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terça-feira, 24 de abril de 2018

tinta permanente - João Pires - "Noite Perfeita"

Noite Perfeita

Segue no comboio, com o boné enterrado até aos olhos.
Lá fora, o sol brilha sobre a neve. As árvores não tremem de frio. 
Sentado só no banco junto à janela, olha para a foto dela. 
Aquela foto do tempo em que foram felizes. Manuseia-a com carinho. Segura-a com as duas mãos. Como se a pudesse acariciar. Guarda-a cuidadosamente no bolso do casaco e de seguida pega na mochila. 
Prepara-se para sair do comboio. A porta abre-se e desce as escadas, olhando em volta. Paro mais à frente e volta-se para uma janela grande, ainda na zona da gare. Olha com mais atenção para o interior e reencontra o seu sorriso. Ela estava lá à sua espera. Está igual à foto que há momentos acabara de apreciar uma vez mais. Dirige-se para o interior do café e corresponde ao seu sorriso. Depois de um abraço apertado e na companhia de um café quente, recordam outros tempos. Pouco mudaram.  

Inesperadamente, ela levanta-se e corre na direcção de um rapaz alto de camisa vermelha aos quadrados. Salta para o seu colo e beija-o. Como se desvaneceu o momento que ele estava a viver. Por fim, reuniram-se todos para subir à montanha. Ele conduzia o carro, com uma expressão de desilusão que rapidamente mudava, quando se cruzava com o olhar dela, através do espelho retrovisor. Cantavam músicas da rádio, ela apoiava-se no seu ombro, quando se chegava à frente para sintonizar outra estação e ele sentia aquele toque no ombro de forma especial. Pelo retrovisor conseguia ver os seus lábios carnudos em movimento, acompanhando as músicas que passavam na rádio. E sonhava, sem perder o tino à estrada. A viagem pareceria demorar eternidades até chegar ao cimo da montanha. Mas depois de instalados na casa de madeira, foram esquiar pela montanha branca de neve. Divertiram-se a fazer piruetas e acrobacias durante todo o dia. Ele puxava-a com delicadeza até ao ponto de saída. Outras vezes subiam na mesma cadeira até ao cume da montanha.  

Veio a noite, acenderam foguetes luminosos e começaram a descer a montanha aos pares. Uma descida fantástica, que dependia apenas da luz dos foguetes luminosos. Depois daquela aventura no escuro, regressaram à pequena aldeia e foram jantar em alegre convívio. O grupo brindou à amizade, bebendo em sincronia, a partir de copos fixados numa tabua corrida. Quando se inclina a tábua, todos bebem ou perdem o precioso líquido. Uma verdadeira farra. Veio mais cerveja e a diversão não parava. Depois veio o caraoque com a neve a cair lá fora. Como lhe ficava bem aquele gorro azul e branco e os longos cabelos a dançarem, enquanto segurava o microfone. Os quatro cantavam com alma no pequeno palco. Ele observava o espectáculo a partir da mesa. Acenava batendo palmas como um qualquer espectador. De seguida retirou-se e saiu do bar e foi caminhar pela estrada branca de neve. As luzes do pequeno bar e dos restantes edifícios iluminavam a rua. Fazia um frio seco, agradável até, para uma caminhada. Ela veio de seguida e apanhou um pedaço de neve e fez uma bola que atirou ao gorro negro enfiado na sua cabeça. Ele virou-se e sorriu para ela. Ficaram a contemplar-se. De imediato estavam deitados sobre a neve macia, olhando para o céu estrelados, abrindo e fechando os braços e as pernas, tal como o movimento dos limpa para-brisas e riam alto como duas crianças. Pararam no momento em que as suas mãos e pés se tocaram e olharam ternamente um para o outro. Ele atirou-lhe uma pequena bola de neve, de surpresa. Ela correu para ele e saltou para as suas costas, carregando-a assim, cerca de dez passos. Já no chão, pegou no fecho do casaco e abriu-o, como se procurasse o seu calor e ofereceu-lhe o mais belo sorriso. De regresso ao bar em madeira, percorreram a rua também iluminada por árvores com pequenas luzes, continuando a cair minúsculos flocos de neve. Ele foi buscar a caixa de cartão com comida para cear na cabana. A caminho, foram conversando alegremente até chegar à pequena cabana em madeira iluminada à entrada. Já no seu interior, ele pousou a caixa na pequena mesa de madeira. Ela abriu para tirar um pedaço da piza e viu a seguinte mensagem no interior da caixa: 

“Escrevi uma canção para ti.” 

Ela sorriu e olhou para ele e ficou à espera, enquanto trincava uma fatia de piza. Ele abocanhou uma fatia de piza e fez caretas, encolhendo os ombros, criando expectativa. Partilharam a comida. Ela calçou umas meias de lã mais confortáveis e vestiu uma camisola mais quente. Ele foi buscar a viola e sentou-se no banco de madeira. Deu os primeiros acordes e olhou para ela. Começou a canção escrita para ela, embalado pelo ritmo, à luz de duas velas. Os olhos dela brilhavam de emoção, tentando adivinhar as palavras que brotavam da sua boca. Olharam uma vez mais para a fota tirada uns anos antes em que ela o beijava na face. De súbito, ele convidou-a para uma noite perfeita. E isso implicava dançar debaixo da neve. Ela aceitou de imediato e no omento seguinte estava lá fora a dançar com os pequenos flocos de neve a cair sobre eles. Dançavam chegados, pois o frio assim convidada, tão chegados que os seus narizes se tocavam. A distância do olhar havia encurtado como nunca. Ela passou a sua mão pelos seus cabelos e aproximou o seu rosto em direcção aos seus lábios. Fechou os olhos e beijou-o numa dança contínua durante a noite perfeita. Até nascer o dia. 
  
