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quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Escola primária

A campainha ainda ressoava pelos ares, mas a maioria dos alunos já tinha saído da sala de aulas.
era a última manhã e todos já se encontravam próximo do autocarro.
Não esqueçam de fazer o trabalho para casa, gritou a professora.

Escola Primária


Até segunda, respondeu uma voz divertida e estridente.

Era sexta feira. Veio à lembrança o andar sozinho. A mulher-a-dias teria partido ao meio dia.
A roupa estava passada a ferro e depositada no tabuleiro, para ela distribuir pelas gavetas.

Os jarros lavados, no balcão da cozinha, as flores e a folhagem no balde de plástico, o almoço no fogão e a mesa posta.

A Elsa teimava em pôr-lhe a mesa e em não se servir do tabuleiro, que ela usava ao fim de semana, sem paciência para se servir a si própria.

Não era ainda primavera, mas respirava-se um sol que as violetas do jardim, que se viam da janela da sala de aula, aprisionavam nos caules verdes.


por João Pires

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Violetas à beira do rio

À beira do rio nascem violetas ao comprido lá dizia a canção. 

Mas não ali. Ali nasciam detritos e a miséria cobria os homens duma lepra espessa que os deformava.
Enxames de criançada procuravam horizontes e aventura no rio podre, estagnado ao sol, como um bicho morto.
Barcaças negras, dum negro mineral de carvão, mais negro que a faina dos carrejões, suados, arquejantes sob os sacos, oscilavam, molemente ao ritmo, lento, das águas.

Nas escadas as mulheres lavavam e havia estendais de trapos e roupas pobres nas amarras.

Pormenor da Ribeira do Porto
De costas para a margem, viradas para a margem, viradas para a amalgama do casario, telhados tortos cheios de musgo e líquenes, fachadas ocres avinhadas, dum brilho embaciado de azulejos antigos, que o granito dos cunhais sujava e envelhecia ainda, erguiam-se as barracas do mercado.

Ouviam-se as vendedeiras a tentar a freguesia.

domingo, 10 de agosto de 2014

O Zarolho

No dia em que o meu pai comprou o peixe vermelho para o aquário, ela passou horas seguidas a vê-lo nadar de um lado para o outro. E foi ela que, de repente, descobriu:
- Mas este peixe só tem um olho!

Peixe Zarolho


Corremos todos ao aquário. Era verdade. O peixinho vermelho, acabado de chegar a nossa casa, não tinha o olho direito. Nem sinal dele.
- Para que quero eu um peixe zarolho cá em casa? - disse logo a minha mãe, que não gosta lá muito de bichos.
- Mas ele com um olho vê tão bem como com dois - disse o meu pai.
- Olha como ele encontra logo a comida que a gente lhe deita...
Lembro-me: o peixinho corria, feito doido, de um lado ao outro do aquário mal a água se enchia de pequeninas folhas rosadas que vinham dentro de um frasco que o pai comprara com ele.

E era tão engraçado quando se virava do lado em que devia haver um olho e não havia...

"Rosa, Minha Irmã Rosa"


"Rosa, Minha Irmã Rosa"
Alice Vieira
Caminho