Seguir por email

sexta-feira, 29 de abril de 2016

tinta permanente - João Pires - "Viagem Pendular"

Viagem Pendular por João Pires

http://tinta-permanente.blogspot.pt/


Seis da manhã. O sono abandonou-me. O dia começa a clarear. Entrelacei os dedos das mãos e pousei-as em cima do peito. Inspiro fundo e prolongadamente.
Gabriela dormia a meu lado um sono descansado. O dia de ontem tinha sido intenso e eu tive a oportunidade de partilhar a sua felicidade durante o almoço.

Levantei-me calmamente e dirigi-me à cozinha para beber um copo de água. Antes de chegar ao destino, fui barrado pelas gatas de quatro patas lá de casa. Queriam mimos. Depois de lhes passar a mão pelo pêlo, prossegui as tarefas matinais. Descongelar as fatias de pão. A gaveta estava presa. Duas pancadas secas e já está. Um batido de leite e cacau para as crianças e leite com cereais para mim.

Espreitei lá para fora e a neblina pesava sobre o rio. Pouco tempo depois começou a levantar.

Entretanto chega o Tiago já vestido, pronto a tomar o pequeno-almoço.
-Bom dia filho
-Bom dia, respondeu em voz lenta.
Duas torradas de pão escuro com manteiga e a caneca à frente, acompanhado do tablet em cima da mesa, claro.

Coloquei o relógio no pulso, enfiei as calças e vesti a camisa. Apertei a gravata. Despedi-me de Gabriela e dos meninos.

-Até logo.
-Boa viagem papá, responderam.

Já na estação de Campanhã, as gares estavam movimentadas. Comboio 620 é na linha oito, confirmei no placard electrónico. Desci as escadas apenas com uma pasta preta na mão, atravessei o túnel por baixo das linhas até alcançar a oito.

Um vaivém de passageiros. Alguns a chegar, outros a partir.
O comboio chegou quase dez minutos antes da hora o que deu tempo suficiente para todos os passageiros subirem às carruagens respectivas e se instalarem devidamente nos seus lugares.

Morena, óculos de sol enfiados no cabelo, calças justas, casaco azul petróleo, chega com uma mochila e uma mala verde. Entrou em Coimbra, com a respiração ofegante, provavelmente chegou atrasada à estação. Enfiou a mala na prateleira superior, por cima do seu lugar e pousou a mochila ao seu lado. Passado uns momentos, tirou umas bolachas e começou a mordiscar.


tinta permanente - blogue - Viagem Pendular por João Pires
Viagem Pendular por João Pires

-Venho de férias e recebo um horário de trabalho por turnos que não lembra ao diabo.
Devem achar que lá por a gente não ter filhos ou estar casada não tem vida própria. A sério: estou passada. Queria ir trabalhar para um centro de saúde. Fez-se uma pausa e respondeu.

Fechei o meu livro. Primeiro porque as letras atraiçoavam os meus olhos, bailando ao ritmo do balanço do comboio.
Depois porque a voz daquela moça com sotaque de África, conseguiu atrair a minha atenção.

-Só posso no sábado ao almoço ou no domingo para um lanche ou jantar. Percebeste? Sábado ao almoço ou no Domingo para um lanche ou jantar. No sábado à noite tenho um jantar com as colegas do serviço e vocês como não as conhecem, seria desagradável. Sinceramente, prefiro estar só com vocês. Convida a Ana e a Nara. Beijos. Desligou o telemóvel.

O sol vai alto, próximo do meio dia e a temperatura começa a aumentar, devem estar uns 17 ou 18 graus, pensa.

Surge o revisor e pede o bilhete. Procura no bolso e não está lá. Pede ao revisor que aguarde uns momentos e verifica na carteira. Também não encontrou. Toca o telemóvel e não atende. Passa em revista a mochila, enfiando a mão até ao fundo. Nada. O telemóvel volta a tocar. Desligou-o.
O revisor perguntou se tinha comprado um bilhete electrónico, pois bastaria apresentar o documento de identificação. Respondeu negativamente. Tinha o bilhete em papel. Pediu ao revisor que passasse dali a dois minutos. Assentiu, percorrendo o carruagem que tinha apenas mais oito ou nove passageiros naquela quarta-feira como tantas outras.
Quando regressou ao lugar 12 da carruagem 11, ela ainda não tinha encontrado o bilhete, no entanto como o revisor tinha vindo do lado oposto, perguntou-lhe se o bilhete não seria aquele papel caído no chão debaixo do assento.
Puxou o papel e verificou que se tratava efectivamente do bilhete desaparecido. Obliterou-o e desapareceu. Suspirou de alívio e encostou a cabeça por uns momentos. Depois tirou o telemóvel da carteira e foi ver quem. tinha tentado ligar-lhe.