24-04-2018 
João Pires 

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Joao Pires autor

terça-feira, 17 de abril de 2018

tinta permanente - João Pires - "Água cristalina de fundo azul"

Água cristalina de fundo azul e reflexos provocados pelas pequenas ondas.
Pequenas ondas originadas pelos teus movimentos suaves debaixo de água, por onde desliza um corpo elegante e longos cabelos negros.

E vens à tona da piscina de hotel e deparas com a zona alta da cidade, enquanto ainda respiras aceleradamente e de olhos bem abertos perante cenário tão belo.
E eu abro a janela e deparo com a imensa avenida debaixo de céu azul.
Encho o peito de felicidade por conhecer esta cidade e a música que baila nos meus ouvidos.
Passeias pela zona histórica numa manhã cheia de luz, desces até à margem do rio e contemplas as embarcações à vela ancoradas no cais na outra margem, com o teu vestido branco de seda esvoaçando lentamente ao ritmo da brisa.

E eu caminho com o sol baixo, desenhando uma silhueta negra projectada no chão polido de granito.
Subo agora da zona histórica em direcção à ponte cinzenta em ferro. Agora que estou debruçado sobre a ponte e aprecio a estupenda vista ao longo do rio, como eu gostaria de te conhecer, para partilhar a alegria que agora sinto.
E tu estás mesmo ali, e eu não te vejo. Os teus cabelos esvoaçam suavemente ao sabor do vento, largando um suave perfume que chega até mim.
Neste instante estou cá em cima, desfruto de uma imensa vista sobre o rio, até à foz. Os barquinhos em madeira, parecem tão pequeninos.

Agora que viajas de metro para cruzar a ponte sobre o rio, sorris docemente com o teu reflexo na janela. Vais piscando os olhos com o sol que brilha na tua pele.
E eu espero por ti cá fora, sem saber. Vou percorrer as ruas antigas da cidade, numa revelação constante de recantos e escadas estreitas, onde os telhados quase se beijam. Percorro caminhos no velho eléctrico amarelo-torrado e o céu azul já se enfeitou de nuvens brancas.
E tu sobes à zona alta da cidade, e avistas um mar vermelho de telhados com o rio ao fundo, onde passeiam barcos à vela, empurrados pelo vento, cada vez mais forte.
Eu continuo a subir as velhas escadas íngremes e estreitas da cidade, onde se escondem muitas histórias do passado.
E tu passeias mesmo ali ao lado, com o teu vestido branco de seda, esvoaçando em direcção ao mosteiro em granito. Deslumbrada, deslizas os dedos sobre os azulejos azuis e brancos que retratam cenas antigas.

Eu vou à varanda do edifício da música para apreciar o sol que ainda vai alto. Lá embaixo deslizam meninos em cima de pranchas com rodas velozes, numa alegre algazarra.
E num desencontro de corações, subo as escadas em alumínio e tu passeias no piso superior. Vais parar à varanda onde já estive por momentos. Sentes o meu perfume, enquanto aprecias a paisagem em céu azul sem nuvens.

Jardins, casas, palacetes, ruas antigas e nunca te vi. Museus, e a livraria onde folheias um livro e eu desço as antigas escadas vermelhas. Não te vi.
Enquanto saboreias um copo de vinho, dentro das caves, sonhas com paisagens deslumbrantes nas encostas do rio onde a uva ganha açúcar. E depois vens ao mercado tradicional onde aprecias o artesanato local e experimentas um par de óculos de sol. E o dia está a chegar ao fim. Que linda paisagem junto ao mar, agora que o sol desaparece na linha do horizonte. Um passeio de bicicleta no final do dia, junto ao mar de ondas de espuma branca.

Passaste por mim, como se já nos tivéssemos cruzado dezenas de vezes durante o dia. No mar, os surfistas ainda deslizam sobre as ondas batidas de crista alta.
E um concerto de final do dia no parque. À minha volta está um mar de gente. Tiro uma foto para mais tarde recordar este dia cheio. Depois de olhar para a foto com atenção, descubro uma cara sorridente que poderia ter partilhado comigo aquele dia.
Mais tarde, brindamos à felicidade num final de dia fantástico, onde o céu se divide em azul e tons de fogo.

E a noite chega depressa, passeias ao meu lado em avenidas de luz e reflexos no rio.
A noite enche-se de festa com pessoas animadas em todas as ruas. E danças comigo em alegres rodas naquela rua cheia de vida. E por fim chega o fogo-de-artifício a fechar com um beijo de paixão.

17-04-2018
João Pires


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Joao Pires autor
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segunda-feira, 9 de abril de 2018

Poema de Márcia Tonoli "Amor Virtual"

Amor virtual
É um amor surreal
Que se torna real
Que nos conquista
Em palavras a quilômetros
De distância
É um alguém especial
Que mexe com os sentimentos
Que adentra
Nosso coração
De um jeito arrebatador
Nos deixa ansiosos
Nos deixa encantados
Nos faz suspirar
Por algo que tocamos
Com a alma
Tocamos de um jeito suave
Mas verdadeiro...
Sentimos o respirar do ser
Amor.
Sentimos  tristeza
Em seu falar
Sentimos tudo
O que o outro sente.
Sentimos ciúmes desse amor.
Um amor que nasceu aqui
Nessas linhas virtuais
Que nos marcou para sempre.

Autoria :Marcia tonoli
Data:27/03/2018