a bicicleta e pedalo sobre a cidade sem movimento. Apenas alguns candeeiros dão vida às ruas, criando sombras projectadas sobre os edifícios industriais desertos. Sacos de lixo abandonados sobre os passeios, obrigam a uma trajectória ziguezagueante. Salto da bicicleta mais à frente e sigo para o bar ainda sem vivalma, mas já com as luzes acesas. Dirijo-me ao frigorífico e retiro uma garrafa de refrigerante laranja. De súbito deparo com uma velha senhora de sorriso contido e olhar penetrante. Tão misterioso que deixei cair a garrafa e de um sopro só, desatei a correr porta fora. Rodei à direita e enfio por uma rua pouco iluminada. Cruzo-me com um par que se beija apaixonadamente. Quando olham para mim, vejo o mesmo olhar lancinante e negro. Continuo a correr pela rua fora. Entro num salão de jogos onde as únicas luzes acesas, são dos ecrãs das máquinas.  Apenas uma máquina de jogo esta a ser utilizada por duas pessoas de cabelos compridos, camisa azul e saias verdes.  
  
Estaquei. Quando se viraram para mim, tinham os olhos baixos. Fiquei estarrecido, porque parecia adivinhar o que viria a seguir. Levantaram os olhos e o mesmo olhar penetrante entrou dentro de mim. Olhos negros fuzilantes em rostos asiáticos intrigantes. Atravessei a sala dos videojogos em passo acelerado e passei à sala das mesas de bilhar. Dirigi-me à porta de saída num ápice, tendo tido tempo para sacar uma chave de automóvel. A porta deu passagem para o parque de carros. Experimentei a chave no carro preto e não abriu. Olhei para trás para me certificar que ninguém vinha atrás de mim. Os sons eram assustadores e arrastados. Consegui abrir a porta do carro vermelho. Entrei e bati a porta. Tranquei todas as portas. Rodei a chave e nada. Os barulhos continuavam, cada vez mais próximos. Rodei novamente e acelerei a fundo em direcção à saída. Atravessei o beco estreito, ladeado por caixotes do lixo e sacos, que não foram poupados à passagem em grande velocidade. Por fim atingi a rua principal e viro à esquerda. Continuo a vaguear pela cidade ainda adormecida. Vou cantarolando a música que passa na rádio. Já fora da cidade e numa zona totalmente despovoada e solitária, paro o carro. Por fim caio em mim, e desato a bater com as duas mãos alternadamente, no volante do carro parado no meio do nada. De um salto venho cá para fora e dou mais duas murraças na porta do carro. Agora, já com o dia a despontar, vejo-me ao espelho retrovisor. Alinho o cabelo e vejo o meu rosto. Abandono o carro e sigo a pé por uma estrada de terra batida que passa por cima do rio. Mais ao fundo só estão plantados os aerogeradores, que rodam a ritmo certo, ao sabor do vento forte.  
  
Aproximo-me do rio, que segue furioso o seu caminho, espumando de raiva por vezes. Salto por cima das pedras grandes, espalhadas por cima de areia grossa e alguma vegetação rasteira. Ao fundo estão as montanhas serenas, como sempre. E eu respiro fundo e acordo do sonho.  
  
23-05-2018  
João Pires  
Autor do livro AMAR EM BAGOS DOURO  


quarta-feira, 23 de maio de 2018

tinta permanente - João Pires - "Olhos Negros"

Estou só no cimo da muralha, ao amanhecer. O céu ainda está adormecido. Estou de camisa preta e mãos enfiadas nos bolsos para me aquecer do frio da madrugada. Ao longe, vejo a cidade adormecida. Luzes apagadas e silhuetas de torres altas embriagadas de sono. Sopra um vento forte que me alisa o cabelo. De olhos bem abertos, aponto para o infinito. 

Surgem sobre a linha do horizonte, tons alaranjados em forma de faixa no limite do céu ainda escuro. Por detrás de vidraças enormes, já sem o vento cortante, aprecio melhor o céu laranja no horizonte. Visto o casaco em couro preto e desço em passo apressado as escadas de ferro até à rua ainda escura. Um anúncio luminoso acende intermitentemente. Subo para a bicicleta e pedalo sobre a cidade sem movimento. Apenas alguns candeeiros dão vida às ruas, criando sombras projectadas sobre os edifícios industriais abandonados. Sacos abandonados lixo sobre os passeios obrigam a uma trajectória ziguezagueante. 

Paro um pouco mais à frente e dirijo-me para o bar ainda sem vivalma, mas já com as luzes acesas. Dirijo-me ao frigorífico e retiro uma garrafa de refrigerante laranja. De súbito deparo com uma velha senhora de sorriso contido e olhar penetrante. Tão penetrante que deixei cair a garrafa e de um sopro só, desatei a correr porta fora. Rodei à direita e enfio por uma rua pouco iluminada. Cruzo-me com um par que se beija apaixonadamente. Quando olham para mim, vejo o mesmo olhar penetrante e negro. Continuo a correr pela rua fora. Entro num salão de jogos onde as únicas luzes acesas, são dos ecrãs das máquinas.  Apenas uma máquina de jogo esta a ser utilizadas por duas pessoas de cabelos compridos, camisa azul e saias verdes. Estaquei. Quando se viraram para mim, tinham os olhos baixos. 

Fiquei estarrecido, porque parecia adivinhar o que viria a seguir. Levantaram os olhos e o mesmo olhar penetrante entrou dentro de mim. Olhos negros fuzilantes em rostos asiáticos intrigantes. Atravessei a sala dos videojogos e passei à sala das mesas de bilhar. Dirigi-me à porta de saída, tendo tido tempo para sacar uma chave de automóvel. A porta deu passagem para o parque de carros. Experimentei a chave num carro preto e não abriu. Olhei para trás para me certificar que ninguém vinha atrás de mim. Os sons eram assustadores. Consegui abrir a porta do carro vermelho. Entrei e fechei a porta. Rodei a chave e acelerei a fundo em direcção à saída. Atravessei o beco estreito, ladeado por caixotes do lixo e sacos, que não foram poupados à passagem em grande velocidade. Por fim atingi a rua principal e viro à esquerda. Continuo a vaguear pela cidade ainda adormecida. 

Vou cantarolando a música que passa na rádio. Já fora da cidade e numa zona desértica, paro o carro. Por fim caio em mim, e desato a bater no volante do carro parado no meio do nada. De um salto venho cá para fora e dou mais duas murraças na chapa do carro. Agora, já com o dia a despontar, vejo-me ao espelho retrovisor. Alinho o cabelo e vejo o meu rosto. Abandono o carro e sigo a pé por uma estrada de terra batida que passa por cima do rio. Mais ao fundo só estão plantados os aerogeradores, que rodam a ritmo certo. Aproximo-me do rio, que segue furioso o seu caminho, espumando de raiva por vezes. Salto por cima de pedras grandes espalhadas por cima de areia grossa e alguma vegetação rasteira. Ao fundo estão as montanhas serenas, como sempre. E eu respiro fundo e acordo do sonho. 

23-05-2018 

João Pires 

Autor do livro AMAR EM BAGOS DOURO 


Joao Pires autor
Joao Pires autor