De súbito ouve-se uma voz metálica:
-Senhores passageiros, dentro de momentos chegaremos à estação de Vila Franca de Xira. Obrigado.

Pairam algumas nuvens no ar, apesar do sol se fazer sentir em toda a sua plenitude.
O tecto branco do interior da composição e a luz exterior coada pelas cortinas verdes do Intercidades evocam a natureza. Estava fresco dentro da carruagem, devido ao ar condicionado.

À minha frente está sentado um homem de cabelo ralo e camisa branca, com cotoveleiras castanhas e pintas brancas. Pendurou a mão no varão em aço superior, junto à janela como que para descansar. Fez uma chamada telefónica murmurando uma palavras impossíveis de decifrar, sobretudo pelo abafar do ruído provocado pelas rodas da composição e pelo ritmo cadenciado na passagem das juntas de união dos carris, em jeito de música minimal repetitiva. Do meu lugar, apenas consigo ver a zona calva da sua cabeça.

De cada vez que outro comboio se cruza no sentido oposto, provoca uma força de sucção junto às janelas, quase arrancando-as.

A voz metálica repete-se, desta vez para anunciar a estação-destino: Oriente.

A maioria dos passageiros saiu naquela gare. Hoje em dia, são poucos os que prosseguem viagem até o fim da linha, a histórica Santa Apolónia. O dia mantém-se bonito.

Depois de comprar uma sanduíche de atum e tomate seco e um sumo natural de frutos vermelhos, atravessei o Centro Vasco da Gama, passei ao lado do Meo Arena e sentei-me num daqueles bancos listados às cores, situados mesmo à beira-rio, debaixo da copa de um pinheiro, que produz frescas sombras.

-Trouxe esta comida de casa, ouve-se num banco atrás, sem conseguir ver quem era a rapariga que estava a falar. Não rodei a cabeça intencionalmente. Depois de escutar mais uns minutos, deviam estar sentados pelo menos três pessoas.
-Ou odeia ou ama. Eu adoro, diz com uma pronúncia de português do Brasil.
-Eu não gosto nem desgosto, responde outra voz feminina, depois de provar.
-Tem mandioca? Perguntam?
-Eu estava na Suíça, quando recebi uma multa das Finanças. O valor de vinte euros, por ter declarado zero nos rendimentos, porque não trabalhava em Portugal, mas tinha um carro registado em meu nome. Não liguei. Passados uns meses, recebi nova carta com uma coima de quinhentos euros. Aí já me preocupei e fui pedir o pagamento em prestações, o que me foi concedido. Quando fui pagar a primeira prestação, informaram que o processo tinha sido arquivado, em face da minha reclamação, alegando que sou emigrante. Não é fantástico?

Terminaram o almoço e levantaram-se. Eram sete.

O dia passou a correr.

Estava na hora de regressar a Campanhã. Desta feita o comboio é branco por fora e azul por dentro.

-Senhor, a sua carruagem vai parar junto ao segundo elevador.
-Obrigado.

Depois de me instalar, dei uma breve leitura no jornal e terminei o meu livro.


Viagem Pendular

João Pires



tinta permanente João Pires
http://tinta-permanente.blogspot.pt/2016_07_01_archive.html#15599264172877102

segunda-feira, 25 de abril de 2016

"Morning Maria" (EN) by João Pires

Morning Maria

João Pires




Delayed, he went down to the garage, waited and fit the kids in the car, and fully pressed the gas pedal to the early delivery of custom. He went up to the city center and let the older front of the language institute.
- Always cross at marked crosswalks, obey any pedestrian signals and look left-right-left, if a vehicle approaches, make eye contact with the driver and just look before walking past stopped vehicles, I told him.
- All right, he nodded the small, yet wearied by sleep, although eleven in the morning.
Then he went on trip to post the youngest in tennis class. Traffic was sticky. He walked at a leisurely pace. Later I could hear live music from an accordion squealed musical notes and a dancing cow, waving to passersby.
- What is that cow doing here, Dad?
- Behind that cow and the accordion is a butcher.
Chances are doing a promotion to the butcher.
- What is promotion? Insisted the girl.
Promotion is a kind of reminder. We're here. Come here.
- Ah yes. I get it, she said. Come here to buy beef, concludes.
- That.
That's weird. A cow dancing to the sound of blaring accordion music and invite to be eaten. The sound of music stayed behind to leave to hear completely, drowned out by traffic noise. Once inside the small roundabout, made output signal towards the tennis club.
He wished her good workout, kissed her on the forehead and sent her to the presence of Kiri teacher. Then he left the club, followed by walking tour and something caught his attention. There was a movement of people out of the ordinary for a Saturday morning. Scout everywhere. Young daisies, brownies, cadettes, ambassadors, tigers, wolves, bears and webelos.
- Hello, I asked. Why are so many scouts here?
- Today is the World Day of Scouting and we are gathered here, said a young not too short and not too long, elegant shoulder length falling right at curly and cute hairstyle and freckles to compose her face.


I followed my way up to the terrace as usual. I ordered a coffee at the counter to serve on the terrace. Smells like hotcakes. The sky was grey but just promised rain. Came the orange uniformed maid with coffee. Unpleasantly warm. I decided not to complain. Too relaxed for such task. The terrace had two or three tables occupied. On the table in front of me were two young girls producing selfies with her phone decorated with pink hearts. Eyes in seductive position.
-Don't make a kissing gesture with your lips, says one to other. A closed-mouth coy smile can be just as appropriate with her own fleshy red lipstick just for selfies and hair to compose faces. Enjoyed themselves for a few minutes making portraits of two teenager girls friends holding heads together aond pulling her faces at the camera.
The boy sat in front is limited to follow the production of selfies and talking about the school subjects. Girls paid no attention.
I consulted my paper notebook and went back to reading notes from January 2015. As it is curious that so important notes on that date had passed to history and to have lost all importance. I finished the coffee and stuck the notepad in my pocket. I went to the counter and was attended by another maid orange juice.
- That will be sixty-five cents, please.
- Here you are. Have a nice day.
Out toward the municipal library, right there in front of me. I crossed the street outside the crosswalk. Minutes before had asked the children to cross only at crosswalks.


2016-library-biblioteca-sketch-desenho-aguarela-watercolor_Joao-Pires.jpg


The outer part of the library consists of an adjustable Louvre awnings to make some sha inside, thus producing an indirect light.
In the lobby was an art exhibition of painters who could one day become famous. At least some of them. Went up to the top floor, the reading of the floor for the adults, it is written at the entrance. There was running a Reading Program for Young Adults.
- Good morning, I threw the librarian.
- Good morning, she said lifting his head and back to dive eyes a dense volume, after adjusting the glasses.
The books were there lined up on each shelf, as if waiting to be chosen and handled. Some had been blessed with such luck, as they were on the tables waiting to be brought back to their home shelves after a brief statistical registration. On that day, I felt that the books were even willing to talk. The ideas were trapped in that library. Sometimes I find beautiful thoughts in almost unknown books.
I went through the stacks feeling that their ideas out less and less to the street.
Outside living the reality show, the selfie, social networks, Botox and many other realities of the twenty-first century.
One in the afternoon . Time to go get the kids.



João Pires



domingo, 24 de abril de 2016

tinta permanente - João Pires - "Manhã Maria"


http://tinta-permanente.blogspot.pt/

João Pires

Atrasado, desceu à garagem, esperou e encaixou as crianças no carro, carregou no pedal a fundo para fazer a distribuição matinal do costume. Subiu até ao centro da cidade e deixou o mais velho frente ao instituto de línguas.
- Pisa a passadeira e só atravessas depois de teres a certeza que não vem algum carro ou que já te avistaram para tu passares em segurança, disse-lhe.
- Está bem, assentiu o pequeno, ainda enfadado pelo sono, apesar de serem onze da manhã.

Depois prosseguiu viagem para deixar a mais nova na aula de ténis. O trânsito estava peganhento. Andava a um ritmo vagaroso. Mais à frente ouvia-se música ao vivo proveniente de um acordeão que guinchava notas musicais e uma vaca dançava, acenando para os transeuntes.
- O que é que aquela vaca está ali a fazer, pai?
- Por trás daquela vaca e do acordeão está um talho.
Provavelmente estão  a fazer uma promoção ao talho.
- O que é promoção? Insistiu a pequena.
Promoção é uma espécie de lembrete. Estamos aqui. Venham cá.
- Ah, sim. Já entendi, declarou. Venham cá comprar carne de vaca, conclui.
- Isso.

Que estranho. Uma vaca a dançar ao som da música do acordeão estridente e a convidar para ser comida. O som da música ficou para trás até deixar de se ouvir por completo, abafada pelo ruído do trânsito. Já dentro da pequena rotunda, fez sinal de saída em direcção ao clube de ténis.
Desejou-lhe bom treino, beijou-a na testa e encaminhou-a até à presença da professora Kiri. Depois abandonou o clube, seguiu a pé pelo passeio e algo lhe chamou a atenção. Havia um movimento de pessoas fora do habitual para um sábado de manhã. Escuteiros por todo o lado. Jovens lobitos e os caminheiros.

-Olá, perguntei. Porque é que estão aqui tantos escuteiros?
-Hoje é o dia mundial do escutismo e por isso estamos aqui reunidos, respondeu uma jovem de cabelo cobre encaracolado a cair pelos ombros e sardas a compor rosto.
Segui o meu caminho até à esplanada do costume. Pedi um café ao balcão para servir na esplanada. Cheira a pão quente. O céu estava farrusco mas não prometia chuva. Veio a empregada fardada de laranja de bandeja com o café. Desagradavelmente morno. Decidi não reclamar. Demasiado relaxado para tal tarefa. A esplanada tinha mais duas ou três mesas ocupadas. Na mesa à minha frente estavam duas jovens a produzir selfies com o telemóvel decorado com corações rosa. Olhos em posição sedutora, boca ora entreaberta, ora repenicada em forma de beijo. Batom vermelho carnudo próprio para selfies e cabelos a compor os rostos. Cabeças levemente encostadas e divertiram-se durante uns minutos. O rapaz sentado na sua frente limita-se a acompanhar a produção de selfies e a falar da escola. Elas não prestaram atenção.

Consultei o meu bloco e notas e voltei a ler apontamentos de janeiro de 2015. Como é curioso que apontamentos tão importantes naquela data, tivessem passado à história e até tenham perdido toda a importância. Terminei o café e enfiei o bloco de notas no bolso. Dirigi-me ao balcão e fui atendido por outra empregada de sumo de laranja.
-São sessenta e cinco cêntimos, por favor.
-Aqui estão. Bom dia.
Sai em direção à biblioteca municipal, ali mesmo em frente. Atravessei a rua, fora da passadeira. Minutos antes havia pedido às crianças para atravessar exclusivamente nas passadeiras.

biblioteca
A biblioteca

A parte exterior da biblioteca é constituída por umas réguas metálicas horizontais por forma a fazer sombra no seu interior, produzindo assim uma luz indirecta.
No átrio estava uma exposição de arte de pintores que um dia poderão vir a ser famosos. Pelo menos alguns deles. Subi ao andar de cima, o piso da leitura destinado aos adultos, assim está escrito à entrada.

-Bom dia, atirei à bibliotecária.
-Bom dia, respondeu levantando a cabeça e voltando a mergulhar os olhos num denso volume, depois de ajustar os óculos.

Os livros lá estavam alinhados em cada prateleira, como se estivessem à espera de serem escolhidos e manuseados. Alguns tinham sido abençoados com essa sorte, pois estavam em cima das mesas à espera de serem reconduzidos às suas prateleiras de origem, após um breve registo estatístico. Naquele dia, pressentia que os livros estavam mesmo com vontade de falar. As ideias estavam aprisionadas naquela biblioteca. Por vezes consigo encontrar belos pensamentos em livros quase desconhecidos.
Passei por entre as estantes sentindo que as suas ideias saem cada vez menos à rua. Lá fora vivem o reality show, as selfies, as redes sociais, o botox e outras tantas realidades do século XXI. Uma da tarde. Hora de ir buscar as crianças.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

tinta permanente - João Pires - "A Esplanada"


João Pires


Sete da tarde de um Abril. Céu azul leve. O sol ainda brilha na esplanada do café. Abrigada ao vento, está já quase deserta. As chávenas abandonadas, fazem companhia aos cinzeiros de vidro ainda com restos de cinza, apesar do vento aéreo que se encarrega de ir fazendo a limpeza.

Um grupo de rapazes, alguns com cabeça rapada, mas nada que o tempo não faça regressar o bom cabelo, de capacetes pousados na mesa ao lado, discutem de forma animada, provavelmente uma saída mais logo à noite, depois do jantar. Hoje é Sexta-Feira do final do mês.


tinta permanente Joao Pires A Esplanada
tinta permanente - Joao Pires - "A Esplanada"


Uma lata amarela de refrigerante jaz, provavelmente vazia, mas inabalável, ainda com a palhinha, apesar do vento, ao lado dos capacetes pretos e redondos.

Um dos rapazes levanta-se, e olhos esbugalhados, quase a saltar das órbitas, por nada desta vida, talvez tivesse assim nascido e assim ficou até aos dezasseis.

- Até logo, respondeu Diogo, e saiu encavalitando a mochila no ombro.
Afastou-se da tribo e dirigiu-se para casa.





tinta permanente João Pires